quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

o fungágá da livralhada

As melhores leituras em 2011 foram:

Emigrantes. Shaun Tan (Kalandraka, 2011)
Porque nesta obra visual vislumbro todas as imagens e sombras do partir.

Suite 605. João Pedro Martins (Smartbook, 2011)
É uma investigação por conta própria a chapar-nos nos olhos os esquemas de como nos roubam alegremente. Aqui o link.

É de noite que faço as perguntas. David Soares (Saída de Emergência, 2011)
Um texto desarmante para quem estava à espera de uma bêdêzinha feita para agradar ao patrocinador do centenário de um feriado essencial (que para mim assinala a não aceitação de uma seita privilegiada), agora extinto (pelo menos o feriado; o patrocinador não sei). O texto termina assim.

Storytelling. Gabriel García de Oro (GestãoPlus, 2011)
Várias histórias já me eram conhecidas e chegam-me em forward no email de tempos a tempos. O livro está pensado para as relações de trabalho, mas serve melhor como desbloqueador de conversa. E para os mais penitentes também inclui uma oração.

Guia de conceitos básicos. Nuno Júdice (Dom Quixote, 2010)
Enfiei aqui três poemas deste livro com que cheguei a 2011 e a que gosto de regressar às mijinhas. Tal e qual como quem gosta dos pensamentos selecionados do Paulo Coelho.

A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz (Assírio e Alvim, 1995)
Com este livro em casa há tantos anos, é estúpido que só agora eu o tenha abraçado.

 O retorno. Dulce Maria Cardoso (Tinta da china, 2011)
Li-o numa noite porque fiquei agarrado à procura do pai do protagonista desta história. Gosto dele não pela sua faceta de romance histórico - que particularmente o contexto pouco me interessa - mas pela dimensão poética do texto narrado na simplicidade de um rapaz e pela torrente de imagens que gera, absolutamente cinematográfico. Um poema sóbrio e sem artifícios, sem os malabarismos de um António Lobo Antunes.

O leitor escreve para que seja possível. Manuel Gusmão e Eduardo Coelho (Assírio & Alvim, 2001).
Ensina a ler. Faz parte do meu guia de orientação.

Coisas que nunca aconteceriam em Tóquio. Alberto Torres Blandina (Quetzal, 2011)
Não interessa que esta ficção de aeroporto conjugue episódios mais prováveis ou improváveis. Este livro não vale pela verosimilhança mas pelo prazer da leitura, pela degustação, que é afinal de contas a melhor forma de provar alguma coisa. Um gozo.

A dança das feridas. Henrique Manuel Bento Fialho (edição do autor, 2011)
Pois. É o melhor livro publicado este ano e esta dança alinhou o espanto e o prazer do texto numa cadência que talvez o poeta queira sempre irrepetível. Li-o à luz de um manual do mesmo autor - O meu cinzeiro azul - para respirar entre as modinhas.

O meu cinzeiro azul. Henrique Manuel Bento Fialho (Canto Escuro, 2007)
Este é o livro mais sublinhado do ano: quero sintetizá-lo (porque está organizado pela data dos textos), recolhendo-o por temas: o que o autor diz que a poesia é; o que o autor diz que a poesia não é; a necessidade e o papel da poesia; o princípio da poesia; o futuro da poesia; o obstáculo da poesia; o sentido da vida na poesia; o sentido da poesia na vida; o lugar do poema; a função do poema; a relatividade na poesia; a liberdade na poesia; a fúria na poesia; a crítica; o poeta; o leitor; o amor. Portanto, é livro para 2012.

Antologia poética. António Ramos Rosa (Dom Quixote, 2001)
É o meu poeta e este ano estimei-o com a leitura integral deste bloco.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça - às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas - espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
- eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos - vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta -
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore -
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado - às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração -
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


***

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como as estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Ou o poema contínuo (súmula)
Herberto Helder
Assírio e Alvim, 2001

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

a opinião das estatísticas

Na opinião das estatísticas, esta é a informação mais procurada aqui até agora, e parece que assim continuará. A seguir vem esta transcrição do prefácio de um livro. Os servidores dinamarqueses dirigiram 25 caminhadas até esta rua. A música mais encontrada continua a ser esta, e este o poema (certamente achado ao engano). Engano por engano, peço a compreensão dos profissionais do ofício para a desilusão que têm encontrado neste link.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Nova baby. The Black Keys



The Black Keys regressam com dois punhados de canções de espera e incerteza a que deram o inevitável nome de El camino: numa ou noutra direção, ir é a única forma de dar corpo e vencer a espera.

domingo, 6 de novembro de 2011

É de noite que faço as perguntas. David Soares, Saída de Emergência, 2011

"Histórias não são memórias. Não posso dá-las porque não as tenho, meu filho. Desapareceram. Para onde foram os meus sonhos? Onde estão as pessoas que amei? Não ficamos com nada. Quem escolhe as memórias que perduram e as que morrem? Somos nós. Só nós. Sim. É de noite que faço as perguntas. Apenas me esforço por esquecer as respostas... antes que amanheça."

Termina assim esta bela deambulação ilustrada pelos ideais.
Aqui um espaço do autor.

´bora Bobi, que já enganámos a Ler

Tanto empenho a desmascarar o Mário Cláudio... para depois caírem nesta.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

poema contínuo

Esta tarde vi um homem com cara de poema à saída
de uma escola: velho coxo e careca,
aquele andar aflito na pressa nem sabe
de quê, nada nas mãos, sem ar
de quem - definitivamente - ensine alguma coisa.
Tem mesmo cara de poema, pensei.
Amanhã volto lá
só para conferir se o poema é contínuo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

referências reverências

Não me apetece escrever. E preocupa-me que no escrever as referências se tornem em mimadas reverências.

Não sei se alguém foi ao café avisar o René que esta semana morreu o David Croft, o criador do ´Allo ´Allo! Fica a referência e - assim, sim - a reverência. E aqui a bela da musiquinha.

sábado, 13 de agosto de 2011

jogos de guerra

Ainda há índios e pistoleiros no quintal
da criança cerrada que destruía canteiros
cavando trincheiras, plantava flechas,
semeava granadas com seixos e pinhas e latas e
lenha na mola dos braços.

Vergou couves capturando inimigos!
Sinais de fumo na fogueira do lixo!
Valeu tudo no quintal - perdeu dos dois lados:
não faças a guerra sozinho porque alguém tem de morrer.

Mas saltou o ribeiro heroicamente, quantas vezes
atirou aos eucaliptos e dispersou entre as canas -
havia que apanhá-lo ou fugir de si.

Explorava a fantasia e fugia, assustado
aprendeu que o medo paralisa quem se faz perseguir
e o jogo era esse: acreditar para ter medo,
no tempo em que as guerras ainda paravam para almoço,
que o comer está na mesa e não é de esperas.

Ainda há índios e pistoleiros no quintal
e hoje sabe tanto sobre índios e pistoleiros como dantes:
que é ele só a vingar-
-se numa guerra automática
que agora não pára
nem para comer.

Quando disseram que a infância era o cerco de toda a existência,
o cerco chamou de solidão à infância,
a existência chamou de laboratório ao cerco
e a infância chamou de evidência à existência.

Quando disseram que a solidão era o laboratório de toda a evidência,
a evidência chamou de isolamento dos corpos à solidão,
a solidão chamou de treva ao laboratório
e o laboratório chamou de pretexto à evidência.

Quando disseram que o isolamento dos corpos é a treva de todo o pretexto,
o isolamento dos corpos chamou de desculpa ao pretexto,
o pretexto chamou de combustível à treva
e a treva chamou de silêncio ao isolamento dos corpos.

Quando disseram que o silêncio é o combustível de toda a desculpa,
o silêncio - claro - não chamou nada a ninguém,
o combustível consumiu-se
e a desculpa cumpriu-se igualmente no fim de todos os insultos:
- Desculpem - é que ainda há índios e pistoleiros no quintal,
o medo para picar.

a casa

sei dum pinheiro que pinta
de sombra a casa de cal
não lhe fica cara a tinta
rouba a do sol que há no vale

sei que num vale um pinheiro
chamou-se noite de dia
curvou o seu corpo inteiro
sobre a cal da moradia

sei que de cal uma casa
toldou-se-lhe o céu sem dó
uma sombra cai e arrasa-a
de tão negra, fica só

sei dum vale muito gelado
onde nem a água corre
e fria, no rio parado
veste-se de terra e morre

sei duma casa sozinha
no vale onde vai ninguém
foi-se a cal que a casa tinha
sumiu-se a casa também

Stig Dagerman e a solidão

"Estamos sozinhos, lançados no espaço como uma bóia no mar, expostos como um alvo às setas, já não podemos escapar à nossa sorte e tudo pode acontecer. É de esperar que águias ou falcões desçam das estrelas e se precipitem em fúria sobre nós uma vez que somos o único objecto macio que existe no mundo, o único objecto no qual poderá cravar-se um bico ou penetrar uma garra, é de esperar também que meteoritos ou outra coisa qualquer nos dilacerem o peito nu e virado para o infinito, mas a única coisa que acontece é o espaço começar a cantar, a cantar de solidão. «A única coisa»... não, não se trata de um pormenor insignificante, mas de um facto terrível.
Um pouco de música, pensamos, podíamos realmente suportar um pouco de música: mas não, não é verdade: não podemos suportar a música, somos apenas forçados a suportá-la. «O espaço», esse conceito ridículo com o qual as pessoas se atrevem a brincar quando percorrem pântanos e florestas, parques e instalações frigoríficas, ou quando estão sentadas numa cadeira de balouço e vêem o céu por cima das sebes de lilases, o espaço, esse pequeno lago onde idílicos batéis de nuvens deslizam sob o impulso do vento, o espaço tal como nos surge, quando nunca saímos ainda do buraquinho onde nascemos, onde crescemos, onde maltratámos e fomos maltratados e onde dentro de pouco tempo morreremos, esse espaço não passa de mentira para quem viveu a infinita solidão do espaço, acorrentado a um campo metálico cintilante, sozinho na imensidão mais árida de todos os desertos, e debruçamo-nos na esperança de descobrirmos água, de vermos qualquer coisa de sólido em vez deste vazio pavoroso neste espaço cuja extensão atroz nunca ousámos imaginar enquanto vivíamos no nosso buraco, porque é como um poço sem fundo; debruçamo-nos cada vez mais, a tal ponto que acabamos por cair, e uma vez caídos, continuamos a cair toda a vida sem termos outra coisa para viver além dessa queda sem fim, até ao dia em que morremos em plena queda sem jamais chegarmos a atingir fundo algum, porque somos aniquilados durante a própria queda e devorados pelo vazio depois de termos desesperadamente tentado dar-lhe sentido esforçando-nos por chegar ao fundo.
E todavia, não captamos a desmesura deste espaço nem ao cair, nem ao ficarmos amarrados a ele, nem quando o sentimos pesar no peito, não, é só quando o espaço começa a cantar que descobrimos tudo o que nunca tínhamos conseguido supor, e de repente tudo nos surge com uma certeza esmagadora, e esta certeza far-nos-ia rebentar como um balão se desfecho semelhante fosse possível. Mas quando se está assim miseravelmente colado ao íman, nada a fazer: devemos limitar-nos a ouvir, nem sequer podemos mexer as mãos para tapar os ouvidos e, aliás, isso nada mudaria, porque de cada vez que o espaço canta de solidão, transformamo-nos num grande ouvido à escuta, e para o conseguirmos tapar e deixar de ouvir, seria preciso pelo menos um meteorito, um corpo celeste - quem sabe, talvez uma estrela bastasse? E o canto... oh, é um canto tão belo, mas tão atroz, tão mais belo e tão mais terrível do que tudo o resto que se ao menos pudéssemos morrer... mas estamos condenados a continuar assim eternamente, vivos, enquanto o canto se engolfa dentro de nós como a água na turbina, e julgamos que será sempre assim, que o espaço para sempre cantará de solidão e que nós próprios, ouvidos indefesos numa superfície implacavelmente nua, ficaremos a escutar um canto implacavelmente belo, e que a ausência de eco, de alterações atmosféricas e de dores de ouvidos tornam ainda mais implacável.
Mas de uma maneira ou de outra, devemos ter acabado por nos ver livres desta solidão, ou talvez simplesmente adormecido, para acordarmos no nosso buraco e vermos o habitual raiozinho da eternidade a sorrir-nos entre as persianas e o rebordo da cama.
Já não estamos sós, pensamos então, a ingrata aventura terminou, o triste episódio passou - e a vida continua, de dia para dia um pouco menos solitária; mas a verdade é que as coisas não acabaram ainda, estão apenas a começar. Estamos no quarto ou saímos do quarto, tanto faz, encontramos gente ou não vemos ninguém, é indiferente, falamos com a parede ou calamo-nos diante da parede, comemos e bebemos ou só bebemos, escrevemos uma carta ou limitamo-nos a comprar um selo, começamos uma viagem ou ficamo-nos pela compra de um bilhete, saímos e dançamos ou vamos só até à sala de dança sem dançar, fazemos uma coisa ou não a fazemos, descuramos a maior parte dos assuntos ou nada omitimos: nada disso muda seja o que for, é tudo completamente indiferente, porque continuaremos sempre a sentir esse muro de vidro que nos separa dos outros, esse vidro duro que trazemos sempre connosco, através do qual vemos e somos vistos desde que o trouxemos connosco da nossa visita ao espaço. Estamos isolados como doentes e é justo que assim seja, uma vez que estamos mais doentes do que a maioria; também podemos dizer, por conseguinte: estou isolado como um condenado à morte, e é justo que assim seja, mereço mais a morte do que todos os outros.
E eis-nos de novo sós, mas a solidão é muito pior do que da vez anterior, o espaço não canta de solidão, o espaço não canta seja o que for, o espaço chove, neva, venta - mas isso nada nos diz. Estamos sozinhos de uma maneira acanhada, inestética e pois que seja como for não há salvação (admitindo que escapar à solidão seja salvarmo-nos), não é de admirar que ansiemos pelo grande espaço com a sua música diabólica mas sublime, com o seu isolamento implacável mas higiénico, com a sua ausência total de vida, sem dúvida, mas ao mesmo tempo com uma ausência igualmente absoluta de toda a obrigação de buscar contactos, de toda a necessidade de sorrir quando queremos chorar, de acariciar quando queremos arranhar, de procurar amigos quando acabamos justamente de descobrir que o mundo está cheio de inimigos.
Aspiramos aos instantes de completo abandono, aos instantes de solidão brutal e sublime com toda a intensidade da sua esperança e todo o ardor dos seus olhos, partilhamos um segredo perigoso, fomos iniciados no modo de emprego de um veneno temível chamado solidão e, como morfinómanos, dividimos doravante a vida em dois períodos: a embriaguez e a recuperação."

In "Os fogos da noite". A ilha dos condenados, Stig Dagerman, Antígona, 1990.



Stig Dagerman e o desgosto

"Ao fim de algum tempo, o desgosto fecha-se como a flor antes da noite, não se couraça, mas reveste-se de um envólucro novo como uma pétala sob a qual podemos senti-lo pulsar, continua a fazer parte de nós, permanece fresco e vivo e nele podem molhar-se os lábios como na limpidez de uma fonte; só que passa agora a ser possível, até certo ponto pelo menos, escolhermos o instante em que queremos estar com ele. É perigoso, contudo, deixá-lo de lado demasiado tempo, um desgosto recente tem de ser cuidadosamente tratado, é preciso ir buscá-lo de vez em quando como um objecto precioso e poli-lo como um espelho, caso contrário não tardará a cobrir-se de uma membrana espessa, operando-se assim o couraçamento, o que de resto, mais cedo ou mais tarde, é inevitável.
E quando o couraçamento se instaura, eis-nos de certo modo outra vez no ponto de partida, longe do desgosto no espaço e no tempo, mas tornando-se todas as coisas ainda mais desesperantes porque sabemos nessa altura que nada mais temos a esperar. Em vez do desespero surdo e pesado do início, entramos num terrivel período de apatia, de inércia, de expectativa, e vivemos então segundo a perspectiva de que nada mais acontecerá. Tudo se torna indiferente, tudo em redor se crispa e endurece, queremos colher, mas há só morte para colher, queremos ver, mas o olhar esbarra na dureza do objecto, queremos amar, mas descobrimos que não somos capazes porque nós próprios estamos cobertos por uma membrana dura, todos os sentimentos gelaram dentro de nós, estamos gastos e ressequidos e nada, nem sequer a nossa horrível solidão, consegue ao menos fazer-nos tremer.
Claro, também isto não dura eternamente, desde há muito já pequenas correntes laboriosas agem sob a couraça e por baixo do gelo: por fim tudo explode e, pela última vez, reencontramos o desgosto. Mas desta vez não ficamos tolhidos, o corpo não participa já com o mesmo grau de brutalidade, dir-se-ia que os músculos, os vasos sanguíneos e os membros, outrora tensos de desgosto, já não têm forças para intervir. Tudo se passa agora no plano da memória, voltamos incansavelmente ao terreno devastado, remexemos as ruínas calcinadas onde os destroços deformados de uma vida jazem sobrepostos como serpentes por baixo da fuligem e das traves."

De "O desgosto do sol poente". A ilha dos condenados, Stig Dagerman, Antígona, 1990.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Londres, à luz de Bauman

Uma vez que o Estado vai cedendo a sua função de integração a forças do mercado intrinsecamente desreguladoras e privatizadoras, o terreno abandonado passa a poder ser preenchido por “comunidades”, não tanto “imaginadas” como postuladas, que se apoderam da tarefa posta de parte de fornecer garantias colectivas às identidades privatizadas. O pensamento pós-moderno nada em sonhos de verdades e certezas locais que esperam fazer o trabalho civilizador que as grandes verdades e certezas dos Estados-nação, com as suas pretensões ao papel de porta-vozes da universalidade, não conseguiram levar a cabo: assegurar uma tal unidade de pensamento, sentimento, vontade e acção que qualquer tipo de violência gratuita passasse a ser inconcebível. Mas as comunidades postuladas neotribais esvaziarão decerto essa esperança. O neotribalismo é uma má perspectiva para todos os que desejam ver o discurso e o debate substituir as facas e as bombas como armas de afirmação de si.



As novas classes perigosas, por outro lado, são as que se consideram como não aptas para a integração, por isso sendo declaradas inassimiláveis, já que não parece concebível qualquer função que pudessem vir a desempenhar depois de reabilitadas. Não são apenas excedentárias, mas também supérfluas. Deste modo, vêem-se excluídas permanentemente, portanto: e trata-se de um dos poucos casos de permanência que a modernidade líquida não só permite, mas também vivamente fomenta. Este actual tipo de exclusão não é visto como resultado de uma má sorte passageira, mas antes como um destino irrevogável. Mais ainda, a exclusão tende, hoje em dia, a ser um beco sem saída. Quando se queimam os navios, é muito difícil voltar a construí-los. A inexorabilidade da ordem de despejo e as perspectivas pouco animadoras de qualquer tentativa de recorrer da sentença são o que converte os actuais excluídos em classes perigosas.

domingo, 31 de julho de 2011

Octavio Paz e o todo

"Ao nascer, fomos arrancados da totalidade; no amor, todos nos sentimos regressar à totalidade original. Por isto, as imagens poéticas transformam a pessoa amada em natureza - montanha, água, nuvem, estrela, selva, mar, onda - e, por sua vez, a natureza fala como se fosse mulher. Reconciliação com a totalidade que é o mundo. Também com os três tempos. O amor não é a eternidade; tão-pouco é o tempo dos calendários e dos relógios, o tempo sucessivo. O tempo do amor não é grande nem pequeno: é a percepção instantânea de todos os tempos num único, de todas as vidas num instante. Não nos liberta da morte, mas faz-nos vê-la cara a cara. Esse instante é o reverso e o complemento do «sentimento oceânico». Não é o regresso às águas da origem mas a conquista de um estado que nos reconcilia com o exílio do paraíso. Somos o teatro do abraço dos opostos e da sua dissolução, resumidos numa única nota que não é de afirmação nem de negação, mas de aceitação. Que vê o casal no momento de um bater de pálpebras? A identidade do aparecimento e do desaparecimento, a verdade do corpo e do não-corpo, a visão da presença que se dissolve num esplendor: vivacidade pura, pulsação do tempo."

In A chama dupla. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e a desdita

"Pouco podemos contra os infortúnios que o tempo reserva a cada homem e a cada mulher. A vida é um risco permanente, viver é expor-se. A abstenção do ermitão acaba em delírio solitário, a fuga dos amantes em morte cruel. Outras paixões podem seduzir-nos e arrebatar-nos. Umas superiores, como o amor a Deus, ao saber ou a uma causa; outras baixas, como ao dinheiro ou ao poder. Em nenhum desses casos desaparece o risco inerente à vida: o místico pode descobrir que corria atrás de uma quimera, o saber não defende o sábio da decepção que é todo o saber, o poder não salva o político da traição do amigo. A glória é uma cifra frequentemente equivocada e o esquecimento é mais forte que todas as reputações. As desditas do amor são as desditas da vida."

In A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o egoísmo

"O grande perigo que espreita os amantes, a armadilha mortal em que muitos caem, é o egoísmo. O castigo não se faz esperar: os amantes não vêem nada nem ninguém que não seja eles mesmos até que se petrificam... ou se detestam. O egoísmo é um poço. Para sair para o ar livre, há que olhar para além de nós mesmos: lá está o mundo e ele espera-nos."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o amor

"O amor não busca nada mais além de si mesmo, nenhum bem, nenhum prémio; tão-pouco persegue uma finalidade que o transcenda. É indiferente a toda a transcendência: principia e acaba nele mesmo. É uma atracção por uma alma e um corpo; não uma ideia: uma pessoa. Essa pessoa é única e está dotada de liberdade; para a possuir, o amante tem que ganhar a sua vontade. Posse e entrega são actos recíprocos."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o teatro do abraço

"O encontro erótico começa com a visão do corpo desejado.Vestido ou nu, o corpo é uma presença: uma forma que, por um instante, é todas as formas do mundo. Mal abraçamos essa forma, deixamos de nos aperceber dela como presença e agarramo-la como uma matéria concreta, palpável, que cabe nos nossos braços e que, todavia, é ilimitada. Ao abraçar a presença, deixamos de vê-la e ela própria deixa de ser presença. Dispersão do corpo desejado: vemos somente uns olhos que nos olham, uma garganta iluminada pela luz de uma lâmpada e depressa regressada à noite, o brilho de uma coxa, a sombra que desce do umbigo ao sexo. Cada um destes fragmentos vive por si só mas alude à totalidade do corpo. Esse corpo que, de súbito, se tornou infinito. O corpo do meu par deixa de ser uma forma e converte-se numa substância informe e imensa na qual, ao mesmo tempo, me perco e me recupero. Perdemo-nos como pessoas e recuperamo-nos como sensações. À medida que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos faz-se mais e mais imenso. Sensação de infinidade: perdemos o corpo nesse corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a perda do corpo. Também é a experiência da perda da identidade: dispersão das formas em mil sensações e visões, queda numa substância oceânica, evaporação da essência. Não há forma nem presença: há a onda que nos embala, a cavalgada pelas planícies da noite. Experiência singular: inicia-se pela abolição do corpo do nosso par, transformado numa substância infinita que palpita, expande-se, contrai-se e encerra-nos nas águas primordiais; um instante depois, a substância desvanece-se, o corpo volta a ser corpo e reaparece a presença. Somente podemos aperceber-nos da mulher amada como forma que esconde uma alteridade irredutível ou como substância que se anula e nos anula."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz (Assírio & Alvim, 1995).

Octavio Paz e a poesia

"Passaram os anos. Continuei a escrever poemas que, com frequência, eram poemas de amor. Neles apareciam, como frases musicais recorrentes - também como obsessões -, imagens que eram a cristalização das minhas reflexões."

"Para mim a poesia e o pensamento são um sistema de vasos comunicantes. A fonte de ambos é a minha vida: escrevo acerca do que vivi e vivo. Viver é também pensar e, às vezes, atravessar essa fronteira na qual pensar e sentir se fundem: a poesia."

"Sem dúvida, a poesia é feita de palavras enlaçadas que lançam reflexos, cintilações e cambiantes: o que nos mostra são realidades ou espelhismos? Rimbaud disse: Et j´ai vu quelquefois ce que l´homme a cru voir. Fusão de ver e crer. Na conjunção destas duas palavras está o segredo da poesia e dos seus testemunhos: aquilo que o poema nos mostra não o vemos com os nossos olhos de carne mas com os do espírito. A poesia faz-nos tocar o impalpável e escutar a maré do silêncio cobrindo uma paisagem devastada pela insónia. O testemunho poético revela-nos outro mundo dentro deste mundo, o mundo outro que é este mundo."

in A Chama Dupla - amor e erotismo. Octavio Paz (Assírio & Alvim, 1995).

sexta-feira, 22 de julho de 2011

porque talvez haja peixe

Depois deste publicado em 2010, a Kalandraka editou agora em língua portuguesa o Correio para o tigre - a história de como o ursinho e o tigrezinho inventam o correio por carta, o correio aéreo e o telefone.





sexta-feira, 24 de junho de 2011

o preço de Jorge Reis-Sá

Esta publicação, em formato reduzido, capa de cartolina simples e folha de sobrecapa, contém apenas 13 páginas com poemas (alegadamente "sobre a desesperança humana"...). Apesar das 48 páginas que a ficha técnica informa, são apenas 13 páginas de conteúdos mas o preço de editor é de 11,95€ (PVP). Minha nossa!

terça-feira, 21 de junho de 2011

amor novo

Acabado o amor, vislumbra-se um amor novo em versão upgrade ou rebuscada de épocas antigas: o culto do outro, sem exigência ou indução de garantias de retorno, a interdependência autêntica em função do outro, altruísta por afecto, procurado no seu bem-estar o próprio bem-estar, e isto acontecer de forma recíproca e intrínseca permanente, sem batota, gerindo os condicionalismos da vivência em parceria e do jogo social.

Ou não.

Acendemos o fogo como metáfora (se não é o amor ele mesmo uma metáfora de ideia bloqueada na linguagem) e logo temos o amor em chamas, pleno da ambiguidade contemporânea: de um lado as chamas que ardem o amor assim ameaçado de extinção, que do outro não são mais que as mesmas chamas que tornam o amor ardente, digo vivente, por ser o amor em si mesmo o tal fogo que arde.

Ou então é isto.

http://www.youtube.com/watch?v=sVGytjCzubo

sábado, 18 de junho de 2011

Momento luminoso

"É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz - pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido."

Mário de Sá-Carneiro, "A Confissão de Lúcio". (11x17, 2010).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Perguntas mortiças a um escritor quando vivo

"Roberto Bolaño: últimas entrevistas" (tradução portuguesa da Quetzal em 2011) reune quatro sessões de perguntas / respostas, nenhuma delas conduzida por Carlos Vaz Marques e todas tão desnecessárias quanto o riso delicodoce típico das investidas de Carlos Vaz Marques. Desta vez e se possível apenas com outro jeito, Carlos Vaz Marques teria dado jeito ao interlocutor.

Bem, do mal o menos:

"[...] e depois não há outra opção que não seja escrever. Para mim, a palavra «escrita» é exactamente o oposto da palavra «espera». Em vez de esperar, há escrever. Bem, provavelmente não tenho razão - é possível que escrever seja outra forma de esperar, ou de adiar coisas. Gostava de pensar doutra maneira. Mas, como disse, provavelmente não tenho razão."

"A literatura está cheia de autobiografias, algumas muito boas, mas os auto-retratos tendem a ser maus, incluindo os auto-retratos em poesia, que à primeira vista pareceria ser um género mais adequado para nos auto-retratarmos do que a prosa."

"Nicanor Parra diz que os melhores romances são escritos com métrica. E Harold Bloom diz que a melhor poesia do século XX é escrita em prosa. Concordo com ambos."

"É como aquela anedota acerca da mãe judia: num acesso de loucura, o filho corta a cabeça da mãe, foge, depois tropeça e, quando tropeça - com a cabeça da mãe ainda nos braços - a cabeça diz: «Filho, estás bem?» O amor de um pai pelo seu filho é semelhante."

"Para mim, o grande poeta do Chile é Nicanor Parra e depois de Nicanor Parra há vários outros. Neruda é um deles, sem dúvida. Neruda é o que eu pretendia ser aos vinte anos: viver como um poeta sem escrever. Neruda escreveu três livros muito bons; o resto - a grande maioria - é muito mau, alguns deles verdadeiramente contaminados."

"A crítica literária é uma disciplina que representa algo mais para mim do que literatura. A literatura é prosa, romance e conto, dramaturgia, poesia, ensaios literários e crítica literária. Acima de tudo, acho que é necessário que exista crítica literária - sem acidentes - nos nossos países, e não dez linhas acerca de um autor que provavelmente o crítico não voltará a ler. Quer isto dizer que é necessário que haja uma crítica que, de caminho, corrija a paisagem literária."

"Comovem-me os jovens de aço que lêem Cortázar e Parra, tal como eu os li e como tento continuar a lê-los. Comovem-me os jovens que dormem com um livro debaixo da cabeça. Um livro é a melhor almofada que existe."

"Mónica Maristain - O que é que o aborrece?
Roberto Bolaño - O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita, já o dou por adquirido."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Nos eixos

Habituámo-nos a cingir ao tempo os movimentos, as coisas e a expressão das ideias, a celebrar em função de limites (datas, balizas, metas, marcos...) num circuito fechado de escolhas e de identificações. O que é a notícia, senão uma oferenda no cortejo do dia? Enchemos os dias de heróis e desgraças, de tops e recordes, de regra e desvio. Abrimos os jornais e vemos o melhor e o pior, os altos e baixos, a foto do dia, a cronologia, o editorial, o tema em destaque, os relatórios da Lusa e das polícias, o obituário, as ocasiões, as colunas, a espinha e uma epiderme inteira de estados do tempo, de estados de espírito e demais passatempos, como se fosse preciso. E depois há as últimas.
O tempo – e esta é a versão inconsistente que me apetece aqui chamar - é a instalação forçada das máquinas, dos exercícios e das avarias que não tinham outro vazio para ficar, na tentativa de sobreviverem ao esquecimento sempre à espreita de um resgate, de uma ligação aos próximos fenómenos. Mas a instalação do tempo assenta sobre eixos, o espanto transformado em consciência: o choque de aprender e o deleite sofrido das referências; a percepção do outro em si.
Quando alguém me diz que foi o seu tempo de alguma história, acredito que transporte essa bagagem consigo. Não que esse tempo transite e ainda lhe sirva nem que os eixos sejam rodas promissoras, mas que já é ele que assenta nesses eixos em vez do tempo e que se rodeia de movimentos, de coisas e de expressões que o (co)movem para o que ainda vier. O resto é um número desnecessário, sabendo que o ano em que Ricardo Reis morreu foi o ano da morte de Ricardo Reis.
Também eu sou o meu tempo. Também eu retrato a época pelo surgimento de um espanto, de uma tomada de consciência, de uma revelação propulsora, de um novo eixo que se inscreve e que perdura com mais ténue ou acentuado fatalismo, de um filtro novo para as borras do mundo. A aventura. A dança das feridas.
Entre a noite e o riso, lembro o tempo endiabrado em que pai e mãe já avisavam filho para andar nos eixos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Auditu

A Auditu resiste há provavelmente duas décadas em Leiria, no Maringá. Quem passar por lá agora, pode encontrar ao preço de dois litros de gasolina o melhor combustível dos Anos 90. Eu trouxe, ao todo por 9 euros, o inimaginável álbum dos The Prodigy, o fenomenal arranque dos Red Hot Chili Peppers e o Adore, dos inesquecíveis The Smashing Pumpkins. Há lá mais.


Entendemo-nos por música


A personagem é esta: um taxista turco melómano, sempre a aumentar o volume do leitor ao longo da viagem (foi até ao 46...). Lá atrás, os passageiros entram no ritmo em noite de farra, batem palminhas e soltam uns acordes marados numa língua acabada de inventar. Em cima, a histórica foto no momento da aquisição do disco ao taxista (Maio 2011). Em baixo, a exótica abertura do cd, que já rola nas estradas portuguesas. Tinha de ser!


As latrinas do Éfeso

 
Fotografias de um importante ponto de encontro e de conversação da antiguidade: as latrinas do Éfeso. Maio 2011.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vou para onde cheira a bananas


Gosto de reler a aventura do pequeno urso e do pequeno tigre que um dia descobrem um caixote a boiar, ainda com cheiro a bananas e com a inscrição PANAMÁ. “-O caixote vem do Panamá e o Panamá cheira a bananas. Oh, o Panamá é a terra dos meus sonhos – disse o ursinho.” Por isso decidem partir logo no dia seguinte à procura do Panamá. “-Sempre que uma pessoa não sabe o caminho – disse o ursinho –, precisa primeiro de uma placa a indicar o caminho. Por isso fez uma placa a indicar o caminho.” Estacaram a placa e partiram nessa mesma direcção. Na viagem desorientada, repleta de encontros com novos amigos a quem iam pedindo indicações, conseguiram descobrir o Panamá, devidamente identificado: tinham ido parar à casa de partida – nem mais!
A história releva primeiro a viagem, o ir, o encontro, e a seguir o reencontro, um regresso transformado, consciente de si e do mundo.
Gosto de reler este livro ilustrado e de pensar que é por um reencontro que ponho todos os dias os pés de fora da cama e que vou para onde cheira a bananas.
Agora vou dormir porque a semana ainda agora começou e amanhã tenho muito Panamá para fazer...

A cena mais hilariante do cinema

Até aos 00:22 decorre aquela que eu cataloguei como a cena mais hilariante do cinema. O elefante azul é confrontado com a acusação de ser o pai da criança da mãe galinha. O veredicto do amigo é uma pérola! Filme de Peter Jackson, tive-o numa colecção do Fantas. Sumiu.

domingo, 29 de maio de 2011

Éfeso



"Paulo não conheceu Cristo, mas considera-se tão apóstolo como os doze. Invoca uma autoridade que lhe advém da revelação na estrada de Damasco e da missão a que foi então destinado. Decide por isso levar a Igreja muito além da Palestina. É um viajante incansável e tenaz: Antioquia, Galácia, Filipos, Tessalónica, Colossos, Corinto, Éfeso, provavelmente a Península Ibérica. Figura carismática, causa grande impressão nessas cidades. Só em Atenas fracassa, porque os sofisticados gregos acham ridículo que se diga que alguém «ressuscitou»."
De "Paulo", in "As Vidas dos Outros" (Pedro Mexia, Tinta-da-China, 2010).

Fotografias: Éfeso, no teatro onde, entre outras bizarrias, andou São Paulo a apregoar um deus invisível. 14.05.2011
Desfile - parte 1. Antalya, Maio 2011.


Desfile, parte 2. Antalya, Maio 2011
 Feirantes. Antalya, 18.05.2011


Estacionamento. Antalya, 18.05.2011

sábado, 28 de maio de 2011

Venha daí esse clarinete!

Vila Real, 27 mai (Lusa) -- Catorze companhias do Norte participam até sábado no Encontro de Indústrias Criativas, em Vila Real, onde durante 15 minutos dão a conhecer os seus espetáculos de teatro, música ou dança a programadores provenientes da Galiza.

Organizada pela Direção Regional da Cultura do Norte (DRCN), esta "feira da cultura" começou hoje e termina no sábado, no Teatro Municipal de Vila Real.
Paula Silva, responsável pela DRCN, explicou que o encontro tem como objetivo a divulgação de projetos artísticos promovidos por agentes culturais sedeados na região Norte de Portugal junto de programadores galegos.
O formato é simples. As companhias sobem ao palco durante 15 minutos para mostrarem os seus espetáculos e convencerem os programadores a comprá-los.
O arranque do projeto foi dado pela Peripécia Teatro, um grupo que junta atores portugueses e espanhóis e que está sedeado em Vila Real.
O ator e diretor Sérgio Agostinho apresentou "Antes solo Que Mal Acompanhado", uma coprodução com o Teatro de Vila Real, onde a companhia junta o humor à música clássica para contar a história de Ludovico, um homem frustrado que trabalha num escritório e que não é feliz com o que faz.
Interpretado por Luís Filipe Santos, Ludovico esconde uma paixão pelo clarinete. Ao longo de uma hora são interpretados diversos temas de compositores clássicos e contemporâneos consagrados como Bach e Donizetti, Nicola Resanovic e Janos Komives e Milluccio.
O mundo de Ludovico é constantemente interrompido pelo espanhol Ángel Fragua, que dá o toque de humor à produção e interpreta quatro personagens que concilia ainda com a parte técnica, luzes e música.
"Esta é uma ótima iniciativa porque dá a oportunidade de nos mostrarmos ao vivo junto do público e dos programadores da Galiza", salientou Sérgio Agostinho.
Esta é a segunda vez que a Peripécia participa nestes encontros organizados pela DRCN, apesar de na primeira não terem "concretizado nenhum contrato".
"No ano passado não deu resultado, mas não é por isso que desistimos. Acreditamos que esta é uma forma mais eficaz do que um contacto feito à distância", sublinhou.
E se os programadores assim o quiserem, os contratos podem ser feitos de imediato.
"Entendemos que este pode ser um papel importante que a DRCN pode ter que é ligar e juntar estruturas, criar redes, elos de ligação. Há uma similitude de língua muito grande que permite de certa forma a comunicação fácil a nível de teatro", acrescentou Paula Silva.
Participam ainda no encontro o Teatro Bruto, o Teatro da Palmilha Dentada, Balleteatro, Companhia de Dança do Norte, Associação Movimento Increativo, Ensemble -- Sociedade de Atores, Filandorra -- Teatro do Nordeste, Rui Spranger, Visões Úteis, Teatro Art'Imagem, Urze Teatro, Entretanto Teatro, e Tó Trips, que faz o concerto de encerramento.

PLI.
Lusa/Fim



segunda-feira, 23 de maio de 2011

Café turco

“De todas as bebidas pagãs que me passaram pelo estreito, o café turco foi a pior. Vem numa chávena pequena, polvilhada de grãos, e o café é preto, espesso, de cheiro desagradável e péssimo sabor. O fundo da chávena apresenta um sedimento pastoso de meia polegada. Quando nos desce pela garganta, uma parte desta lama fica pelo caminho, produzindo uma irritação que nos faz ladrar e tossir durante uma hora.”

*
“Um esqueleto cor de cobre, com um trapo à cintura, trouxe-me um frasco de vidro com água, com um cachimbo normal por cima e uma cana flexível com cerca de uma jarda de comprimento e um bocal de latão na ponta.
Era o famoso «narguilé» oriental: aquilo que o Grande Turco fuma nas gravuras. Isto já começava a parecer um luxo. Dei uma baforada e bastou; o fumo desceu-me com uma forte pressão até ao estômago, os pulmões e às partes mais recônditas do meu organismo. Explodi numa tosse estrondosa, como uma erupção do Vesúvio. Nos cinco minutos que se seguiram, fumei por todos os poros, como uma casa em construção a arder lá dentro. Acabou-se o narguilé para mim. O fumo sabia mal, e o sabor das mil línguas de infiéis agarrado ao bocal de latão era ainda pior. Estava a ficar desanimado. De agora em diante, sempre que vir o Grande Turco de pernas cruzadas a fumar narguilé, com um ar de imenso êxtase, num embrulho de tabaco de Connecticut, já sei que ele é um charlatão sem vergonha.”

A Viagem dos Inocentes. Mark Twain, Tinta-da-China, 2010.
Foto: Discoteca Aura, Antalya. 16.05.2011

Santa Sofia em dez minutos e um par de meias

“A Mesquita de Santa Sofia não me pareceu nada de especial. Devo ser eu que tenho mau gosto. Seja. É o celeiro mais vetusto do mundo pagão. Julgo que todo o seu interesse reside no facto de ter sido concebida como um templo cristão e depois transformada numa mesquita, sem grandes alterações, pelos conquistadores muçulmanos. Fizeram-me descalçar as botas e entrar lá de meias. Apanhei uma constipação, e prendeu-se-me às meias uma tal série de porcarias e coisas peganhentas e gordurosas, que gastei mais de duas mil calçadeiras para conseguir tirar as botas nessa noite, e mesmo assim acabei por descascar algum couro cristão. Não exagero numa única calçadeira.
Santa Sofia é um colosso de uma igreja, com trezentos ou quatrocentos anos, e suficientemente feia para ser muito mais velha. Diz-se que a sua imensa cúpula é mais maravilhosa do que a da Catedral de São Pedro, mas a sua sujidade é muito mais prodigiosa do que a sua cúpula, embora nunca falem dela. A igreja tem cento e setenta pilares, cada um deles feito numa única peça, todas elas de mármores dispendiosos de várias qualidades – mas vieram de templos antigos de Baalbek, Heliópolis, Atenas e Éfeso, e são umas ruínas completas, feias e repugnantes. Já tinham mil anos quando esta igreja era nova e, nessa altura, deviam produzir um contraste horrível – se é que os arquitectos de Justiniano não lhes limparam a cara. No interior, a todo o diâmetro da abóbada lê-se uma inscrição em caracteres turcos, trabalhada em mosaicos dourados, que parece tão espampanante como um letreiro de circo; os pavimentos e as balaustradas de mármore estão num estado lastimável e sujo; por toda a parte, a perspectiva é toldada por uma teia de cordas suspensas das alturas vertiginosas da cúpula, de onde se penduram inúmeras lamparinas de óleo corroídas e miseráveis, e ovos de avestruzes, a seis ou sete pés do chão. Turcos esfarrapados agachavam-se e sentavam-se por toda a parte a ler livros, a ouvir sermões, ou a receber lições como gaiatos, e havia outros tantos em mais de cinquenta sítios a curvar-se e a endireitar-se, e a curvar-se novamente, e a prostrar-se aos beijos no solo, sempre a murmurar preces, e a fazer esta ginástica até ficarem certamente muito cansados.
Por todo o lado, grassava a sujidade e o pó e o desmazelo e a escuridão; por todo o lado, havia sinais de uma antiguidade ancestral, mas sem nada de emocionante ou de belo; por todo o lado, os mesmos grupos de grandessíssimos pagãos; por cima, os mosaicos variegados e a teia de cordas dos candelabros; e em parte nenhuma, nem uma só coisa que nos conquistasse a afeição ou a admiração.
As pessoas que entram em êxtase com Santa Sofia, de certeza que deve ser pelos guias de viagens (onde cada igreja vem «considerada pelos especialistas como a estrutura mais maravilhosa, sob vários aspectos, alguma vês vista»). Ou então são aqueles velhos coca-bichinhos dos confins da Nova Jérsia que se aplicam denodadamente a aprender a diferença entre um fresco e uma boca de incêndio, e a partir daí já se acham no direito de expressar a sua emoção crítica sobre todas as pinturas, esculturas ou estruturas arquitectónicas que lhes aparecem à frente.”



 
A Viagem dos Inocentes. Mark Twain, Quetzal, 2011.
Fotos: Mesquita de Santa Sofia. 17.05.2011.


Turcas


 
“[…] depois há esquadrões de mulheres turcas que pairam por toda a parte em silêncio, cobertas da cabeça aos pés de túnicas esvoaçantes, e véus de neve em volta das cabeças, revelando apenas os olhos, e uma noção muito vaga e difusa das suas feições. Quando as vemos deslocarem-se ao longe nas arcadas sombrias do Grande Bazar têm o mesmo aspecto que deviam ter os cadáveres amortalhados quando emergiram das campas entre os coriscos e os trovões e os terramotos que rebentaram no Calvário naquela noite terrível da Crucificação. Uma rua de Constantinopla é um cenário que basta ver uma vez.”

A Viagem dos Inocentes. Mark Twain (Tinta-da-China, 2010).

Fotos: Istambul, à entrada do Grande Bazar. 17.05.2011. Na foto da direita, a mulher esconde o rosto ao aproximar-se da câmara fotográfica.

Fotos: Mesquita Azul. 17.05.2011


Fotos: Mesquita Azul. 17.05.2011