domingo, 28 de novembro de 2010

Navio triste. Cristina Branco





os meninos de ouro 6

"Segundo o portal Agência Financeira, em 2006, Cavaco Silva tinha três reformas: 2679 euros do Banco de Portugal, 5007 euros da Caixa Geral de Aposentações, pelo desempenho de funções de professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova, e 2876 referente à subvenção vitalícia pelo exercício do cargo de primeiro-ministro (esta pensão não é acumulável com as funções de Presidente da República). Em 6 de Junho de 2010, a Presidência da República, através de uma nota informativa, vem confirmar que Cavaco Silva "recebe duas pensões de reforma em resultado, exclusivamente, dos descontos que, ao longo da sua vida profissional, efectuou para a Caixa Geral de Aposentações, como professor, e para o Fundo de Pensões do Banco de Portugal, como funcionário do Banco."

A subvenção mensal vitalícia foi consagrada na Lei nº4/85, de 9 de Abril (alterada pela Leio nº26/95), que estabeleceu o estatuto remuneratório dos titulares de cargos políticos. Esta situação permite que antigos políticos acumulem a subvenção mensal vitalícia com outra pensão de reforma a que têm direito após o exercício de uma actividade profissional. Na prática recebem duas pensões por mês. A subvenção mensal vitalícia foi extinta pelo primeiro governo de José Sócrates (Lei nº52-A/2005, de 10 de Outubro), mas não tem efeitos retroactivos."

João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.

os meninos de ouro 5

"Em 19 de Janeiro de 2009, o deputado Melchior Moreira renuncia ao Parlamento para presidir à Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte de Portugal, pedindo a atribuição da subvenção vitalícia, com apenas 45 anos de idade. Confrontado com a situação, o antigo deputado, eleito pelo Partido Social Democrata, responde convictamente: "Não me incomoda de maneira nenhuma, é um direito que tenho e que me assiste em função do tempo que dediquei à causa pública. Tenho cerca de 11 anos de trabalho de causa pública e só me consideraram 9 anos. Estou perfeitamente de consciência tranquila, porque houve empenhamento pessoal e acompanhamento político."

João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.

os meninos de ouro 4

"Desde 2006 que o ex-deputado Manuel Alegre é contemplado com uma pensão mensal de 3219 euros que inclui o período de desempenho de funções durante algumas semanas na Rádio Difusão Portuguesa. Questionado por um jornalista do Correio da Manhã sobre o facto de ter direito a uma pensão por ter trabalhado tão pouco tempo, o antigo vice-presidente da Assembleia da República é peremptório: "Eu recebo aquilo a que tenho direito. Recebo a pensão como funcionário da RDP e recebo a subvenção vitalícia, que é aquilo a que qualquer deputado tem direito. Tudo somado, agora recebo menos 500 euros do que recebia quando tinha um terço da pensão (como prevê a lei quando o pensionista exerce cargos públicos) e mais o salário de deputado". Em declarações ao mesmo jornal, Manuel Alegre salienta que a subvenção vitalícia "é legal" e recorda o exemplo de outros políticos que auferem pensões além de outros rendimentos: "O Presidente da República também não recebe duas ou três reformas do Estado, além do vencimento? Mas eu nem questiono que ele é uma pessoa séria.""

João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.

os meninos de ouro 3

"Segundo os dados da Caixa Geral de Aposentações (CGA), o número de actuais e ex-titulares de cargos políticos que usufruem de uma subvenção mensal vitalícia não pára de aumentar, atingindo os 400 beneficiários em Maio de 2010. Numa época em que Portugal enfrenta uma das piores crises económicas dos últimos 30 anos, é ultrajante ver políticos a acumular pensões e subsídios de reintegração com o exercício simultâneo de outras actividades profissionais. No lote dos contemplados com este privilégio político encontram-se o antigo primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, e o candidato às presidenciais, Manuel Alegre, que pediram à Assembleia da República a atribuição da subvenção vitalícia e assim acumulam duas reformas em simultâneo. Pedro Santana Lopes recebe, desde Outubro de 2005, uma pensão mensal de 3178 euros por ter sido presidente de Câmara, juntando agora os mais de 2 mil euros da subvenção vitalícia da Assembleia da República."

João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.

os meninos de ouro 2

"Os 3,1 milhões de euros auferidos em 2009 por António Mexia, CEO da EDP e antigo ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do governo de Santana Lopes, mostra como um administrador de uma empresa que detém o monopólio do comércio doméstico de electricidade, e que por isso está dispensada da competição do mercado, ganha mais do que Steve Jobs, fundador da Apple, a gigante americana de computadores. O valor que Mexia guarda no bolso é um escândalo, comparado com o salário médio de um trabalhador português e com metade dos habitantes do planeta que vivem com menos de 2 dólares por dia."

João Pedro Martins, Revelações - os paraísos fiscais, a injustiça dos sistemas de tributação e o mundo dos pobres. Smartbook, 2010.

os meninos de ouro

Triste sina a deste jovem reformado.

Achei-te!

Joaquim Manuel Magalhães refere-se aqui à publicação "Ruínas", que se apresentou como o «primeiro volume da série "Elogios" publicado pelos Quatro Elementos Editores. 1990». Jaime Rocha abre o capítulo "Lápis de Cor" (páginas 129 a 131) com:

"RUÍNAS
              é um espaço de morte
onde vai um corvo comer to-
das as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e pro-
cura no meio da vegetação al-
gumas larvas e o cheiro de ou-
tros corvos. É um cheiro novo,
azeitado, que consegue sur-
preender quem pára um carro
junto a uma montanha. Nessas
ruínas passa um rio que está
sujo e que mostra ao longo das
margens mais de duzentos peixes
mortos. É um rio esverdeado sem
vegetação, apenas com uma baba,
onde os corvos vão beber. Tem
sons que desaparecem de repen-
te. Dentro dessas ruínas exis-
tem vários objectos de ferro,
outros de plástico. Tudo está
ordenado conforme o seu tempo
de uso e o espaço que ocupam.
[...]"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin

"La conception-création-invention nécessite la coexistence de cinq facteurs:
» L´existence des «identités», des sujets, des «Je» - pour jouer avec les mots -, des savoirs, des disciplines, etc.
» L´existence de différences, d´altérités, voire d´altération, de crise, d´incomplétude, de manques, de désirs... Dont l´Autre est le «signifiant majeur».
» L´existence d´aires de jeux», des idées, des objets, des pensées, des disciplines, des cultures, etc., en lesquelles peut s´opérer la «rencontre» des «uns» et des «autres».
» L´existence d´un «espace» assurant les conditions favorables à l´accueil, à l´élaboration, ao mûrissement, ao déploiement et au développement du «germe» et ainsi à la «réalisation» de l´oeuvre et éventuellement à son orientation soumise à la conscience intentionnelle et réflexive. Cet espace d´accueil suppose aussi dialectiquement des frontières, des structures, des règles et des lois à la fois internes à l´art et externes, conduisant au dépassement paradoxal dans l´oeuvre véritable de la tension entre la liberté de la création et l´existence d´un cadre et de structures qui renvoient au cinquième point.
» L´existence d´un «Monde»* dans lequel l´oeuvre va être produite et produire des effets dans une «dialectique complexe» qui n´est jamais totalement prévisible, c´est la phase extensive de l´oeuvre.

* Le «Monde», selon notre conception, préexiste aussi bien implicitement, en relation avec l´histoire des acteurs, des lieux, des modèles, mais aussi presque toujours explicitement par l´intermédiaire de contraintes ne serait-ce que celles imposées par l´apprentissage de «l´art ou de la science», du langage et des codes, de commandes, de désirs mimétiques... Pour le dire autrement, aucun acte créatif ne peut-être considéré comme entièrement libre et nous sommes là au coeur d´un paradoxe souvent repéré de l´acte créatif conjoignant la plus grande liberté et les plus fortes contraintes. Mais dialectiquement cette forme de préexistence est potentielle et appelle à être actualisée et réalisée, ainsi le monde est aussi inventé, construit, révélé, et c´est dans cet espace paradoxal du «trouvé-créé» qu´intervient le plus radicalement l´acte créatif."

*

"L´Art conduit à une attitude que nous pourrions qualifier d´activement passive, où le spectateur singulier est appelé à être «co-auteur» dans la compréhension ou la contemplation de ce que l´oeuvre lui «donne à voir», et où il réalise alors «souvent sur un mode mineur» un processus semblable à celui de la création originale, il pourra d´ailleurs s´en inspirer dans un acte de création continuée.
Dans le champ proliférant des techniques les rapports à «l´objet inventé» s´organisent autrement dans leurs effets concrets s´articulant avec une logique complexe, économique, sociale et politique, déplaçant le centre de gravité de «l´objet» vers une entité collective. Il s´avère que ces innovations techniques prennent alors une place dans le monde plus «médiatement» active, mais le plus souvent passivement active, devenant des objets de consommation ou des outils aux effets non réfléchis et aux principes non compris en profondeur."

*

"Ainsi nous voudrions ouvrir le «champ» de la conception (et de la création) au questionnement du sens et de la conscience - en particulier l´étique -, comme une sixième phase d´un processus que n´envisageait pas initialement Anzieu. Nous savons que cette «précaution» pourrait paraître superfétatoire voire inhibante vis-à-vis du processus créatif, elle nous aparaît au contraire comme cruciale aujourd´hui."

En Alain Gire. Conception de la conception.

As palavras transferidas. X - O processo de aquarização

Entre a mão e o vidro, as palavras transferidas.
Eu tenho um peixe no aquário que se esquece
de mim a cada volta.
Reconhece a fonte de alimento, a minha mão
como qualquer outra,
e eu ando às voltas à volta do aquário
de volta de um peixe que,
bem, como outro qualquer peixe,
talvez seja sempre demasiado novo
para poder preservar o amor que lhe persigo
enquanto não volta a mão que me alimenta.

sábado, 20 de novembro de 2010

Lover of mine. Beach House



Carta ao Futuro. Vergílio Ferreira (Quetzal, 2010)

"Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo. E uma vez mais a velha angústia de um Lucrécio, de um Pascal, em face da eternidade da noite, nos desvaira de aflição. Possivelmente, meu amigo, quando esta carta te chegar às mãos, se chegar, estarás tu já instalado em indiferença no meio de quanta nova invenção que não sabemos nem imaginamos."

*

"A arte é o estatuto da plenitude da nossa identificação. Portanto, se ao pé de ti se pasmar e perguntar como pudemos nós conferir tamanha dignidade a mármores partidos, papéis rabiscados, manchas de tinta, tu saberás reconhecer que o que a nós se impôs foi sobretudo a fascinação de ver, de tornar presente para nós as fronteiras do mundo que habitamos, foi o sonho desse dom da revelação, da descoberta maravilhosa de uma verdade de origens, a verdade que era nossa, com a qual nós tínhamos uma entrevista marcada e à qual não desejámos faltar. Tu saberás dizer que o que nos fascinou foi o realizarmos, em presença total, a vida que nos coube, foi estarmos presentes ao universo, adentro da dimensão que era nossa, a de uma profunda humanidade, a da evidência, do milagre. Tu saberás responder que a arte não foi para nós um valor em si, como obra - a não ser para aqueles de nós que foram mais ambiciosos ou distraídos; mas que foi, sim, a dimensão única que nos restou, de outros sonhos destruídos, para nos vermos adentro do milagre humanizado, do mistério terreno, da evidência imediata que o sobressalto ilumina; que a arte não foi um valor de redenção, senão enquanto foi um valor de posse esclarecida, de identificação, de comunhão assumida.
Só assim se entenderá o que tu próprio talvez julgarás degradação da mesma arte, na arte que nos coube. Porque ela se nos despedaça na raiva com que a amamos, com que amamos a vida. Como a um pobre filho que nos nasceu aleijado mas nem por isso cabe menos no nosso amor. Pobre amor desgraçado, com olhos nublados olhamos a esse filho, o contemplamos desde a amargura que nos endurece o coração. Tu explicarás que a nossa arte degradada é a imagem da vida que o destino nos traçou, a forma dolorosa de lhe reinventarmos a imagem obscurecida na distracção quotidiana. Os destroços que dela encontrares um dia e que possivelmente rejeitarás, foram o nosso modo de nos reencontrarmos connosco, de nos assumirmos desde as ruínas de um mundo que se desmorona, de nos revermos na total e iluminada imagem do que somos e não queremos rejeitar como nada rejeitamos da nossa verdade original. Assim a plenitude que nela descobrimos foi acima de tudo a plenitude de saber, da revelação. Porque o saber pela evidência, pela comoção de raízes, é a exaltação do que em nós é mais que nós, do que em nós é o próprio fulgor da vida, é a sua própria chama. A grandeza da arte, o que faz dela um valor, no meio da derrocada de tanta velha esperança, não vem apenas do acto que afirma o nosso poder e a nossa liberdade - vem ainda ou sobretudo da figuração da vida no que nela é mais profundo e portanto na figuração da beleza que doura e envolve toda a aparição."

a rua deserta

"[...] Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção - ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom, nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouço-a cair, expulsar da cidade os robôs da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. [...] Eu os vejo agora, passando desorientados pela rua abandonada, fugindo, espavoridos, à invasão do silêncio."

in Carta ao Futuro. Vergílio Ferreira (Quetzal, 2010).

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Estranhas criaturas. Henrique Manuel Bento Fialho (Deriva, 2010).

"SEREIA
Nem com cera nos ouvidos, nem de olhos vendados, nem de cabeça enfiada na areia, nem assobiando para o lado, nem olhando por cima do ombro, nem ficando, nem partindo, nem com os ossos todos quebrados, nem engessado num coma profundo, nem perto, nem longe, nem aqui, nem agora, nem nunca, nem sempre o canto das sereias me atrai como me trai o silêncio de quem nelas não compreende a mais básica condição: nascemos para colidir contra a morte, somos um mero acidente.
E só por mero acaso não descendemos de musas enfunadas, de deuses arrependidos, só por mero acaso não somos o canto atraente de quem mais que correr não pode simplesmente andar, de quem mais que sonhar não pode simplesmente adormecer, só por mero acaso somos homens e só por sermos homens somos um dano dificilmente reparável."

domingo, 14 de novembro de 2010

Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin

"Au désenchantement du monde succède un enchantement des choses."

"Dans la période des temps modernes, l´homme marque le monde de son empreinte et le place dans la perspective de sa raison: mathématisation du monde, géométrisation de l´univers, développement de la technique et de la science, problématisation du réel. L´activité de conception devient l´instrument de cette mise en perspective humaine et rationnelle des choses. Nous entrons alors dans l´époque des conceptions du monde: le monde est ce qui peut être représenté et pensé."

"La conception n´est pas un acte intellectuel libre ou arbitraire. Elle s´intègre dans une culture qui institue un rapport rédéfini de l´homme au monde tout comme dans un jeu de connaissances et de contraintes techniques. La conception est une façon d´entrer en système avec le monde pensé lui-même comme système. L´activité de conception est finalement un jeu de reflets où l´imagination et la pensée techniques croisent une représentation du monde, où l´objet croise le monde jusqu`à le supplanter en un infini et pur jeu d´illusions, source d´un baroque contemporain que nous éprouvons jusqu´au vertige."

In Michel Faucheux. De l´époque des conceptions du monde à l´époque des conceptions techniques.

Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin

"[...] le problème n´existe pas in extenso, il est le résultat d´un processus de recherche."

"Nous retrouvons ici en lui apportant des éléments d´explication la situation décrite par Galland: «de plus en plus de débats et de problématiques tant dans les milieux de la recherche que dans les milieux professionnels et dans le débat public, s´expriment autour de la notion de risque. Mais d´autre part, et en dehors de certains domaines d´activités bien circonscrits ou la culture de risque est traditionnellement très forte, les notions et les outils issus de l`analyse du risque tardent encore à devenir de véritables outils de gestion et d´aide à la décision.»"

"La notion d´efficience est utilisée par la suite et se différencie de celle d´efficacité. Si l´efficacité mesure la capacité à mobiliser des ressources pour atteindre un objectif donné, la notion d´efficience renvoie quant à elle au moyen terme, où les ressources et les objectifs peuvent être amenés à évoluer (Ruffier, 1996). Il s´agit de l´inscription de l´efficacité dans la durée."

"La recherche d´efficience ne doit pas pour autant faire négliger l´importance de la recherche d´efficacité (qui est quelque part à la base des conditions d´émergence des systèmes d´aide à la décision). Toutefois les solutions ou les options retenues sous conditions d´efficacité ne doivent pas porter des irréversibilités qui seraient en contradiction avec le souhait d´efficience. C´est bien cette voie médiane qu´il faut rechercher inscrivant l´efficacité (ou les formes acceptables comme telles) dans une recherche d´efficience.
La question est de savoir «fermer» intelligemment un context «ouvert» c´est-à-dire en connaissance de causes et de conséquences. L´apprentissage d´un part, la pluridisciplinarité d´autre part, en sont les vecteurs."

In Marcel Miramond, Pascal Le Gauffre, Thierry Prost. Systèmes d´aide à la décision et conception de problèmes en génie urbain.

Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin (dir.; Presses polytechniques et universitaires romandes, 2001).

"Dénommer nécessite donc de s´interroger sur la relation terme concept."

"Selon Sapir, notre mode de pensée est avant tout linguistique. Le monde qui nous entoure n´existe que par la langue commune à un group d´individus. Sapir (1929) avance que «les mondes dans lesquels vivent différentes sociétés sont des mondes distincts et non pas un seul et même mond étiqueté différemment». La portée d´une telle affirmation était à l´époque principalement socioculturelle. Nous ne pouvons cependant la dissocier totalement de l´évolution des techniques et de la terminologie des langues de spécialité. L´idée d´un déterminisme linguistique a souvent être associée à celle d´un relativisme linguistique. En 1956, Benjamin Lee Whorf avançait: «le monde se présent comme un flux kaléidoscopique d´impressions que notre esprit doit organiser - ce qui implique principalement les systèmes linguistiques dont nous disposons.» La perception que nous avons du monde serait donc altérée par la langue que nous utilisons."

"C´est par, et grâce à sa forme linguistique que le concept vit. Le processus de dénomination entretient un paradoxe, celui d´être en partie arbitraire et en partie motivé. Si, comme on l´affirme parfois, de façon volontairement prococante, certes réductrice mais néanmoins empreinte d´une certaine vérité, concevoir consiste à classifier puis à unifier, alors la terminologie témoigne même partiellement de cette démarche. Il semble cependant que l´expression linguistique ne se contente pas d´accompagner la démarche de conception. Elle semble être en mesure, comme nous venons de le voir, si ce n´est de le déterminer au moins de l´influencer."

In Richalot, Jérôme. "Terminologie et conception application au domaine de la piézoeléctricité".

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Here comes the rain again. Eurythmics


"Eleonora". In Todos os Contos 2 (Edgar Allan Poe, Círculo de Leitores / Quetzal, 2010)

Neste conto encontrei a minha livre interpretação para o enigma daqui.

“Ela vira que o dedo da morte estava sobre o seu seio; que, tal como a flor efémera, a perfeição da beleza apenas lhe fora concedida para morrer, mas os terrores da sepultura, para ela, residiam tão-somente numa reflexão que me revelou uma tarde, ao crepúsculo, nas margens do Rio do Silêncio. Sofria ao pensar que eu, depois de tê-la sepultado no vale da Relva Multicor, deixaria para sempre os seus aprazíveis recônditos, transferindo o amor que tão apaixonadamente lhe dedicara para alguma donzela do mundo quotidiano exterior. E, nesse mesmo momento, rojei-me precipitadamente aos pés de Eleonora e fiz a jura, a ela e aos céus, de que nunca me ligaria pelos laços do matrimónio a qualquer filha da Terra, de que não seria de modo algum infiel à sua grata recordação, nem à lembrança do devotado afecto com que ela me abençoara.
[…]
Encontrei-me numa cidade estranha, onde todas as coisas poderiam contribuir para apagar a recordação dos doces sonhos que durante tanto tempo albergara no vale da Relva Multicor. A pompa e o aparato de uma corte majestosa, aliados ao desvairado clangor das armas e à radiosa beleza das mulheres, confundiram e inebriaram-me o cérebro. Mas até então a minha alma mostrara-se fiel à jura, os sinais da presença de Eleonora eram-me ainda concedidos nas horas silentes da noite.”

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Introdução à Semiótica. Adriano Duarte Rodrigues

"[...] todos os fenómenos que o homem percepciona, concebe, comunica e interpreta têm na linguagem o seu ponto de partida e o seu ponto de chegada.
As manifestações semióticas não linguísticas só adquirem significação pelo facto de serem ou de poderem ser manifestadas verbalmente. O homem só entende as significações do mundo que o envolve pelo facto de saber que, mesmo quando as não explicita verbalmente, o poderá fazer sempre que queira. É por isso que aquilo que não sabemos dizer não existe realmente para nós, não integra o nosso mundo humano. Mas, por outro lado, a linguagem já está à partida de toda a nossa actividade semiótica, como herança que recebemos e que preside à organização da nossa percepção do mundo e ao sentido que ele tem para nós."

*

"Acima do limiar superior do campo semiótico, situa-se uma vasta esfera que Ferdinand de Saussure considerava «nebulosa», espécie de magma mental informe. Louis Hjelmslev deu-lhe o nome de «matéria». Em si mesmo, independentemente da sua formação sígnica, este campo é indizível, inomeável. Pertencem a este campo supra-semiótico as chamadas concepções do mundo, domínio que os alemães costumam designar como Weltanschauumgen. É o domínio por excelência do mítico e do ideológico. Mas nele são compreendidos igualmente os aspectos funcionais ou utilitários das obras culturais."

*

"Toda e qualquer acção humana é assim sempre significante, expressiva. Um automóvel significa inevitavelmente, para além das suas funções utilitárias de deslocação, os valores sociais de que está investido: prestígio, standing, desportivismo, juventude, feminilidade. É precisamente por este motivo que a publicidade pode jogar estrategicamente com a imbricação destas diversas dimensões dos objectos culturais para produzir sempre novos valores significantes."

*

"«Imagine que acordo numa manhã antes da minha mulher e que quando ela acorda me pergunta: "Que tempo está hoje?" Isto (esta pergunta) é um signo cujo objecto imediato (o objecto tal como ele é expresso) é o tempo que está neste momento mas o seu objecto dinâmico é a expressão que devo ter tido ao olhar através das cortinas da janela; e o seu interpretante imediato (ou o interpretante tal como ele é expresso por este signo) é a qualidade do tempo, mas a sua interpretação é a minha resposta à pergunta. Mas, além disto, há um terceiro interpretante. O interpretante imediato é aquilo que esta pergunta exprime, tudo aquilo que ela exprime imediatamente. O interpretante dinâmico é o efeito real que esta pergunta surte em mim, que sou o seu intérprete. Mas o sentido derradeiro, ou interpretante final, último, é aquilo que a minha mulher tinha em vista, ou aquilo que era a sua intenção, ao fazer-me esta pergunta, qual seria o efeito que a minha resposta teria tido para os seus projectos acerca desse dia.»"

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Introdução à Semiótica. Adriano Duarte Rodrigues (Edições Cosmos, 2ª edição, 2000).

"A semiótica destina-se, por conseguinte, a fornecer os utensílios que permitam ao olhar descobrir o sentido que as coisas apresentam e que o hábito oculta. A disciplina semiótica é, deste ponto de vista, um constante e sistemático exercício de percepção originária dos fenómenos, considerando-os como se eles continuassem a irromper ou acontecessem, pela primeira vez, no horizonte da nossa experiência do mundo.
A semiótica pretende, por conseguinte, ser uma fenomenologia, um projecto de retorno às próprias coisas, com vista ao desvendamento, a um trabalho de rememoração, à reminiscência do sentido que o tempo foi ocultando e esquecendo. O lugar comum, as falsas evidências, a naturalização são as modalidades desta ocultação e deste esquecimento do sentido originário que compete à semiótica questionar. Os signos que, em vez de revelarem a plenitude do sentido, o ocultam e obliteram são apenas aparências enganadoras ou simulacros que «traem», no duplo sentido do termo, a realidade para que remetem.
Não é por acaso que, no sentido originário, as acepções de traição e de tradição se confundiam num mesmo termo. Em latim, é o mesmo verbo, tradere, que significa ao mesmo tempo «trair» e «entregar». Podemos compreender a razão desta assimilação, se pensarmos no que queremos dizer quando afirmamos que, ao corar, alguém trai os seus sentimentos. O rubor do rosto, ao mesmo tempo que deixa escondida a veemência do sentimento, dá-o a ver completamente, entrega-o, sem reserva, à percepção dos outros. É neste sentido que a semiótica tende a desalojar o sentido ocultado pela prática semiótica habitual, a desvendar a realidade que os simulacros traem."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sobre "O corvo" de Edgar Allan Poe

"Aqui, portanto, posso dizer que o meu poema encontrara o seu começo - pelo fim, como deveriam começar todas as obras de arte, porque foi então, exactamente neste ponto das minhas considerações preparatórias, que, pela primeira vez, pousei a pena no papel para compor a estância seguinte:

- Profeta - disse eu -, ente de desgraça! No entanto profeta, pássaro ou demónio!
Pela abóboda celeste que nos cobre as cabeças... pelo Deus que ambos adoramos!
Diz a esta alma cheia de tormento se no Paraíso
Lhe será permitido estreitar a si a santa jovem que, entre os Anjos, se chama Lenora,
Estreitar a si a única e radiosa jovem que, entre os Anjos, se chama Lenora?
O corbeau disse: - Nunca mais."

in A Filosofia da Composição, Edgar Allan Poe (em análise à génese do poema O corvo). Tradução de Fernando Pessoa (O corvo e outros poemas, Ulmeiro, 4ª edição, 1999).

Nesta análise, Poe apenas não explicita por que excluiu o nome da adorada na versão final do poema, permitindo-nos assim interpretações livres, ora técnicas, ora psicanalíticas.

Avaliações do professor

1985 (aos 6 anos de idade)
"Comportamento - Bom. Parece menos desconfiado e mais sociável. Não cria problemas de disciplina. É sossegado e atento nas aulas.
Interesse pela actividade escolar - Mostra interesse por todas as actividades que realiza sem grandes dificuldades, mas por vezes com falta de ponderação.
Aproveitamento escolar - Tem feito progresso e o seu aproveitamento é bom e satisfaz.
Apreciação global - Bom aluno que promete um bom rendimento escolar se for mais cuidadoso e calmo na execução dos trabalhos."

1986
"Comportamento - Bom. Está interessado pela aprendizagem, é alegre, sente-se bem na escola, é sociável e não cria problemas de disciplina. É desinibido e colabora com todos tornando-se bastante simpático.
Interesse pela actividade escolar - Mostra interesse por todas as actividades que realiza sem grandes dificuldades. Gosta de aprender e é entusiasta pelo ensino.
Aproveitamento escolar - Bom. Continua progredindo e consegue tirar bom proveito do que aprende. Vai adquirindo uma boa bagagem de conhecimentos em todas as áreas do programa.
Apreciação global - Bom aluno com boas capacidades de trabalho. É aplicado, persistente e interessado pelos assuntos da escola."

1987
"Comportamento - O seu comportamento é aceitável, embora goste muito de conversar na sala de aula.
Interesse pela actividade escolar - É muito interessado e aplicado nos trabalhos que faz.
Apreciação global - Como até aqui, deve continuar a a ser estudioso e aplicado e não deixará de ser o bom aluno que é. Deve no entanto tentar corrigir a caligrafia."

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Cinema em Palavras (Poemas-Piloto). Rolf Dieter Brinkmann (Fenda, 1995)

Todos os poemas são poemas-piloto

Todos
os poemas
são públicos
*
isto
é
já um
poema
para Rygulla
*
e
tal como
pintamos
de repente um
armário de amarelo

também
aquilo
a que
chamamos
um
armário amarelo

é já
um poema
para Maleen, que o observa
com atenção
*
e quando depois escrevemos um poema assim
isso
é
um poema
assim
e não pertence
a ninguém
*
isto
é outro
poema
para mim próprio.
*
O piloto está publicamente ao dispor de todos e isto
é
outra vez um
poema assim
desta vez para Helmut Pieper. E continuo a dizer
em geral
*
entra

e fecha a
porta
também tu és um piloto
no
FIM.

***
“É, todavia, no cinema que [Rolf Dieter] Brinkmann encontra o último e mais importante objecto do seu trabalho com a estrutura e com o modo de funcionamento da «indústria das consciências». Não tanto devido à trivialidade de códigos destes seus mitos ou à pujança das suas estrelas, como, talvez, à rapidez da sua assimilação pela massa dos consumidores, submetendo a experiência do real à da máquina de sonhos. Além disso, o cinema é também uma técnica. Uma técnica que permitirá a Brinkmann alargar e fazer agir as suas imagens. Se a fotografia ampliada já não pretendia qualquer tipo de clarificação (que, de resto, nunca é clara), mas apenas revelar composições estruturais novas, o cinema, enquanto conjugação de diversos planos (real e ficção, técnica e imaginação), funciona segundo um mecanismo análogo à percepção humana, na medida em que não reproduz a realidade, mas a constitui. Uma poesia que procura deste modo a radicalização das fantasias pessoais, estrutura-se sob a forma de «cinema em palavras».”

Judite Berkemeier e João Barrento, in Posfácio.