sábado, 28 de janeiro de 2017

Timbre. Reinaldo Ferreira

Este é o poema que aparece por aí:

Timbre

EU, Morreu. Só há ideal No plural. Tecidos Como os fios que há nos linhos, Parecidos Entre nós como dois olhos, Somos do tempo de viver aos molhos Para morrer sòzinhos. 
Esta é a versão que conhecia:

Eu, Morreu. Só há ideal No plural. Tecidos Como os fios que há nos linhos, Parecidos Entre nós como dois olhos, Há futuro que viver aos molhos E morrer sozinhos.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

As palavras transferidas. IX - Do espetáculo-vida

Entre o jogo e a verdade, as palavras transferidas.
No fascínio do jogo a universalidade das metas –
o jogo é assim representação plena do mundo,
movimentos irrepetíveis na tômbola dos dias,
o campo iluminado de verdade na noite interminável.
O jogador concebe e reproduz a conceção
em movimento sistémico
na emergência do fim.
E isto é a arte.
Deificamos o que é finito.
A finitude é a essência do jogo,
a sua maravilhosa perfeição.
O fim do mundo não é o fim do mundo,
daí que o jogo o represente e reproduza,
submetendo os dias giratórios e a certeza da noite
aos artifícios do deslumbramento pelo efémero,
à adoração das marcas e da nomeação.
E, enfim, das datas.
Parabéns.

As palavras transferidas. VI - O mito da informação

Entre o ser e a denúncia, as palavras transferidas:
ser é o prenúncio cadente, a perceção das coisas,
simulacro de incêndio, arrepio e urgência
do ato, o movimento que fixa, dissemina
e esquece a ideia inaugural.
Procuramos a origem no horizonte,
na lufa-lufa dos corpos e das braças de água.
Esgravatamos a terra iludidos com sementeiras e plantações
na colheita da fome. O gesto das máquinas desenha a origem
na produção da palavra, a vida deflagrada é um incêndio
na forma de simulacro de sentido. A construção pelo fogo.
Também a palavra é máquina a transferir-se para o gesto,
a configuração das ideias – das chamas –
num projeto a carvão que denuncia
o mundo a partir da narrativa.
Então o mundo é ele todo, em si mesmo, o seu anúncio.
E esta é a sua notícia.
Informados disto, da cinza do mundo,
seguimos agora para o nosso entediante intervalo
de publicidade.

As palavras transferidas. III - O mito da mãe

Entre a forma e o mito, as palavras transferidas:
a cama suspensa
nos ombros dos deuses
- a substância a caminho da sua narrativa.
Os adjetivos qualificam as coisas
e as coisas qualificam as unidades míticas
que as constituem, projetados pelos verbos.
Tudo mais são elos de ligação e redundâncias.
Somos matéria, conceção do mundo
rebuscando entre qualificativos.
Não temos mais nada
para nos desvendar.
Vendados seguimos em demanda de nós
pelas vias possíveis,
a porta escancarada,
luz, intermitência,
pois só existimos se nos soubermos.
Recuamos sem êxito, renovamos a noite interminável.
Neste desconsolo genético e abstrato
da impossibilidade de ser,
geramos os filhos
- as unidades míticas
da nossa abnegação.

As palavras transferidas. I - O mito do medo

Entre a noite e a mão, as palavras transferidas:
noite, assombro,
suspenso, derradeiro,
a porta escancarada,
luz, intermitência,
o teu afago enquanto durmo:
primeira vez a banhares-me o rosto,
primeira luz, primeira água a escorrer-me
na cara imóvel para que não afastes a concha terna
da tua mão sob o meu rosto iluminado.
E então não acordo mais
para que não grites,
para não teres de ir e a luz não funda
estas quatro figuras peregrinas
levando-me em ombros pesarosos,
suspenso na cama,
pela porta escancarada
as palavras trasladas, sempre derradeiras,
a tua mão infinita guiando-as
escadas abaixo
para a noite interminável, assombro
que a luz restabelece e carrega
todas as manhãs.

alegações

Primeira sessão:
A história não valida o poema.
Se o poema diz partir
ou partir o poema,
não é da história que o poema parte à procura
mas da complacência pela moral do poeta
num ato de perpetuação.
A complacência não valida o poema:
o poema diz que a verdade é partir
porém o poema fixa, não parte
- a verdade não valida o poema.
O poema diz partir – que partir é este?
Não entrevemos se o poema vai ou se quebra.
A linguagem não valida o poema.

O poema valida e intrica
a história, a complacência, a verdade, a linguagem.
Resta saber se o poema se valida por igual
ou se o poema é inválido.

Segunda sessão:
A história valida o poema.
Se o poema diz vingar
ou vingar o poema,
é a história que o poema pretende vingar
na complacência pela moral do poeta
num ato de perpetuação.
A complacência valida o poema:
o poema diz que a verdade é vingar
e logo o poema vinga
- a verdade valida o poema.
O poema diz vingar – que vingar é este?
Entrevemos que o poema quanto desforra, tanto cresce.
A linguagem valida o poema.

A história, a complacência, a verdade, a linguagem
validam e intricam o poema.
Resta saber se o poema as valida por igual
ou se todas são inválidas.

Vai, Ucrânia

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Epitáfio


"Somos o que escolhemos ser."
(Lido algures.)

"Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que a revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos" 
(António Ramos Rosa, Chamo pátria de profundas veias)

Não abandono o meu país. E no entanto não o oiço -
a audição é o sentido da redundância.
Não abandono o meu país, disse em pleno voo.
Por isso exorto a sair dele, claro que num certo contexto,
o mesmo em que disse não abandono o meu país sem saber onde estava.
Não abandono o meu país, disse o atlântida
talhando a lápide num restaurante tibetano à espera de melhores dias.
Não abandono o meu país, implorou o surdo
para que mais alto lhe dissessem onde fica.
Se ouviu ou não, é redundante.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mnemónica

Menantes, menantes.
Menantes menando Mena meneando amena a mona.
Se a menam não a penam,
apenas menam.
Quando acenam, Mena mune as mamas e une-se em manada às suas
manas esquisitas como a merda que os menantes depois escrevem
sobre Gauguin, idas à praia, relva e escalracho.
Não é assim que se mata um macho.