terça-feira, 14 de outubro de 2014

Talvez o funil

Meu caro colega: se eu largar no balcão um manual de vendas redigido em verso, onde o arrumas?
- Com fatura ou com guia?
Como for melhor.
- É melhor ser com guia, evitas o crédito. Meto-o algures na estante da gestão, sempre pode ser que alguém lhe pegue para meter nas despesas. Ou então deixa - vai para o meio dos Pessoas, só se estraga uma casa e pode ser que ao engano te tomem por um deles. Qual é o título?
Talvez o funil.
- O funil?
"Talvez o funil".
- OK. Poesia. Ia perguntar pelo funil mas fiquei à toa com o talvez.
O funil sistematiza as fases da relação comercial, da que antecede o primeiro contacto com um cliente até à próxima venda, sempre a próxima.
- Tenho uns poucos assim. Não queres comprar nada?
E amanhã teria de vir cá outra vez.
- Estou a gostar desse funil, sem dúvidas que estou.
O talvez é por uma certa propensão para aplicar o funil a tudo.
- Esquece, a filosofia também não vende.
No funil, procuras pessoas interessadas no que podes ter, acertas as coisas e avanças. Vês se está tudo a correr bem e assim acabam por poder precisar de ti outra e outra vez.
- Estou a ver. Hum. Também se aplica isso às gajas?
Às tantas a tudo.
- Eu é mais gajas.
Pois.
E procuras das que possam estar interessadas ou és tu que te interessas logo pelo que elas têm?
- Isso. Se o negócio for bom até me proponho ao exclusivo!
Poupa para o anel. Fica com o livro, passa a ser teu exclusivo também. Podes pôr-lhe a etiqueta de vendas, negócios, desenvolvimento pessoal, autoajuda. Enfia-o lá pelo meio das tralhas da motivação.
- Mas afinal para que serve esta porra?
Serve para conseguires que precisem tanto de ti a ponto de não seres preciso para nada. Quando ouvires alguém a falar de sucesso é disto que fala.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Na opinião da estatística, os excertos de Zigmunt Bauman e sobre semiótica são os mais encontrados por aqui. Passaram pela rua deserta  519 vultos da Rússia e 41 sombras chinesas. Este o poema mais encontrado, "Lover of mine", Beach House, a música mais ouvida. OK.
acho que ninguém leva a mal que eu lhe continue a chamar deusébrio

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Não chegar tarde

O reboco das paredes deste prédio
é composto por fragmentos cortantes
de tudo quanto em vida os moradores despedaçaram
e de que forçosamente prescindiram.

Se um vizinho escreve este aviso
é porque numa noite prescindiu também da mão
com que acendeu a luz.

Deslembrando César

Se a César o que é de César, não comereis senão salada.

À mulher de César não lhe basta ser séria, tem de levar um selo.

domingo, 27 de outubro de 2013

O homem sem qualidades - dicionário (em construção)


AMOR. Quando se ama, tudo é amor, mesmo a dor e a repulsa. (p. 221)
ATITUDE. Dito com toda a simplicidade: podemos ter para com as coisas que nos acontecem ou que fazemos uma atitude mais geral ou mais pessoal. Podemos sentir uma pancada não apenas como dor, mas também como ofensa, e neste caso ela torna-se cada vez mais insuportável; mas também aceitá-la desportivamente, como um obstáculo que não nos intimidará nem nos arrastará para uma ira cega, e então não é raro nem sequer darmos por ela. Neste segundo caso, porém, o que aconteceu foi apenas que integrámos essa pancada num contexto mais geral, o do combate, e em função disso a natureza do golpe revelou-se dependente da tarefa que tem de desempenhar. E precisamente este fenómeno, que leva a que um acontecimento receba o seu significado, e mesmo o seu conteúdo, mediante a sua inserção numa cadeia de ações consequentes, produz-se em todos os indivíduos que não o encaram apenas como acontecimento pessoal, mas como desafio à sua capacidade intelectual. Também ele será mais superficialmente afetado nas suas emoções pelo que faz. (p. 213)

CIDADÃOS. Todos os cidadãos eram iguais perante a lei, mas acontecia que nem todos eram cidadãos. (p.63)

CIDADES. As cidades, como os homens, reconhecem-se pelo passo. (p. 31)
CRIMINOSO. Os séculos ensinaram-lhe que os vícios se podem transformar em virtudes e as virtudes em vícios, e conclui que, no essencial, só por inépcia se não consegue fazer de um criminoso um homem útil no seu tempo de vida. (p. 219)

ESTADO. Convém dizer que a existência continuada num Estado bem organizado tem qualquer coisa de fantasmático; uma pessoa não pode sair à rua, beber um copo de água ou apanhar o elétrico sem tocar nas alavancas calculadas de um gigantesco aparelho de leis e ligações, sem as pôr em movimento ou se deixar manter por elas na tranquilidade da sua existência. Conhecemos muito pouco dessas alavancas que chegam até aos níveis mais profundos, enquanto, por outro lado, se perdem numa rede cujo emaranhado homem algum jamais conseguiu destrinçar; negamos a sua existência, tal como o cidadão nega o ar, dizendo dele que é o vazio. Mas o mais provável é que essa natureza fantasmática da vida resulte precisamente do facto de tudo aquilo que se nega, tudo o que não tem cor, cheiro, sabor, peso ou moral, como a água, o espaço, o dinheiro e o passar do tempo, ser de facto o que há de mais importante. Por vezes acontece que um homem é assaltado pelo pânico, como num sonho em que a vontade é impotente, por uma chuva de movimentos tempestuosos, como os de um animal apanhado na armadilha incompreensível de uma rede. (p.222)
Estado é o poder de sobreviver na luta das nações. (p. 251)

FELICIDADE. A felicidade depende muito pouco daquilo que se quer, realiza-se apenas com aquilo que se alcança. (p.61)

FRAQUEZA. - Ser capaz de renunciar a uma coisa que nos prejudica é uma prova de vitalidade. O ser esgotado sente-se atraído por aquilo que lhe faz mal! E tu, que achas? Nietzsche afirma que um artista dá sinais de fraqueza quando se preocupa demasiado com a moral da sua arte (p.85)

HISTÓRIA UNIVERSAL. E na história universal nada acontece fora da órbita da razão.
- Mas no mundo está sempre a acontecer.
- Mas nunca na história do mundo! (pp. 244; 245)

HUMANO. - Há milhares de profissões em que se consuma a existência das pessoas; é aí que se concentra a sua inteligência. Mas se exigimos delas o que há de mais universalmente humano e é comum a todos, o que resta só pode reduzir-se a três coisas: a estupidez, o dinheiro ou, no máximo, um resto de memória religiosa. (p. 246)
 
IGNORAR. Não dizia já Cromwell que «um homem nunca vai mais longe do que quando ignora para onde vai?» (p. 133)
 
INSTRUMENTOS DE ANGÚSTIA. Pois a coisa certa e o tempo de que ela precisa estão ligados por uma força misteriosa, como uma escultura com o espaço a que pertence ou um lançador de dardo com o alvo em que acerta sem olhar para ele. Ulrich já tinha ouvido falar muito de Arnheim, e lera alguns dos seus livros. Num desses livros estava escrito que o homem que observa ao espelho o fato que vestiu é incapaz de uma conduta decidida, porque o espelho, originalmente criado para dar alegria – eram ainda palavras de Arnheim -, tinha-se transformado num instrumento de angústia, tal como o relógio, que é um substituto para o facto de as nossas atividades não se desenrolarem já de forma natural. (p. 248)

JUVENTUDE. A arrogância da juventude, que vê nos grandes espíritos tão-somente material para alimentar os seus caprichos, tinha para Ulrich naqueles momentos um estranho encanto. Tentou recordar-se dessas conversas. Eram como sonhos, quando, ao despertar, ainda retemos os últimos pensamentos do sono. E pensou, com alguma surpresa: «Quando, na altura, fazíamos determinada afirmação, ela não tinha de ser correta, só tinha de servir para nos afirmarmos a nós próprios!» Tão mais forte era, na juventude, a necessidade de brilhar do que a de ver claro. E sentia como uma perda dolorosa a lembrança dessa sensação jovem de flutuar como que sobre raios de luz. (p.95)
MUDANÇA. Tudo está sujeito a mudança, é parte de um todo, de inúmeros todos que provavelmente são parte de um último todo de que, no entanto, não sabe nada. (p. 105)
NOVA ERA. Ideias até aí de fraca aceitação colhiam agora louros. Pessoas por quem antes ninguém daria nada tornavam-se famosas. Os contrastes atenuavam-se, o que estava separado voltava a juntar-se, espíritos independentes faziam concessões ao êxito, o gosto já formado voltava a cair na incerteza. Por toda a parte se tinham esfumado os limites claros, e uma nova capacidade, indescritível, de entrar em alianças fazia emergir novas pessoas e novas ideias. Não eram más, com certeza que não; acontecia apenas que uma pequena percentagem do mau se infiltrava no bom, o erro na verdade, a acomodação na convicção. Parecia mesmo que havia nesta mistura uma percentagem favorita capaz de obter os maiores sucessos; a medida exata de sucedâneo que fazia o génio parecer mais genial e o talento apresentar-se como grande esperança; qualquer coisa como aquela pequena porção de figo ou de chicória que, segundo alguns, dá ao café o seu verdadeiro gosto a café. E de um dia para o outro todas as posições importantes e privilegiadas da vida do espírito foram ocupadas por gente dessa, e todas as decisões que se tomavam iam nesse sentido. Não se pode dizer que isto ou aquilo foi responsável por tal situação, nem como se chegou aí. É impossível lutar contra pessoas ou ideias, ou contra certos fenómenos. Não há falta de talentos nem de boa vontade, nem sequer de carácter. A questão é que tanto pode faltar tudo como nada. É como se o sangue ou o ar se tivessem transformado: uma doença misteriosa consumiu a ínfima semente de genialidade da época anterior, mas tudo reverbera com o brilho do novo, e por fim já não se sabe se foi o mundo que ficou pior ou simplesmente nós que envelhecemos. É o começo definitivo de uma nova era. (pp. 96; 97)
POLÍCIA. O mais espantoso em tudo isto é que a polícia não só é capaz de desmembrar uma pessoa de tal modo que nada dela reste, como também de a montar de novo a partir dessas peças insignificantes, e de a reconhecer nelas. Para que isso aconteça, basta acrescentar-lhe aquele imponderável a que chama suspeita. (p. 226)
PROGRESSO. Todo o progresso é um ganho no particular e um desmembramento no todo; é um aumento de poder que desemboca num progressivo aumento de impotência, e contra isto não há nada a fazer. (p. 219)
RESPONSABILIDADE. Hoje, pelo contrário, a responsabilidade deixou de ter o seu centro no indivíduo, e passou a tê-lo nas circunstâncias. Não houve já quem afirmasse que os acontecimentos se tornaram independentes das pessoas? Passaram-se para o teatro, para os livros, para os relatórios dos centros de investigação e das expedições científicas, para as comunidades ideológicas e religiosas, que fomentam determinados tipos de acontecimentos à custa dos outros, como uma grande experiência social; e se esses acontecimentos não se encontrarem em desenvolvimento, ficam pura e simplesmente a pairar no ar. Quem poderá, hoje, dizer ainda que a sua cólera é realmente a sua cólera, quando tanta gente fala dela e sabe mais disso que ele próprio? Nasceu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive, e quase parece que, em última análise, a experiência de cada um se tornou impossível e o fardo ameno da responsabilidade pessoal se vai dissolver num sistema de fórmulas de significados apenas possíveis. A dissolução dos comportamentos antropocêntricos, que durante tanto tempo tomou o homem por centro do universo, mas está a desaparecer há séculos, chegou provavelmente ao próprio eu, já que a crença de que o mais importante da vivência é vivê-la e o mais importante da ação é fazê-la começa a parecer uma ingenuidade para a maior parte das pessoas. Haverá certamente ainda pessoas que vivem de forma muito pessoal; dizem «Ontem estivemos em casa de fulano ou beltrano», ou «Hoje vamos fazer isto ou aquilo», e ficam muito contentes, sem que isso, aparentemente, precise já de ter significado e conteúdo. Gostam de tudo o que podem tocar com os próprios dedos, e são pessoas puramente privadas, até onde isso é possível; o mundo transforma-se em mundo privado logo que se relaciona diretamente com elas, e cintila como um arco-íris. Talvez sejam muito felizes; mas este tipo de pessoas é já visto pelos outros como absurdo, apesar de ainda ninguém saber por que razão. (pp. 214; 215).
SER. No fundo, poucas pessoas saberão, a meio da vida, como chegaram a ser o que são, aos seus prazeres, à sua visão do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas sentem que a partir daí as coisas já não irão mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque não se consegue descobrir em lugar nenhum a razão suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente possível ter acontecido de outra forma. O que acontece, aliás, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunstâncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida está ainda à nossa frente como uma manhã inesgotável, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa própria vida, mas que é tão surpreendente como uma pessoa com que nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de nós e constatamos que é completamente diferente do que havíamos imaginado. Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem deem por isso; adotam aquele que veio ter com elas e cuja vida se fundiu com a própria, as vivências dele parecem-lhes agora ser a expressão das suas próprias qualidades, e o destino dele é o seu mérito ou sua desgraça. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com o papel mata-moscas: algo as apanhou por um pelo, lhes impediu os movimentos, as manietou a pouco e pouco até ficarem sepultadas sob uma espessa cobertura que já só vagamente corresponde à sua forma primitiva. (p. 190)
TÉCNICA DE BISMARCK. Para alcançar os seus fins, servia-se neste caso da técnica de Bismarck, que de resto não gostava de tomar como exemplo: punha na boca dos jornalistas as suas verdadeiras intenções, para, de acordo com os ventos que soprassem, as poder confirmar ou desmentir. (p. 202)
VALOR. É preciso que o homem se sinta primeiro limitado nas suas possibilidades, nos seus planos e sentimentos pela ação dos preconceitos, das tradições, de dificuldades e constrangimentos, como um louco num colete de forças, para que aquilo que ele consegue realizar tenha algum valor, maturidade e solidez… (p. 47)
VIDA. Mas acontece que a vida nada constrói sem arrancar de outro lugar qualquer as pedras de que precisa. (p. 150)
O homem sem qualidades - Robert Musil (tradução de João Barrento, Publicações D. Quixote, 2008).