sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Os Poemas Possíveis". José Saramago

São sempre poucos os autores de quem já lemos um livro, sempre raros os que apreciamos. De José Saramago, li e ofereci livros, para além do gentil ofício de os vender. Sei que apertámos as mãos a 6 de Novembro do ano 2000, depois de ter assinado o meu exemplar d´Os Poemas Possíveis. Raros os gestos de denúncia às nossas referências.
Hoje apetece-me procurar todas as figuras vivas que me habitam e dizer-lhes isso mesmo!

Do exemplar autografado, dois poemas (Aniversário e Oceanografia):

Pai, que não conheci (pois conhecer não é
Este engano de dias paralelos,
Este tocar de corpos distraídos,
Estas palavras vagas que disfarçam
O intransponível muro):
Já nada me dirás, e eu não pergunto.
Olho, calado, a sombra que chamei
E aceito o futuro.

.

Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.

De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
Ancorado nas escolhas, concedo ao desejo uma geografia humana, um mapa – não um explicador. Mimar os passos com chão, caminhar. Arrastamos connosco uma rua deserta e, ancorados nela, é preciso vincular o dia ao seu valor facial e celebrá-lo. Ser feliz quando não houver mais nada para ser. Encher as ruas.