quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por um espanto

Nas piores semanas leio um livro; nas melhores nenhum, quatro, cinco ou seis. Nunca li tanto como agora, desde o tempo das aventuras que a minha irmã me trazia da biblioteca à razão de duas por dia. Tenho os meus essenciais e leio tanto para reforçá-los como para os substituir, para não me esquecer deles noutro que procuro. Leio para não me esquecer.
Leio para não me esquecer na roca dos dias, para escapar à minha representação. Somo-nos; não somos. Leio por um espanto. Sublinho, anoto e publico contra o esquecimento. Às vezes escrevo como exercício de consolidação ou de dispersão.
Leio por ressentimento – é o que é – e se escrevo é por vingança. Cada livro abre e deixa um rasto de ignorância. Esta consciência é a única vitória da leitura e dura o tempo de também dela nos esquecermos.
Não sei se leio contra a abnegação, se por ela. Nem sequer sei se a leitura é abnegação já consumada, o esquecimento na sua rememoração. E rio-me no espanto de a cultura vir então a ser o conjunto de jogos / representações com que cada pessoa exercita a sua abnegação, quando não está a exercê-la. A abnegação transferida para aquilo a que cada um toma por seu. Como nos afectos, meu amor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Três delírios de uma cabrita seguidos de uma piada

1.
"A mente deveria apenas servir para analisar e viabilizar o que sentimos e não para, como acontece actualmente, aniquilar o que sentimos através da razão e dos medos."

2.
"Se notares, todas as pessoas que perdem um emprego ou é porque intimamente não gostavam dele ou porque o utilizavam para parecer que eram algo mais do que realmente São."

3.
"Quando a perda se consuma, fica um sentimento de revolta difícil de controlar.
Qual é a solução?
A de sempre. Aceitar. Aceitar que atraiste esse despedimento ou essa doença ou essa falência para prestares mais atenção às tuas escolhas. (...)"

E a piada:

"Este livro e este CD com o exercício substituem o curso?
Não, absolutamente. As pessoas deveriam ler este pequeno livro e fazer este exercício do Eu Superior antes do curso, para que aproveitassem melhor todos os recursos espirituais que ensinas no curso."

Alexandra Solnado in O Eu Superior e outras lições de vida (Pergaminho, 2011)

sábado, 2 de abril de 2011

Resumo do Resumo

É assim

Não interessa o que se diz, o que se escreve
não interessa. Não interessa como se diz
seja embora o como não de todo isento
de interesse. Não interessa a hora, o dia
o lugar. Não interessa onde nem a quem
nem para quando nem para quê
Não interessa porque se diz o que se diz
Muita coisa há que não interessa, aliás
quase nada interessa tratando-se de dizer
Não interessa quando se diz, mas interessa
menos ainda, isto é, nada mesmo
o que se diz ou o que tal queira dizer
Interessa o quê, então? Interessa o mar, o mar
em si mesmo e aquilo que acontece quando o mar
nos cai em cima, prevenida ou desprevenidamente
O mar, o mar sim interessa, mas
convenhamos, o que é que há a dizer
quando o mar nos afaga ou nos cai todo em cima
e nos submerge e afoga? Toda a água
todo o frio, todo o azul, todo o verde que há no mar
Como soi agora dizer-se ao iniciar uma qualquer
explanação, é assim: não há nada a dizer
e quando então alguma coisa se diz, o que é que isso
pode querer dizer ou que raio de interesse poderá ter?
Estão a ver a situação: o mar, toda a monstruosa
porção de água que o mar é, todas as cores
todo o frio e toda a espuma, toda a luz também
e escuridão que há no mar, tudo em cima
de nós. Assim de repente. Que interesse
tem dizer? E dizer o quê? E como?

Rui Caeiro in "Resumo - a poesia em 2010" (Assírio & Alvim, 2011).

Serenidade

"Senhor, conceda-nos a
serenidade para aceitar
as coisas que não podemos mudar,
a coragem para mudar as coisas
que conseguimos mudar,
assim como a sabedoria
para as distinguir."

Reinhold Niebuhr citado por Gabriel García de Oro in "Storytelling - a magia das palavras"  (GestãoPlus, 2011).