domingo, 25 de julho de 2010

"Tema d´Amore". Ennio Morricone. (Cinema Paradiso)







"Identidades Pessoais - interacções, campos de possibilidade e metamorfoses culturais". Ricardo Vieira (Colibri, 2009)

“Somos, efectivamente, cada vez mais, multiculturais, interculturais às vezes, mestiços, compósitos, translocais e menos monolíticos (na construção pessoal e social já que, nas atitudes, às vezes, o local raia o umbilicalismo). Porventura, não somos apenas uma única coisa facilmente definível e não somos apenas de um sítio, de um lugar. Não nos sentimos de uma única terra; vemos em mais que um lugar. Por isso estamos; isso sim, verdadeiramente não somos. Em vez de sermos, estamos. Estamos em trânsito. Estamos sendo.”

“À questão “onde vives?” costumo responder com outra questão: “o que entendes por viver? Perguntas onde eu durmo, é isso? (…) Somos, pois, identidades em trânsito, em gerúndio. Daí que muitos continuem a insistir “mas vives em tal parte, não é?” Bom, eu diria que esta lógica localista e monolítica está de tal forma incorporada em nós que as perguntas que se fazem desmascaram qualquer postura e discurso que se pretenda ter como pluralista, globalizante ou outro semelhante (Maalouf, 2002). (…) O senso comum que há em nós cai, não raras vezes, nesse essencialismo redutor que formula as perguntas “Quem és? Donde és? Onde vives?” com base numa visão redutora dos processos de identificação. (…) Falar de identidade, hoje, implica, efectivamente, pensar dinamicamente e não apenas estruturalmente.”

“Cada homem quer transformar o que não é seu naquilo que quer, e que quer que seja seu. Busca assim uma síntese com a acção que ele quer. Constrói-se assim o Eu. Uma construção cuja matriz cultural é, de alguma forma, o outro, matriz da capacidade de pensar e de dar valor às coisas. Em boa verdade são os outros que constituem os referenciais para se ser ou, pelo menos, parte dos outros reajustadas ao eu que se torna assim num nós. Um eu que, portanto, é sempre um eu plural. Um eu que, assim, é sempre um eu multicultural em termos de construção, no sentido de matizado de diferentes influências. Trata-se de uma tarefa tipo bricoleur, como escreveu Lévi-Strauss (1962), a propósito de que este constrói todo o tipo de coisas com a matéria-prima que tem à mão.
A tomada de consciência do eu e do outro faz-se quer pelo jogo de oposição e demarcação, o enclausuramento no nós cultural, quer pela assimilação, no fundo a total abertura à diferença. Em ambos os casos há comunicação, processos interactivos caracterizados pela existência da percepção da alteridade.”

“A identidade pessoal, ao contrário da personalidade, que tem uma dimensão mais estrutural, nunca está acabada. (…) «nós somos também `pós´ relativamente a qualquer concepção essencialista ou fixa de identidade» (Hall)”.

“É assim que a vida individual e social não pode ser considerada um dado, mas sim uma construção em auto-reorganização permanente.”

“Nas sociedades modernas é cada vez menor o peso da sociedade na determinação das identidades. A sociedade oferece apoios que facilitam o trabalho individual de encerramento em si. A auto e a heteroformação vão a par mas, finalmente, é o Homem que se constrói a si próprio, não sendo o produto do papel químico do pattern of culture da escola de cultura e personalidade (…). Daí a importância da captação das subjectividades dos sujeitos (…). Daí, portanto, o interesse da antropologia pela pessoa. Não são só os indivíduos que passam pelas culturas; são, também, as culturas que passam pelo indivíduo das quais retira peças (Lévi-Strauss, 1977) para construir o seu eu mestiço e compósito (Maalouf, 2002) e, por vezes, sobreposto (O´Neill, 2002).”

“Michel Serres (1993) põe bem em evidência o facto de em todos os processos de aprendizagem e de construção e reconstrução da identidade por que passamos ao longo da nossa existência se transitar de uma margem para a outra de um rio, metaforicamente falando, sendo que entre as duas há um centro – um centro de dúvida, de todas as possibilidades, de oportunidade para tomar todas as direcções. Esse centro é como o ponto central de uma estrela que irradia em todas as direcções. Por outro lado, este lugar central, a que o autor atribuiu o nome de “terceiro lugar” ao longo de toda a obra [O Terceiro Instruído], é um local de transição, de mudança de fase e, por conseguinte, de sensibilidade, com obstáculos – de exposição. Contudo, o autor refere-se a esse terceiro lugar como algo necessário à aquisição de conhecimento, à aprendizagem e também como algo que proporciona uma constante instrução a um “terceiro instruído” – aquele “mestiço”, resultado de meios-termos entre diferentes locais e caminhos possíveis de percorrer que cada indivíduo experimenta ao longo das aprendizagens que faz ao longo da vida.
(…) Serres (1993) mostra que a prática é o caminho para o saber – precisamos experimentar, precisamos de prática. Ao experimentar estamos também a dar-nos à possibilidade de nos relacionarmos com outros, sendo que dessa relação surgem também terceiros. Se surge um terceiro lugar que corresponde à relação que se estabelece entre os dois, surge também um outro terceiro em nós e um outro naquele com quem estabelecemos a relação – o outro passa a ver e a conhecer uma terceira pessoa.
O Terceiro Instruído refere-se, assim, àquilo que surge entre duas margens – entre a direita e a esquerda, entre o homem e a mulher, entre uma margem do rio e a outra. Noutro lugar, refiro-me a esta matéria dizendo que 1 e 1 = 3, na medida em que existe um terceiro – a relação que se estabelece entre ambos, a transformação.”

«“[hoje] não construímos grandes relatos de emancipação mas pequenos relatos de convivência. Agora as palavras ambíguas, cada uma delas com sua parte de verdade e sua manipulação, são democracia, comunidade, coesão, diálogo… e outras palavras relacionadas, como diversidade, tolerância, pluralidade, inclusão, reconhecimento, respeito. E são essas palavras as que nos soam como falsas quando as ouvimos no interior de muitos discursos dominantes no campo político, educativo, cultural, ético, ou, inclusivamente, empresarial. São palavras cada vez mais vazias e esvaziadas que significam, ao mesmo tempo, tudo e nada: marcas, clichés, etiquetas de consumo, mercadorias que se avaliam bem no mercado com a alta de boa consciência: palavras que mascaram a obsessiva afirmação das leis e da excessiva ignorância dos sentidos; palavras que permitem ocultar-nos atrás de nós mesmos […]; palavras para ensurdecer os ouvidos e nos tornar insensíveis às diferenças, para continuarmos sendo nós mesmos […] com o mesmo medo de nos abandonarmos ou sermos outro(s) e em trânsito.” (Larrosa e Skliar)».

“O princípio de corte que, ao contrário da posição dos culturalistas, permite pensar a descontinuidade cultural, acaba por ser um mecanismo de defesa de identidade cultural por parte de grupos minoritários. O caso dos imigrantes africanos muçulmanos que trabalham nos matadouros de suínos em França é um óptimo exemplo desse corte que subjectivamente é um recurso usado pelo modelo bilingue, bicultural e multicultural que tenho estudado.”

“O sujeito, a pessoa, é mais um processo que uma estrutura; é um processo dinâmico, aberto, ainda que, simultaneamente, muito condicionado pelos esquemas de pensamento e de acção interiorizados na infância (cf. Bourdieu, 2005). Mas não inculcados a papel químico, como que perfeitamente determinados; antes, produto de um bricolage (cf. Levi-Strauss, 1977 e 1983; Perrenoud, 1993) da auto e heteroconstrução (Vieira, 1999b), e, portanto, arrumados, subjectivados, de determinada forma impossível de prever.”

“É por parecermos cada vez menos diferentes que afirmamos com raiva as nossas diferenças.”

“O desafio de compreender a vida, através de biografias e genealogias, é aqui apresentado como um método com potencialidades do qual a educação pode servir-se para o entendimento das representações e para a construção da mudança em face das novas exigências sociais.
Os actores, os sujeitos, ou melhor, os agentes sociais que constituem o nosso objecto, reflectem eles próprios sobre as nossas intenções e sobre si próprios. São também investigadores de si próprios. Não são vazios de teoria. O papel do investigador não é o de, por artes mágicas, encontrar o verdadeiro sentido das práticas dos sujeitos estudados. Através de entrevistas etnobiográficas conducentes à construção de histórias de vida, procuro mostrar o interesse interaccionista de o objecto de estudo saber das intenções do investigador, no sentido de os dois acederem a dimensões interpretativas que não estavam explicitadas para ambos. Não é apenas o investigador que tem competências compreensivas. A compreensão já está presente nas actividades mais banais da vida quotidiana. E ambos, entrevistador e entrevistado, podem aceder a novas dimensões informativas e formativas.
O modelo 1 e 1 = 3, invocado atrás, considerado como metáfora, trata, no fundo, de como através duma entrevista informal e etnográfica sobre as práticas dos sujeitos estudados, ou sobre as suas trajectórias sociais, se pode encontrar um caminho para a redescoberta de si mesmo; para tornar consciente a razão de acções que se praticam sistemática e rotineiramente; (…).”