domingo, 27 de março de 2011

O eixo da noite

Noite cortina cabelo ondulante
vidraça de mar
poiso de mulher
baloiço de agravo e de amanso em véspera de sangue.
A noite exemplar é uma arma apontada
ao queixo que roça
o gatilho a mão
o cano na boca
que um beijo fulmina
na rebentação
detrás da cortina indiferente.

O eixo da noite é uma janela suada que hidrata os meus olhos encostados.

Hoje o mar é só um fundo de mar e
os meus olhos são o fundo dos meus olhos.

No fundo da noite carreguei os meus olhos
com a água pesada deste mar, e caminho
a rua deserta
até me afundar nas pedras.

Para acabar de vez com a poesia: Adília Lopes

No final de cada poema interrogar
e o que é que tu queres que eu te faça?

sábado, 19 de março de 2011

Ponto de focagem do oceano. Pia Tafdrup (Quetzal, 2004)

NO ESPELHO

No espelho
o olhar desaparece

às vezes desalojado
no meu próprio corpo

às vezes
angustiado
pela angústia
que rola
para lá e para cá como destroços
na rebentação

raspo com um dedo
o vidro
e oiço o mundo gritar.

*

MIL VEZES NASCIDO

[...]
71.
Se formos para o céu,
pergunta a criança,
o esqueleto também vai,
e todos os ossos que o cão comeu?

[...]
97.
Não procurem a caixa negra da poesia,
não tem respostas gravadas,
está cheia de perguntas e perguntas dos sonhos
ou de um silêncio onde é penoso entrar.

*

DEZ INVOCAÇÕES

[...]
Deus, meu Deus
estou deitado num banho de ácido
à espera de melhores tempos

[...]
Deus, meu Deus
sou um corpo
que a linguagem toca

"O valor da fábula"

"Esta é daquelas ideias que nada tinha de perigoso quando foi engendrada, mas que descambou num assunto imprevisivelmente demasiado polémico. À semelhança do que se tem feito com outras figuras históricas - Tutankhamon, Cristóvão Colombo, entre outros -, pretendia-se não só dignificar o túmulo do nosso primeiro rei, como analisar antropologicamente os seus restos mortais. Fundamentalmente, este estudo permitiria aceder a episódios inéditos da vida do fundador do nosso país. Daria igualmente lugar a uma confrontação sem precedentes com as fontes históricas e permitiria dar «uma cara» a um dos grandes mitos da nossa história. Um estudo não invasivo, antes pelo contrário, que permitiria limpar os restos ósseos do rei; uma análise segura, pois não deveria ser necessário sair da Igreja de Santa Cruz para a concretizar; um estudo rápido, que deveria ser realizado em dois dias, para logo colocar as ossadas de novo no túmulo, provocaram variados anseios que o inviabilizaram. [...] Conjecturou-se sobre a possibilidade de os resultados poderem vir a mexer na história de Portugal. [...] Ficámos sem saber se o rei era alto e robusto, se na Batalha de Badajoz fracturou severamente uma perna a ponto de não mais ter montado a cavalo, se a sua morte ocorreu de facto numa idade muito avançada, se padeceu de alguma doença que deixasse marcas nos ossos. Ficámos sem conhecer a cara do rei. Seria tudo isto perigoso?"

"O valor da fábula", Eugénia Cunha in Ideias Perigosas para Portugal (coord. João Caraça e Gustavo Cardoso, Tinta da China, 2010).

domingo, 13 de março de 2011

O deus que é transparência. António Ramos Rosa ("Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.")

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.
Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.
Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.
É como se procurasse alargar a mão dos deuses.
É como arder com a água na brancura ofuscante
da ressaca. E as palavras da casa se levantam
a janela a porta a cama e a cadeira.
São presenças espessas e nítidas no perfil.
Assim se forma um círculo com energia erguida
nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.
Maternas são as sombras em torno de um centro verde
que foi talvez um deus antigo que se esqueceu
e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

De "Acordes" (1989). In Antologia Poética (Dom Quixote, 2001).

Um poema interativo

A quem me pedir um poema interativo
direi que neste exato instante o poema é vida própria, acidente,
mão de um qualquer deus a masturbar o leitor,
colhidos os órgãos genitais na passadeira tensa da leitura.

A seguir, neste antro da moral,
vem o leitor interativo, que encorpa e masturba o poema.

A quem mo pedir,
direi que tudo e nada já estão ditos, e do tudo até ao nada.
Talvez falte cursar o outro caminho, a rua deserta,
desnascer
e renascer nos hiatos habitando a fuga; e é talvez
neste talvez que se funde e fode o poema.

Pronto.
O poema está agora a borrifar-se nos olhos interativos do leitor.

terça-feira, 8 de março de 2011

Se o leitor escreve, tu escreves. Eduardo Prado Coelho

"(...) E depois: ler pode ser também escolher a posição certa para ler, partindo de todo um conjunto de protocolos que criaram a predisposição para a leitura. E agora, movido pelo entorpecimento do corpo, pelo formigueiro dos invisíveis estalidos musculares, mudar de posição, como quem muda de posição durante o sono, numa gestualidade não intencional, ou como quem muda de posição numa relação amorosa - porque as duas referências afloram na expressão «as posições do leitor», neste balanceamento entre o amor e o sono que se vai estabelecendo num indiferenciado tecido de intimidade cega.
Que significa ler? Etimologicamente, aquele que lê é aquele que escolhe, que vai colher na árvore dos textos os frutos escolhidos: ler é eleger, escolher as palavras que emergem do fio do discurso, dar-lhes o brilho e a cor que lhes convêm, e por isso todo o leitor é um eleitor, e não há leitura sem uma política de leitura, e não há verdadeira leitura sem uma democracia da leitura."

"E foi dessa leitura que cada um ganhou o seu estatuto de «intelectual», aquele que tem a capacidade de compreender, porque é capaz de 'inter-legere», isto é, de escolher naquilo que há para ler o que vale a pena ser lido, e escolher no atropelo dos textos o que vale a pena ser retido para dar aos textos o sentido que eles têm, ou melhor, esse sentido que eles podem ter, porque ler coloca-nos sempre no futuro de cada texto: o leitor escreve para que seja possível. E assim cresce a inteligência de cada um na inteligência de todos, colocando-se o intelectual no seu lugar de ser orgânico, elemento de um corpo que aumenta (o autor é aquele que aumenta o mundo e que nisso provisoriamente se autoriza) em sentidos e sentido, preso da paixão do inteligível, disponível para o processo da inteligência comum, e no entanto sempre privada, sempre no círculo da leitura, sempre na luz do «abat-jour», murmuradamente como diz o vice-cônsul no India Song: o «amor é uma inteligência de ti» - dessa mulher desconhecida que dança até de madrugada.
Havia um termo para «amor», termo antigo e amarelecido, que era «dilectio», e dizia-se «filho dilecto», isto é, filho escolhido, ou «o amigo dilecto», ou (menos, infinitamente menos) o «amante dilecto», e no entanto era sempre de amor que se tratava, entre aquele que diligentemente (palavra que começou por dizer escolha feita com consciência e empenho, e que depois se deixou ser outra coisa, e passou a designar o cuidado que se põe em fazer depressa uma coisa) escolhe um ser, ou objecto amado, e uma pequena zona do mundo, incisão ou cicatriz, que passa a ser o lugar, o corpo, o olhar, o gesto ou o ciciar da pele que se tornam, entre todos os possíveis, os que se dizem predilectos. Trata-se então de não neglicenciar o que se elegeu ou recolheu, e criar em torno desse amor a sua lenda, isto é, o seu corpo de palavras a serem lidas como um mito, lenda e legenda de um encontro, de uma imagem, de uma fotografia, o fotograma dilecto, a fotografia delida, a fotografia lida e relida na gramática da sua luz, no drama da sua memória, na elegância de um olhar silencioso, na repetição impossível do nome que a nomeia."

"E este acto de ler, na solidão das suas regras, é sempre algo que se empolga até ao outro pólo da comunicação: o incomunicável faz que se toquem as mãos de um «tu» face a um «eu». Nessa espécie de mistério interminável em que um «mundo» se identifica com um «tu», na medida em que cada «tu» é sempre o ponto de partida de um mundo a abrir-se a si mesmo. Daí essa identidade perplexa e problemática mediada pelo vazio de dois pontos: «abria-se o mundo: tu». Mas como aquele que lê é também aquele que escreve, na medida em que ler é começar a escrever, existe sempre um destinatário da leitura tal como existe, sussurrado ou explícito, um destinatário da escrita (secreto, cifrado, rasurado, arfante)."

"«Algures como no passado» - a leitura cria o seu próprio tempo, que é feito da distorção de todos os tempos conhecidos: «algures então, como no futuro». Mais: o livro passa a ser relógio, é ele o instrumento de medição do tempo, uma hora de leitura, vinte horas de leitura, vinte anos depois.
Mas o primeiro efeito do livro no corpo do leitor é um sentimento de vazio enquadrado: uma ausência que se avoluma, o medo que dá caminhar no vazio, a luz (branco no branco, à maneira de Malevitch), na escuridão absoluta de uma luz que cega, e ao mesmo tempo - traço fundamental - um efeito de enquadramento: toda a leitura põe num espaço um infinito, põe o mar sobre uma mesa, põe o céu sobre uma toalha, põe o jogo do mundo no rectângulo de um bilhar. Por isso, a cada passo se faz referência a fotografias, telas de pintura, imagens de cinema, janelas. O infinito, a explosão, a fenda vulcânica, só existem porque alguém coloca um traço à sua volta, um traço de palavras a lápis: «isto é um livro». Este livro a abrir é um livro, uma ilimitação íntima. Antes de ser sentido, ou dor, ou grito, ou murmúrio, ou mancha, a letra é um ardor, a letra arde, ardia - no espaço da página. Para além do ser e da aparência, «um simulacro». A leitura é uma máquina do mundo que se acelera pela paciência de uma desmedida lentidão: «o leitor ia virando as páginas que muito lentamente ondulavam.»"

"O segredo de cada texto é dizer-nos que o tu que nele se inventa é o tu que qualquer eu pode inventar, mas é também o único tu que esse texto autoriza: o tu que tu, definitiva e incompreensivelmente, tu és, e recomeçarás a ser, em todos os textos que eu escrever, ou ler. E por isso o que num texto se apaga é o que num texto se ilumina: o irrepetível de um vazio aceso. A rasura é a aparição. A sintaxe é o pórtico. A história narrada é a ponte destruída - bombardeada e intacta."

in O leitor escreve para que seja possível. Manuel Gusmão, Eduardo Prado Coelho e Duarte Belo (Assírio e Alvim, 2001).