quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Marble house". The Knife



"Renascer". Susan Sontag.

Sou, há dois dias, leitor ávido dos diários e apontamentos de Susan Sontag (na edição de cá, à venda a partir de hoje) e, tal a paixão, já mais do que uma vez recorri à badana da capa para me certificar de que Susan nasceu já nos idos de 1933 e, se nem mesmo assim isto me conforma, volto à badana para confirmar que a seguir consta um ano de morte (2004). A leitura deste diário íntimo, escrito sempre somente para si própria, e logo este primeiro volume que reúne os escritos pessoais dos 14 aos 30 anos de idade, perturba-me pela invasão de privacidade e pela humanidade nua e fascinante de Susan – e aproxima-me intimamente dela também, desrespeitando eu desde já a formalidade do apelido. Não me lembro de algum outro livro que me perturbe como este desde o pegar e abrir com o arrepio de um flagrante a vasculhar a intimidade dos outros. E moro sozinho!

Vivo esta descoberta da história pessoal de Susan com o mesmo sentimento de realização da anterior descoberta, de há exactamente um ano, a cumprir-se hoje ou amanhã, e com as inevitáveis comparações, pela efervescência dos afectos.

A recolha cronológica abre aos 14 anos, com alíneas daquilo em que Susan acredita, como estas primeiras: “a) que não há um deus pessoal ou vida depois da morte” (e aqui eu logo me impressiono por a identidade pessoal ser transversalmente determinada por um património mitológico: deus e derivados); “b) que a coisa mais desejável no mundo é a liberdade de ser verdadeiro consigo próprio, por ex., Honestidade” (por esta me transporto para a problemática do ser, que é ser no outro); “c) que a única diferença entre os seres humanos é a inteligência” (coloco o meu parêntesis para relevar as questões de cultura, tendo eu a percepção do conceito de inteligência mais em termos de potência, pelo que a inteligência que se refere aqui não é inata nem determinada geneticamente); “d) que o único critério de uma acção é o seu efeito último em fazer o indivíduo feliz ou infeliz” (e faço desta o meu lema de vida, contornando esta alínea com um rectângulo vincado).

Do início e do fim do primeiro volume, outros exemplos de rectângulos e sublinhados sobre o pensamento, a vida privada e a formação de Susan (omitindo eu as minhas caixas que mais directamente derivam do meu viciado processo comparativo):
1948

“As ideias perturbam o equilíbrio da vida.”

“E o que significa ser-se jovem em idade e ficar subitamente desperta para a angústia e para a urgência da vida? (…) É impetuosidade, entusiasmo selvagem, imediatamente submergido num dilúvio autodepreciativo. É a cruel consciência da nossa própria presunção… É humilhação em cada palavra em falso, noites em branco passadas a ensaiar a conversa de amanhã e a torturarmo-nos pelas de ontem… uma cabeça baixa segura entre as mãos… é «meu deus, meu deus»… (em minúsculas, é claro, porque não há deus nenhum). (…) É um amargo e avassalador questionar de motivos…”

“(…) que cobardes são as pessoas que se envolvem, ou melhor, que se deixam envolver, por rotina, em relações estéreis – que vidas pútridas, sombrias e miseráveis elas vivem”.

“… A arte, então, aspira sempre a ser independente da mera inteligência…”

“… A linguagem não é apenas um instrumento, mas um fim em si mesma…”

“Leio novamente estes cadernos de apontamentos. Como são tristes e monótonos! Será que nunca conseguirei escapar deste interminável luto por mim própria? O meu inteiro ser parece tenso – expectante…”

1949

“Vou dedicar tempo todos os dias, entre as 2h00 e as 5h00, para escrever e estudar ao sol, e mais quanto tempo conseguir arranjar à noite – serei pacata, cortês e desenredada!”

“Ontem li Nightwood [de Djuna Barnes] – que notável prosa escreve ela – É assim que quero escrever – com profundidade e cadência – prosa pesada e sonante que beneficia aquelas ambiguidades míticas que são simultaneamente fonte e estrutura de uma experiência estética simbolizada pela linguagem –“

“Li a maior parte de Os Irmãos Karamazov e sinto-me subitamente freneticamente impura. Escrevi três cartas a Peter e Audrey cortando relações por completo e à mãe, semideclarando a minha repulsa pelo passado –“

“(…) Ele tem, penso eu, uma mente muito capaz – um dos melhores intelectos com que alguma vez estive em contacto – Embora seja absurdo imaginá-lo virgem, ainda assim tenho a certeza de que ele por regra é inteiramente casto, e sente um tremendo sentimento de culpa pelos seus raros lapsos no pecado…”

1958

“Não jantei. A ler A Consciência de Zeno, que me comove e impressiona profundamente.”
“O casamento é uma espécie de caça tácita em casais. O mundo todo em casais, cada casal na sua casinha, a tomar conta dos seus pequenos interesses e oprimidos na sua privacidadezinha – é a coisa mais repugnante do mundo. É preciso que nos livremos da exclusividade do amor casado.”

“O turismo é essencialmente uma actividade passiva. As pessoas colocam-se num determinado ambiente – à espera de ser excitadas, divertidas, entretidas. Não precisam trazer nada para esta situação – a envolvência é suficiente. Turismo é tédio.”

“P persuadiu-me também a esta noção de amor – que uma pessoa pode possuir outra pessoa, que podia ser uma extensão da personalidade dele e ele da minha, como David seria de nós os dois. Amor que incorpora, que devora a outra pessoa, que corta os tendões da vontade. Amor como imolação do eu.”

1959

“Os orgasmos das mulheres são mais profundos do que os dos homens. «Toda a gente sabe isso.» Alguns homens nunca têm um orgasmo, ejaculam entorpecidos.”

“Foder ou ser fodida. A mais profunda experiência – mais arrebatadora – é ser fodida. O mesmo se aplica a ficar por cima ou por baixo. Durante anos I[rene] não conseguiu ter um orgasmo ficando por baixo, porque (?) ela não podia aceitar a ideia de se entregar completamente, de ser «possuída».”

“Judeus Hebraico: haf (colher), Mash heh (beber) – substantivo, yada (conhecer – sexualmente) – verbo, por exemplo, fazer sexo”

“Kafka: «A partir de um determinado ponto, já não há retorno. Este é o ponto que tem de ser alcançado.»

“Resultado de autoconsciência: actores e público são o mesmo. Eu vivo a vida como um espectáculo para mim própria, para a minha própria edificação. Vivo a minha vida mas não vivo nela. O instinto para acumular nas relações humanas…”

“O meu desejo [Susan Sontag escrevera primeiro «necessidade», depois riscou) de escrever está relacionado com a minha homossexualidade. Eu necessito da identidade como uma arma, para igualar a arma que a sociedade tem contra mim.”

“… Até agora tenho sentido que as únicas pessoas que eu podia conhecer em profundidade, ou verdadeiramente amar, eram duplicados ou versões da minha desgraçada pessoa. (Os meus sentimentos intelectuais e sexuais sempre foram incestuosos.)”

1960

“Stendhal sobre comportamento social ou arte (?): «Cria um impacto, depois parte rapidamente.»”

“I: Sabes porque te custa tanto sobreviver? Tens andado sem gasolina. S: Como? A gasolina é a honestidade? I: Não, honestidade é o cheiro a gasolina.”

“Durante vários séculos a.C. alguns templos gregos eram mantidos como retiros, onde aqueles que estavam emocionalmente perturbados podiam recuperar numa atmosfera calma e descansada («terapia de ambiente»)”

“É importante ficar menos interessante. Falar menos, repetir mais, guardar os pensamentos para a escrita.”

“Não sejas bondosa. Bondade não é uma virtude. Sê má para pessoas que não são bondosas contigo. É tratá-las como inferiores, etc.”

“Na América, o culto da popularidade – querer ser amado por todos, incluindo por pessoas que se detesta”

“Pessoas que têm orgulho [Susan Sontag desenhou uma caixa em torno desta palavra] não despertam em nós o X. Elas não imploram. Não é preciso preocuparmo-nos em não as magoar. Elas excluem-se do nosso pequeno jogo logo desde início.”

“Fúria reprimida é uma fonte de depressão. (I. diz que o pai dela, um homem de grandes acessos de raiva, nunca esteve deprimido.)”

“A vontade. A minha hipostasiação da vontade como faculdade separada reduz o meu compromisso com a verdade. Na medida em que o respeito pela minha vontade (quando esta entra em conflito com o meu discernimento) me faz negar o meu intelecto.

E tantas vezes que eles têm entrado em conflito. Esta é a postura base da minha vida, o meu kantismo fundamental.

Não admira que o meu intelecto esteja silencioso + lento. Na verdade, eu não acredito no meu intelecto.

A noção de vontade e determinação tem vindo muitas vezes fechar o fosso entre o que digo (digo o que não sinto – ou sem pensar nos meus sentimentos) e o que sinto.

Assim, eu determinei o meu casamento.

Eu determinei a custódia de David.

Eu determinei Irene.

Projecto: destruir a determinação.”


1961

“Não sou boa pessoa.

Dizer isto 20 vezes por dia.”

“Há alguns anos apercebi-me de que ler me punha doente, que eu era como uma alcoólica que ainda assim sente uma ressaca depois de cada bebedeira. Depois de uma hora ou duas a folhear livros e ver estantes numa livraria, sentia-me dormente, impaciente, deprimida. Mas não sabia porquê. E não me conseguia afastar dos livros.

- Também, a necessidade de dormir após um acesso de leitura (especialmente se estivesse a ler vários livros) reflecte isto (eu costumava dar-lhes a volta – sem compreender o que sentia – e ler desta forma gananciosa, à noite, com vários livros ao lado da cama, para conseguir adormecer).

“O medo de envelhecer nasce do reconhecimento de que não se está a viver agora a vida que se deseja. É equivalente a uma noção de abuso do presente.”

1962

“Os judeus falam principalmente dos seus «direitos» (em vez de falarem daquilo que querem).”

“(…) Dar aulas para mim é masturbação intelectual”

“A razão por que eu não sou boa na cama (que ainda não «floresci» sexualmente) é porque eu não me vejo como alguém que pode satisfazer outra pessoa sexualmente. – Não me vejo como uma pessoa livre. (…) Atraio a minha própria infelicidade, porque se torna evidente à outra pessoa que eu estou a tentar. Por detrás do «sou tão boa, que até dói” está: “Estou a tentar ser boa. Não vês como é difícil. Tem paciência comigo.»”

1963

“Perguntar: Esta pessoa desperta alguma coisa boa em mim? E não: Esta pessoa é bela, boa, valiosa?”

“Trabalho = estar no mundo

Amar, ser amada = apreciar o mundo (mas não estar nele)

Desamor = achar o mundo insípido, inanimado

Amar é a mais alta forma de avaliar, de preferir. Mas não é um estado físico”