terça-feira, 8 de março de 2011

Se o leitor escreve, tu escreves. Eduardo Prado Coelho

"(...) E depois: ler pode ser também escolher a posição certa para ler, partindo de todo um conjunto de protocolos que criaram a predisposição para a leitura. E agora, movido pelo entorpecimento do corpo, pelo formigueiro dos invisíveis estalidos musculares, mudar de posição, como quem muda de posição durante o sono, numa gestualidade não intencional, ou como quem muda de posição numa relação amorosa - porque as duas referências afloram na expressão «as posições do leitor», neste balanceamento entre o amor e o sono que se vai estabelecendo num indiferenciado tecido de intimidade cega.
Que significa ler? Etimologicamente, aquele que lê é aquele que escolhe, que vai colher na árvore dos textos os frutos escolhidos: ler é eleger, escolher as palavras que emergem do fio do discurso, dar-lhes o brilho e a cor que lhes convêm, e por isso todo o leitor é um eleitor, e não há leitura sem uma política de leitura, e não há verdadeira leitura sem uma democracia da leitura."

"E foi dessa leitura que cada um ganhou o seu estatuto de «intelectual», aquele que tem a capacidade de compreender, porque é capaz de 'inter-legere», isto é, de escolher naquilo que há para ler o que vale a pena ser lido, e escolher no atropelo dos textos o que vale a pena ser retido para dar aos textos o sentido que eles têm, ou melhor, esse sentido que eles podem ter, porque ler coloca-nos sempre no futuro de cada texto: o leitor escreve para que seja possível. E assim cresce a inteligência de cada um na inteligência de todos, colocando-se o intelectual no seu lugar de ser orgânico, elemento de um corpo que aumenta (o autor é aquele que aumenta o mundo e que nisso provisoriamente se autoriza) em sentidos e sentido, preso da paixão do inteligível, disponível para o processo da inteligência comum, e no entanto sempre privada, sempre no círculo da leitura, sempre na luz do «abat-jour», murmuradamente como diz o vice-cônsul no India Song: o «amor é uma inteligência de ti» - dessa mulher desconhecida que dança até de madrugada.
Havia um termo para «amor», termo antigo e amarelecido, que era «dilectio», e dizia-se «filho dilecto», isto é, filho escolhido, ou «o amigo dilecto», ou (menos, infinitamente menos) o «amante dilecto», e no entanto era sempre de amor que se tratava, entre aquele que diligentemente (palavra que começou por dizer escolha feita com consciência e empenho, e que depois se deixou ser outra coisa, e passou a designar o cuidado que se põe em fazer depressa uma coisa) escolhe um ser, ou objecto amado, e uma pequena zona do mundo, incisão ou cicatriz, que passa a ser o lugar, o corpo, o olhar, o gesto ou o ciciar da pele que se tornam, entre todos os possíveis, os que se dizem predilectos. Trata-se então de não neglicenciar o que se elegeu ou recolheu, e criar em torno desse amor a sua lenda, isto é, o seu corpo de palavras a serem lidas como um mito, lenda e legenda de um encontro, de uma imagem, de uma fotografia, o fotograma dilecto, a fotografia delida, a fotografia lida e relida na gramática da sua luz, no drama da sua memória, na elegância de um olhar silencioso, na repetição impossível do nome que a nomeia."

"E este acto de ler, na solidão das suas regras, é sempre algo que se empolga até ao outro pólo da comunicação: o incomunicável faz que se toquem as mãos de um «tu» face a um «eu». Nessa espécie de mistério interminável em que um «mundo» se identifica com um «tu», na medida em que cada «tu» é sempre o ponto de partida de um mundo a abrir-se a si mesmo. Daí essa identidade perplexa e problemática mediada pelo vazio de dois pontos: «abria-se o mundo: tu». Mas como aquele que lê é também aquele que escreve, na medida em que ler é começar a escrever, existe sempre um destinatário da leitura tal como existe, sussurrado ou explícito, um destinatário da escrita (secreto, cifrado, rasurado, arfante)."

"«Algures como no passado» - a leitura cria o seu próprio tempo, que é feito da distorção de todos os tempos conhecidos: «algures então, como no futuro». Mais: o livro passa a ser relógio, é ele o instrumento de medição do tempo, uma hora de leitura, vinte horas de leitura, vinte anos depois.
Mas o primeiro efeito do livro no corpo do leitor é um sentimento de vazio enquadrado: uma ausência que se avoluma, o medo que dá caminhar no vazio, a luz (branco no branco, à maneira de Malevitch), na escuridão absoluta de uma luz que cega, e ao mesmo tempo - traço fundamental - um efeito de enquadramento: toda a leitura põe num espaço um infinito, põe o mar sobre uma mesa, põe o céu sobre uma toalha, põe o jogo do mundo no rectângulo de um bilhar. Por isso, a cada passo se faz referência a fotografias, telas de pintura, imagens de cinema, janelas. O infinito, a explosão, a fenda vulcânica, só existem porque alguém coloca um traço à sua volta, um traço de palavras a lápis: «isto é um livro». Este livro a abrir é um livro, uma ilimitação íntima. Antes de ser sentido, ou dor, ou grito, ou murmúrio, ou mancha, a letra é um ardor, a letra arde, ardia - no espaço da página. Para além do ser e da aparência, «um simulacro». A leitura é uma máquina do mundo que se acelera pela paciência de uma desmedida lentidão: «o leitor ia virando as páginas que muito lentamente ondulavam.»"

"O segredo de cada texto é dizer-nos que o tu que nele se inventa é o tu que qualquer eu pode inventar, mas é também o único tu que esse texto autoriza: o tu que tu, definitiva e incompreensivelmente, tu és, e recomeçarás a ser, em todos os textos que eu escrever, ou ler. E por isso o que num texto se apaga é o que num texto se ilumina: o irrepetível de um vazio aceso. A rasura é a aparição. A sintaxe é o pórtico. A história narrada é a ponte destruída - bombardeada e intacta."

in O leitor escreve para que seja possível. Manuel Gusmão, Eduardo Prado Coelho e Duarte Belo (Assírio e Alvim, 2001).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tempos de atribulação. José Ribeiro de Sousa (em Trilogia de Sonetos, vol. I, Folheto Edições, 2007).

Três sonetos monossilábicos


Tantos
anos!
Quantos
danos!

Santos
planos...
Prantos
lhanos...

Caras
em
Dor

Jarras
sem
flor...

*

De homem
Só,
Tomem
Dó.

Rojem
Pó.
Olhem
Job...

Tudo
Mudo
Pende...

Logo
Dobro
Teve...

*

Calma
Cor
Dor
D´alma

Palma
Flor.
Mor
Salma.

Corre
Mago
Gesto.

Morre
Vago,
Lesto...

Talvez tudo. Fátima Pissarra (Universitária Editora, 2001)

Fugiram-nos os pássaros das mãos
quando nossos corpos deixaram de galopar as nuvens.

*

Se algum dia os barcos
voltarem a singrar nos teus olhos
o meu sexo não terá sido rasgado em vão.

*

De todos os meses são esta fome e esta sede,
por isso todos os beijos
sabem a fruta e têm cheiro a flores,
e neste apertadíssimo abraço
nenhum de nós sabe
onde termina o eu
e começa o tu,
secreto desassossego das raízes
debaixo do sol púbico partilhado

Prostração. Rita Beja (Corpos Editora, 2005)

II

tudo se resume à terra gasta
os lírios
o berço das águas
o pó dos homens

desci do alto
ilusões de um dia
sem nome
sem data

só a certeza aumenta a fasquia
e me faz querer viver depressa

compreendo a indiferença
um quase medo
como um pêndulo no caule
das flores em fim de estação

e nada mais interessa
quando se inala a tristeza
de um dia de aniversário

rapidamente tornarei aos peixes
e verei nas escamas
o crude de minha vestimenta

encantamento? Talvez um dia
e talvez esse dia perdure
talvez nunca chegue

morro e renasço vezes sem conta
e a dor do repasto
tornou-se um hábito frequente

tiro fotografias aos mortos
devoro-lhes o último foco de energia
evoco um cântico
quase celeste
quase platónico

faço-os vibrar de dentro do húmus
a última valsa antes do retomar do ciclo

também o seguirei
também celebrarei as estações

doando aos juncos um novo banco
de rio
doando às cotovias a minha voz
também elas cantarão os mortos

tudo se resume à terra gasta

Do obscuro ofício. Paulo Moreiras (Noctívaga Editores, 2004)

por vezes o acaso
acaba por ser alguém
que sempre esteve
à nossa espera
e entre ocasos
apenas erramos os caminhos

*

com ocas revoltas
justificamos
as frustrações de não sabermos
mudar o que está errado

e errados continuam
os nossos gestos
os nossos movimentos

em vez de terra
somos amargo lodo
e no lodo amargamente
nos vamos afundando

*

tudo me fascina
tudo me consome
pena é não poder
desmultiplicar-me
e ser eu

O médico inverosímil. Ramon Gómez de la Serna (Antígona, 1998)

DEPOIS DO CARNAVAL

Depois do Carnaval tenho muitos doentes que recorrem ao meu consultório incomum. As almas, as vidas e os seres destes doentes ficam perturbados com a mascarada.
É-me muito difícil curar nesses doentes o logro, devolver-lhes a verdade, arrancar-lhes a máscara, tirá-los da obsessão.
«Ficou neste estado desde o baile de máscaras», dizem-me muitas vezes em casa dos pacientes, ainda com a elegância daquela noite nas suas atitudes de enfermos, os homens envergando fraque, as mulheres de vestido posto.
Lembro-me de uma a quem perguntei:
- A si que lhe disseram ao ouvido?
Ficou ruborizada, arroxeada, cor de vinho.
- Não lho direi, não lho posso dizer; nunca o direi a ninguém, nem ao meu confessor.
Obstinei-me. Fui insistindo, dia após dia, porque o humor herpético que nela se declarara desde o dia do baile lhe estava já a infectar o sangue e não havia maneira de o desfazer. Era cada vez mais intensa a borbulhagem que tinha na cara, mais vivos os botões roxos e as veias salientes que a cobriam quase por completo.
Tanto insisti, afiançando-lhe que só tirando-lhe do corpo o que lhe tinham dito ao ouvido se podia curar, que um dia, após ter-me pedido que lhe prometesse, sob palavra de honra, que nunca o diria a ninguém, me transmitiu por fim as palavras afrontosas e de vida interminável que ainda hoje lavram na sua alma um prazer sórdido, uma pestilência singular.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

As palavras transferidas. XIV - As estações

Hoje vi passar Deméter abnegada em demanda da filha
que desde ontem não mete os pés em casa, sem aviso.
Dantes era eu que a procurava e não guardo de todo
as melhores recordações, mas são as que há. Perséfone
não quis a minha entrega ingénua e luminosa
no tempo em que todas as palavras, as coisas e os artefactos
se transferiam para o seu nome, eixo do mundo.
Deméter brevemente saberá
que a sua filha se apostou numa cultura underground,
que não poderia continuar eternamente de roda da mãe
e que há-de voltar quando puder
para pôr a conversa em dia entre romãs e bolinhos.
Quando faz mau tempo (e como tem de ser),
penso que é Deméter, resignada, a vir sentar-se a meu lado
para me copiar, copiosamente.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

As palavras transferidas. XIII – As metáforas

Um reflexo é somente a evidência de um reflexo,
não há imagens na imagem nem corpo no espelho,
tocamos nos vidros para dissimular a existência
como em todas as coisas e nos artefactos
ou uma tarde à janela para refletir a luz e transpor
o mundo, a metáfora das expectativas.
Somos reflexos, reflexivos vamos,
seremos felizes, teremos raízes,
folhagem nos braços erguidos ao céu,
rodaremos sombras convocando o chão.
Mundo é a metáfora que somos, a palavra transferida
para o medo, o ajuste indizível da carne no golpe,
a janela fechada com a cabeça de fora
travando o cigarro, as veias e a voz
numa tarde transposta para o silêncio, mais um dia
por habitar sob o prisma estilhaçado das artes vãs e das ciências falíveis
como o amor e o esquecimento.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As palavras transferidas. XII - Encíclico

Aonde a subtileza do poema à perda certa?
Ei-la na cidade à cova escura
sabiamente administrada nos cafés
esperando a vida quando tudo arde
entre as árvores e a solidão
sob o influxo das marés.
Mas é urgente transferir as palavras para o abismo:
dizer a falta que me fazes
para que o poema retome em queda livre a angústia inaugural.

Um dia todos os partidos serão de causas

http://www.destak.pt/artigo/86101-novo-partido-quer-incentivar-portugueses-a-excluir-carne-da-sua-alimentacao

Novo partido quer incentivar portugueses a excluir carne da sua alimentação

A alteração dos hábitos alimentares dos portugueses, nomeadamente da carne industrial, a comparticipação de medicinas alternativas e a criação de uma polícia para as questões animais são propostas do futuro programa político do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN).
Os responsáveis do PAN, constituído este mês, apresentaram hoje em Lisboa a sua declaração de princípios e objectivos, que servirá de base ao programa político do partido, a aprovar no primeiro congresso, que deverá decorrer dentro de três meses.
“O PAN é um partido de causas, que abraça as três grandes causas – humanitária, animal e ecológico-ambiental -, considerando-as inseparáveis”, anunciou Paulo Borges, da comissão coordenadora do partido, que assume como um dos objectivos a luta contra “todas as formas de discriminação e violência contra os animais, combatendo o especismo como parente próximo do esclavagismo, racismo, sexismo e classicismo”.
O novo partido quer consagrar na Constituição da República a “senciência dos animais (capacidade deste sentirem) e o seu direito à vida e ao bem-estar” e alterar o Código Civil, “onde são reduzidos ao estatuto de coisas”, e defende, para já, “uma efectiva aplicação da lei existente e a punição dos seus infratores”, propondo a criação de uma “unidade policial especificamente voltada para as questões animais”.
O partido sugere a realização de uma campanha educativa “no sentido da progressiva alteração dos hábitos alimentares dos portugueses, em particular o consumo de carne industrial”, alertando para o impacto negativo da pecuária intensiva sobre a saúde pública e o ambiente, nomeadamente na desflorestação e maior emissão de gases que contribuem para o aquecimento global.
“Os animais são as grandes vítimas dessa aberração chamada indústria da carne, mas também somos todos nós, porque os animais que nós comemos são animais doentes”, afirmou Paulo Borges, acrescentando que, segundo “estatísticas recentes feitas nos Estados Unidos”, todo “o investimento de energia, de trabalho, de riqueza, de cereais e água que é feito para alimentar o gado bastaria para alimentar diretamente 800 milhões de pessoas”.
A redução das taxas sobre os produtos de origem natural, o aumento das taxas sobre os produtos da agropecuária intensiva, a obrigatoriedade de existência de opções vegetarianas nas escolas, cantinas públicas e restaurantes são outras propostas do PAN.
O partido quer “redignificar os professores”, considerando que a educação deve ser “um dos investimentos estratégicos” do Estado, em detrimento de “gastos com a defesa, exército e obras públicas de fachada”.
Na saúde, o PAN propõe a criação de um serviço público “eficiente e acessível a todos, que inclua a possibilidade de opção por medicinas e terapias alternativas”, e a sua comparticipação pelo Estado, tal como os medicamentos naturais.
A proibição de “todos os espetáculos que causem sofrimento físico e psicológico aos animais” e a “abolição total da experimentação” em animais são outros princípios defendidos pelo PAN, que pretende ainda a existência de hospitais veterinários comparticipados, a reestruturação dos canis e gatis.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O link do poema

http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2010/12/poema.html

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

POEMA
No dia 5 de Março de 1872, Petr Hynek Preisner escreveu um poema em checo. 50 anos depois o famoso tradutor Thomas Roderick descobriu o poema de Preisner numa antologia alemã de poetas checos. O tradutor alemão do poema de Preisner foi Wilhelm Gottlieb von Bodenstedt. Roderick pegou na tradução alemã do poema de Preisner e verteu-o para a língua de Shakespeare. No dia 7 de Abril de 1924 o poeta espanhol Rafael Gonzalez incluiu o poema numa antologia de poemas de intervenção que então organizava. 70 anos passados, um jovem português, estudante de línguas, pegou num exemplar dessa antologia que se encontrava à venda na Feira da Ladra. Comprou a antologia e levou-a para casa. Leu o poema atribuído a Petr Hynek Preisner e verificou que se tratava de uma tradução espanhola de uma versão inglesa feita a partir de uma tradução alemã do original checo. Procurou o original por todo o lado, mas os seus esforços saíram gorados. Entrou em contacto com colegas checos, mas na República Checa ninguém conhecia Petr Hynek Preisner. Nunca tal nome circulara entre os académicos de Praga. O jovem estudante português fez a sua própria versão do poema, a partir da versão espanhola, mas resolveu tomar algumas liberdades e meteu-o a circular na Internet, anonimamente, sem qualquer referência a autor, origem ou proveniência. Nada de nada. Nem sequer referiu tratar-se de uma tradução. E há quem diga que foi o melhor que podia ter feito. Aquele poema já nada tinha que ver com o poema escrito a 5 de Março de 1872 por Petr Hynek Preisner.

Publicada por hmbf em 23:03

comentários:

benjamim machado disse...

e qual é o poema? poderias voltar a transcrevê-lo, ou enviar-mo por e-mail? gostaria de o ler.

abraço


8 de Dezembro de 2010 09:36

hmbf disse...

O poema, Benjamim, é o poema.




segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

minimal

quando deres por ti sem palavras
e encontrares do outro lado as palavras vazias
ou o silêncio determinante

quando todos os argumentos te enjeitarem
e o melhor de ti derrubado a cada voo
como tiro aos pratos

quando deres por ti sem um olhar
que te acolha
e os teus olhos se afundarem na sombra

quando tudo for previsível
e aceitares a derrota ao sobrenatural
- ninguém renasce das cinzas porque não há outra vida

quando ir à rua te for uma viagem questionável
ou qualquer outra em que seja preciso atravessar o tapete
- para quê viajar se tudo é previsível?

quando deres por ti sem histórias para contar
nem a força para isso
e te negarem as que anseias

quando deixares de ansiar
e tiveres entregado os pés ao chão
como máquina social

quando as mãos que te tocam
forem somente água do chuveiro sobre os ombros
e o pescoço fundido nos joelhos

quando deres por ti insuficiente
e desistires de ti mesmo
por não haver como mensurar a aprendizagem

quando tudo isto perfizer a soma dos dias
e deixares de ser bom
para que nada mais te corrompa

então aí
quando deres por ti
minimal, desinteressado,
terás aprendido a ser um homem

O mar em "Melincué". María Cecilia Muruaga (Camões e Companhia, 2010)

"O mar, infinito ou não, já não me enfurece. Antes, a contundência dessa imagem incompleta irritava-me um pouco, sobretudo se pensava na teia de conceitos exemplares que a civilização tece para os homens novos. O orgulho, a coragem, o empenho, a constância, a pureza, o mistério, a abundância e demais coisas que a moral me atribui, fazem-me sentir como um aluno à espera da decisão do professor em frente a estas águas enegrecidas pela areia. Dizem que se pode encontrar tudo no mar, que no centro escuro da água existe a imensidão. O meu avô comparava-o a uma grande vagina de onde tudo entra e tudo sai, e eu, que há muito deixei de ser um homem novo, compreendo agora que o ignorado tem para todos uma representação reiterativa, atávica. Os mesmos desenhos, os mesmos símbolos, as mesmas reflexões sobre os símbolos, o mesmo assombro. Sentado em frente ao mar, o cu frio de tanto suportar a areia húmida e dura, os olhos irritados pelo vento, não deixo de perguntar ao que viemos.
[...]
Já não importa, digo para comigo, a imensidão do mar, mas mesmo assim, não compreendo porque é que escolhemos estar à beira de algo a que não vemos o fim. Não tenho de me preocupar com nada, dizem, porque não se passa nada.
[...]
O mar, infinito ou não, não me surpreende. Penso que, como a vida, está repleto de restos em decomposição. Partículas pequenas, transformando-se em outras mais pequenas, e outras, e outras mais, até desaparecer. Tudo se desintegra e molha no mar, tudo se empapa com esse líquido escuro, e se transforma numa areia que depois se transmutará em nada. É fácil imaginar a morte, por isso os suicidas escolhem a água: porque afoga e desfaz."

eu, agora

"O acordar começa com o dizer existo e agora. Então, aquele que acordou mantém-se por instantes deitado, de olhar fixo no tecto e em si próprio, até ter reconhecido o eu e, a partir daí, deduzido eu existo, eu existo agora. O aqui vem a seguir e é pelo menos negativamente reconfortante; porque o aqui, esta manhã, está onde esperava encontrar-se; naquilo a que costuma chamar-se em casa.
Mas o agora não significa simplesmente agora. Agora é também uma recordação fria, um dia a mais do que ontem, um ano a mais do que o anterior. Todo o agora traz o rótulo da sua data, tornando obsoletos todos os agora passados, até que, mais cedo ou mais tarde... [...]"

"O indivíduo que estamos a observar lutará até cair. Não porque seja heróico. Não é capaz de imaginar uma alternativa.
Olhando cada vez mais fixamente para o espelho, vê muitos rostos contidos no seu - o rosto da criança, do rapaz, do jovem, do menos jovem -, todos ali estão, preservados como fósseis em camadas sobrepostas e, tal como os fósseis, mortos."

"Tem de cobrir a sua nudez. Tem de vestir-se, pois vai lá para fora, para o mundo dos outros. E esses outros terão de saber identificá-lo. O seu comportamento tem de ser aceitável aos olhos deles. [...]
Nessa altura, já está vestido: transformou-se num ele; [...]"

Um homem singular. Christopher Isherwood (Quetzal, 2010).

http://www.myspace.com/coboltmusic/music/songs/The-Fire-19638227


"Um homem singular". Christopher Isherwood (Quetzal, 2011)

"Mas as mulheres explicaram-lhes, logo desde o início e do modo mais inequívoco, que procriação e boémia não são para misturar. Para se procriar é necessário um emprego estável, uma hipoteca, crédito, seguros. E que ninguém se atreva a morrer até ter o futuro da família assegurado."

"O que pensam eles que estão a fazer aqui [na universidade]? Bem, existe a resposta oficial: a preparar-se para a vida, o que significa um emprego e segurança no seio da qual possam criar os filhos e ensiná-los a preparar-se para a vida, o que significa um emprego e segurança no seio da qual..."