domingo, 22 de maio de 2011

Porta-chaves para todos os tipos de fechaduras

13.05.2011

Píndaro e o destino


"A bênção não aparecerá aos homens sem esforço, e é um
deus que a cumpre hoje, seguramente. O que está destinado
não pode ser evitado, mas o tempo, num golpe inesperado,
há-de conceder-nos algumas coisas que contrariam todas as
expectativas. Outras, porém, não ainda."

Excerto de "XII. Para Midas de Agrigento, vencedor no concurso de flauta" (490 a.C.). In Odes. Píndaro (tradução de António de Castro Caeiro, Quetzal, 2010).

Em cima, a minha fotografia (13.05.2011) da imagem de Píndaro no Museu de Afrodísias.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O intérprete

Esta semana no Babelia
http://www.elpais.com/articulo/portada/Pietro/Citati/lector/infatigable/jovial/elpepuculbab/20110507elpbabpor_36/Tes

Pietro Citati, un lector infatigable y jovial

CARLOS GARCÍA GUAL 07/05/2011

Ensayo. La luz de la noche no trata de los grandes mitos, como dice el subtítulo añadido, sino de algunos de los más espléndidos relatos de la tradición literaria universal, desde los antiguos griegos a Leopardi, a través de famosos textos cristianos, orientales, árabes, hebreos, y crónicas de Indias. Pero, como Citati recuenta esas historias inmortales de tan largos ecos, podría acaso decirse que esa literatura mágica espejea y recrea fulgores míticos. Escribe acerca de dioses y héroes griegos, como Hermes y Ulises, glosa el amor de Cupido y Psique en la novela de Apuleyo (uno de sus autores predilectos), y evoca el retumbante Apocalipsis de San Juan, las apasionadas Confesiones de Agustín, y los intrincados relatos de China, como la gran novela El sueño del pabellón rojo, y el mágico entramado de Las mil y una noches, y episodios históricos tan trágicos como la conquista de México y de "la muerte de los dioses" (narrada por el Inca Garcilaso), y otros famosos textos y fantasías inolvidables. Ya había yo leído este libro (Seix Barral, 1997), pero he vuelto a leerlo en esta nueva y excelente traducción de Díaz de Atauri con tanto placer como años atrás. Porque en sus páginas recobramos la intensa fascinación de esas lecturas mágicas y las releemos en una prosa entusiasta y vibrante. Citati no sólo es un formidable lector, sino un gran relator que conjura los encantos de estos viajes con entusiasmo y agilidad. Sin la menor pedantería y sin lastre erudito invita a viajar por la mejor literatura, y nos contagia ese placer viajero. Invita a compartir su admiración, su alegría experta y jovial.

La luz de la noche. Los grandes mitos en la historia del mundo
Pietro Citati
Traducción de Juan Díaz de Atauri
Acantilado. Barcelona, 2011
475 páginas. 29 euros


Citati combina la agilidad narrativa del ensayista que escribe en periódicos con la mirada de un experto biógrafo
Si La luz de la noche enfoca ante todo textos fantásticos, en El mal absoluto se dedica a evocar a los autores de grandes novelas -sus biografías y rasgos personales- para así introducirnos en los laberintos imaginarios de la literatura del XIX. Siempre con cálida y sutil simpatía hacia sus personajes y sus destinos. Dibuja los escenarios con vivo colorido y analiza la psicología de sus héroes, sin eludir la reflexión filosófica, como ya insinúa el título del libro. (Apropiado sólo a ciertos capítulos). Por ejemplo, Citati relata, en ágil y emotivo resumen, Crimen y castigo y Los demonios, y luego, en contraste, lances de la vida patética de Dostoievski, y resalta su intensidad dramática, del autor y sus personajes, y en esa convergencia trágica (Raskolnikov implica en algo a Dostoievski, y viceversa) nos invita a una más vivaz comprensión de vida y textos.
Como es sabido, ciertos críticos literarios del pasado siglo postularon un enfoque de la literatura centrado en el análisis formal de los textos -sus estructuras y temas- augurando la "muerte del autor". Nada más contrario a esos formalismos que esta vivaz actitud crítica de Citati, que combina la agilidad narrativa del ensayista que escribe en periódicos con la mirada de un experto biógrafo muy atento al contexto histórico. Justo es recordar sus espléndidas biografías de novelistas modernos: Goethe, Tolstói, Proust, Katherine Mansfield y Kafka. (Sólo la de Kafka está traducida al español). En todas ellas hallamos el mismo ensamblaje vivaz de vidas y ficciones, es decir, de lo vivido y lo inventado, del mundo real y el imaginario. En ese juego se muestra la más auténtica y airosa hermenéutica literaria, la que explica cómo la literatura de verdad, la de los relatos más clásicos, enriquece nuestra sensibilidad y nuestro imaginario. Los ensayos de Citati van en esa dirección, y reiteran ese estilo fresco, amable, pictórico, entusiasta.
De modo ejemplar lo hace Ulises y la Odisea. El pensamiento iridiscente. (En italiano, La mente colorata). Admirable comentario del gran poema novelesco que es, sin duda, el más irisado y moderno de los textos míticos, con su versátil protagonista, el héroe taimado de muchas tretas, y sus múltiples y atractivas figuras secundarias. Sus lances y personajes quedan ahí retratados con seductora vivacidad que en otros libros tienen Robinson Crusoe, o los héroes de Manzoni, Dickens, Stevenson o Henry James.
Todo lector es un intérprete, pero hay lectores que por su talento narrativo y su fina y fervorosa sensibilidad -como Vargas Llosa o Claudio Magris- resultan ser guías excepcionales en nuestros viajes literarios, en la relectura de los grandes relatos. Uno de esos maestros de la lectura, infatigable y jovial, es Pietro Citati.

El mal absoluto. En el corazón de la novela del siglo XIX. Pietro Citati. Traducción de Pilar González Rodríguez. Galaxia Gutenberg. Barcelona, 2006. 528 páginas. 24,20 euros. Ulises y la Odisea. El pensamiento iridiscente. Pietro Citati. Traducción de José Luis Gil Aristu. Galaxia Gutenberg. Barcelona, 2008. 354 páginas. 35 euros.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por um espanto

Nas piores semanas leio um livro; nas melhores nenhum, quatro, cinco ou seis. Nunca li tanto como agora, desde o tempo das aventuras que a minha irmã me trazia da biblioteca à razão de duas por dia. Tenho os meus essenciais e leio tanto para reforçá-los como para os substituir, para não me esquecer deles noutro que procuro. Leio para não me esquecer.
Leio para não me esquecer na roca dos dias, para escapar à minha representação. Somo-nos; não somos. Leio por um espanto. Sublinho, anoto e publico contra o esquecimento. Às vezes escrevo como exercício de consolidação ou de dispersão.
Leio por ressentimento – é o que é – e se escrevo é por vingança. Cada livro abre e deixa um rasto de ignorância. Esta consciência é a única vitória da leitura e dura o tempo de também dela nos esquecermos.
Não sei se leio contra a abnegação, se por ela. Nem sequer sei se a leitura é abnegação já consumada, o esquecimento na sua rememoração. E rio-me no espanto de a cultura vir então a ser o conjunto de jogos / representações com que cada pessoa exercita a sua abnegação, quando não está a exercê-la. A abnegação transferida para aquilo a que cada um toma por seu. Como nos afectos, meu amor.

domingo, 17 de abril de 2011

o vaso e a flor

Ordenou um vaso à flor
que o sol fosse buscar
e a pobre, por amor,
foi subindo sem parar.
Tão depressa ela subia
que cedo chegou a altura,
quanto mais ela crescia,
maior era a curvatura.
Um vaso leve, inclinado
pelo peso duma flor sua,
teve um final azarado,
escaqueirou-se na rua.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Três delírios de uma cabrita seguidos de uma piada

1.
"A mente deveria apenas servir para analisar e viabilizar o que sentimos e não para, como acontece actualmente, aniquilar o que sentimos através da razão e dos medos."

2.
"Se notares, todas as pessoas que perdem um emprego ou é porque intimamente não gostavam dele ou porque o utilizavam para parecer que eram algo mais do que realmente São."

3.
"Quando a perda se consuma, fica um sentimento de revolta difícil de controlar.
Qual é a solução?
A de sempre. Aceitar. Aceitar que atraiste esse despedimento ou essa doença ou essa falência para prestares mais atenção às tuas escolhas. (...)"

E a piada:

"Este livro e este CD com o exercício substituem o curso?
Não, absolutamente. As pessoas deveriam ler este pequeno livro e fazer este exercício do Eu Superior antes do curso, para que aproveitassem melhor todos os recursos espirituais que ensinas no curso."

Alexandra Solnado in O Eu Superior e outras lições de vida (Pergaminho, 2011)

sábado, 2 de abril de 2011

Resumo do Resumo

É assim

Não interessa o que se diz, o que se escreve
não interessa. Não interessa como se diz
seja embora o como não de todo isento
de interesse. Não interessa a hora, o dia
o lugar. Não interessa onde nem a quem
nem para quando nem para quê
Não interessa porque se diz o que se diz
Muita coisa há que não interessa, aliás
quase nada interessa tratando-se de dizer
Não interessa quando se diz, mas interessa
menos ainda, isto é, nada mesmo
o que se diz ou o que tal queira dizer
Interessa o quê, então? Interessa o mar, o mar
em si mesmo e aquilo que acontece quando o mar
nos cai em cima, prevenida ou desprevenidamente
O mar, o mar sim interessa, mas
convenhamos, o que é que há a dizer
quando o mar nos afaga ou nos cai todo em cima
e nos submerge e afoga? Toda a água
todo o frio, todo o azul, todo o verde que há no mar
Como soi agora dizer-se ao iniciar uma qualquer
explanação, é assim: não há nada a dizer
e quando então alguma coisa se diz, o que é que isso
pode querer dizer ou que raio de interesse poderá ter?
Estão a ver a situação: o mar, toda a monstruosa
porção de água que o mar é, todas as cores
todo o frio e toda a espuma, toda a luz também
e escuridão que há no mar, tudo em cima
de nós. Assim de repente. Que interesse
tem dizer? E dizer o quê? E como?

Rui Caeiro in "Resumo - a poesia em 2010" (Assírio & Alvim, 2011).

Serenidade

"Senhor, conceda-nos a
serenidade para aceitar
as coisas que não podemos mudar,
a coragem para mudar as coisas
que conseguimos mudar,
assim como a sabedoria
para as distinguir."

Reinhold Niebuhr citado por Gabriel García de Oro in "Storytelling - a magia das palavras"  (GestãoPlus, 2011).

domingo, 27 de março de 2011

O eixo da noite

Noite, cortina, cabelo ondulante,
vidraça de mar,
poiso de mulher,
baloiço de agravo e de amanso em véspera de sangue.
A noite exemplar é uma arma apontada
ao queixo que roça
o gatilho, a mão,
o cano na boca
que um beijo fulmina
na rebentação
detrás da cortina indiferente.

O eixo da noite é uma janela suada que hidrata os meus olhos encostados.

Hoje o mar é só um fundo de mar
e os meus olhos são o fundo dos meus olhos.

No fundo da noite carreguei os meus olhos
com a água pesada deste mar e caminho
a rua deserta
até me afundar nas pedras.

Para acabar de vez com a poesia: Adília Lopes

No final de cada poema interrogar
e o que é que tu queres que eu te faça?

sábado, 19 de março de 2011

Ponto de focagem do oceano. Pia Tafdrup (Quetzal, 2004)

NO ESPELHO

No espelho
o olhar desaparece

às vezes desalojado
no meu próprio corpo

às vezes
angustiado
pela angústia
que rola
para lá e para cá como destroços
na rebentação

raspo com um dedo
o vidro
e oiço o mundo gritar.

*

MIL VEZES NASCIDO

[...]
71.
Se formos para o céu,
pergunta a criança,
o esqueleto também vai,
e todos os ossos que o cão comeu?

[...]
97.
Não procurem a caixa negra da poesia,
não tem respostas gravadas,
está cheia de perguntas e perguntas dos sonhos
ou de um silêncio onde é penoso entrar.

*

DEZ INVOCAÇÕES

[...]
Deus, meu Deus
estou deitado num banho de ácido
à espera de melhores tempos

[...]
Deus, meu Deus
sou um corpo
que a linguagem toca

"O valor da fábula"

"Esta é daquelas ideias que nada tinha de perigoso quando foi engendrada, mas que descambou num assunto imprevisivelmente demasiado polémico. À semelhança do que se tem feito com outras figuras históricas - Tutankhamon, Cristóvão Colombo, entre outros -, pretendia-se não só dignificar o túmulo do nosso primeiro rei, como analisar antropologicamente os seus restos mortais. Fundamentalmente, este estudo permitiria aceder a episódios inéditos da vida do fundador do nosso país. Daria igualmente lugar a uma confrontação sem precedentes com as fontes históricas e permitiria dar «uma cara» a um dos grandes mitos da nossa história. Um estudo não invasivo, antes pelo contrário, que permitiria limpar os restos ósseos do rei; uma análise segura, pois não deveria ser necessário sair da Igreja de Santa Cruz para a concretizar; um estudo rápido, que deveria ser realizado em dois dias, para logo colocar as ossadas de novo no túmulo, provocaram variados anseios que o inviabilizaram. [...] Conjecturou-se sobre a possibilidade de os resultados poderem vir a mexer na história de Portugal. [...] Ficámos sem saber se o rei era alto e robusto, se na Batalha de Badajoz fracturou severamente uma perna a ponto de não mais ter montado a cavalo, se a sua morte ocorreu de facto numa idade muito avançada, se padeceu de alguma doença que deixasse marcas nos ossos. Ficámos sem conhecer a cara do rei. Seria tudo isto perigoso?"

"O valor da fábula", Eugénia Cunha in Ideias Perigosas para Portugal (coord. João Caraça e Gustavo Cardoso, Tinta da China, 2010).

domingo, 13 de março de 2011

O deus que é transparência. António Ramos Rosa ("Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.")

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.
Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.
Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.
É como se procurasse alargar a mão dos deuses.
É como arder com a água na brancura ofuscante
da ressaca. E as palavras da casa se levantam
a janela a porta a cama e a cadeira.
São presenças espessas e nítidas no perfil.
Assim se forma um círculo com energia erguida
nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.
Maternas são as sombras em torno de um centro verde
que foi talvez um deus antigo que se esqueceu
e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

De "Acordes" (1989). In Antologia Poética (Dom Quixote, 2001).

Um poema interativo

A quem me pedir um poema interativo,
direi que neste exato instante o poema é vida própria, acidente,
mão de um qualquer deus a masturbar o leitor,
colhidos os órgãos na passadeira tensa da leitura.

A seguir, neste antro da moral,
vem o leitor interativo, que encorpa e masturba o poema.

A quem mo pedir,
direi que tudo e nada já estão ditos, e do tudo até ao nada.
Talvez falte cursar o outro caminho, a rua deserta,
desnascer
e renascer no hiato habitando a fuga.
 E é talvez neste talvez que se funde e fode o poema.

Pronto.
O poema está agora a borrifar-se nos olhos interativos do leitor.

terça-feira, 8 de março de 2011

Se o leitor escreve, tu escreves. Eduardo Prado Coelho

"(...) E depois: ler pode ser também escolher a posição certa para ler, partindo de todo um conjunto de protocolos que criaram a predisposição para a leitura. E agora, movido pelo entorpecimento do corpo, pelo formigueiro dos invisíveis estalidos musculares, mudar de posição, como quem muda de posição durante o sono, numa gestualidade não intencional, ou como quem muda de posição numa relação amorosa - porque as duas referências afloram na expressão «as posições do leitor», neste balanceamento entre o amor e o sono que se vai estabelecendo num indiferenciado tecido de intimidade cega.
Que significa ler? Etimologicamente, aquele que lê é aquele que escolhe, que vai colher na árvore dos textos os frutos escolhidos: ler é eleger, escolher as palavras que emergem do fio do discurso, dar-lhes o brilho e a cor que lhes convêm, e por isso todo o leitor é um eleitor, e não há leitura sem uma política de leitura, e não há verdadeira leitura sem uma democracia da leitura."

"E foi dessa leitura que cada um ganhou o seu estatuto de «intelectual», aquele que tem a capacidade de compreender, porque é capaz de 'inter-legere», isto é, de escolher naquilo que há para ler o que vale a pena ser lido, e escolher no atropelo dos textos o que vale a pena ser retido para dar aos textos o sentido que eles têm, ou melhor, esse sentido que eles podem ter, porque ler coloca-nos sempre no futuro de cada texto: o leitor escreve para que seja possível. E assim cresce a inteligência de cada um na inteligência de todos, colocando-se o intelectual no seu lugar de ser orgânico, elemento de um corpo que aumenta (o autor é aquele que aumenta o mundo e que nisso provisoriamente se autoriza) em sentidos e sentido, preso da paixão do inteligível, disponível para o processo da inteligência comum, e no entanto sempre privada, sempre no círculo da leitura, sempre na luz do «abat-jour», murmuradamente como diz o vice-cônsul no India Song: o «amor é uma inteligência de ti» - dessa mulher desconhecida que dança até de madrugada.
Havia um termo para «amor», termo antigo e amarelecido, que era «dilectio», e dizia-se «filho dilecto», isto é, filho escolhido, ou «o amigo dilecto», ou (menos, infinitamente menos) o «amante dilecto», e no entanto era sempre de amor que se tratava, entre aquele que diligentemente (palavra que começou por dizer escolha feita com consciência e empenho, e que depois se deixou ser outra coisa, e passou a designar o cuidado que se põe em fazer depressa uma coisa) escolhe um ser, ou objecto amado, e uma pequena zona do mundo, incisão ou cicatriz, que passa a ser o lugar, o corpo, o olhar, o gesto ou o ciciar da pele que se tornam, entre todos os possíveis, os que se dizem predilectos. Trata-se então de não neglicenciar o que se elegeu ou recolheu, e criar em torno desse amor a sua lenda, isto é, o seu corpo de palavras a serem lidas como um mito, lenda e legenda de um encontro, de uma imagem, de uma fotografia, o fotograma dilecto, a fotografia delida, a fotografia lida e relida na gramática da sua luz, no drama da sua memória, na elegância de um olhar silencioso, na repetição impossível do nome que a nomeia."

"E este acto de ler, na solidão das suas regras, é sempre algo que se empolga até ao outro pólo da comunicação: o incomunicável faz que se toquem as mãos de um «tu» face a um «eu». Nessa espécie de mistério interminável em que um «mundo» se identifica com um «tu», na medida em que cada «tu» é sempre o ponto de partida de um mundo a abrir-se a si mesmo. Daí essa identidade perplexa e problemática mediada pelo vazio de dois pontos: «abria-se o mundo: tu». Mas como aquele que lê é também aquele que escreve, na medida em que ler é começar a escrever, existe sempre um destinatário da leitura tal como existe, sussurrado ou explícito, um destinatário da escrita (secreto, cifrado, rasurado, arfante)."

"«Algures como no passado» - a leitura cria o seu próprio tempo, que é feito da distorção de todos os tempos conhecidos: «algures então, como no futuro». Mais: o livro passa a ser relógio, é ele o instrumento de medição do tempo, uma hora de leitura, vinte horas de leitura, vinte anos depois.
Mas o primeiro efeito do livro no corpo do leitor é um sentimento de vazio enquadrado: uma ausência que se avoluma, o medo que dá caminhar no vazio, a luz (branco no branco, à maneira de Malevitch), na escuridão absoluta de uma luz que cega, e ao mesmo tempo - traço fundamental - um efeito de enquadramento: toda a leitura põe num espaço um infinito, põe o mar sobre uma mesa, põe o céu sobre uma toalha, põe o jogo do mundo no rectângulo de um bilhar. Por isso, a cada passo se faz referência a fotografias, telas de pintura, imagens de cinema, janelas. O infinito, a explosão, a fenda vulcânica, só existem porque alguém coloca um traço à sua volta, um traço de palavras a lápis: «isto é um livro». Este livro a abrir é um livro, uma ilimitação íntima. Antes de ser sentido, ou dor, ou grito, ou murmúrio, ou mancha, a letra é um ardor, a letra arde, ardia - no espaço da página. Para além do ser e da aparência, «um simulacro». A leitura é uma máquina do mundo que se acelera pela paciência de uma desmedida lentidão: «o leitor ia virando as páginas que muito lentamente ondulavam.»"

"O segredo de cada texto é dizer-nos que o tu que nele se inventa é o tu que qualquer eu pode inventar, mas é também o único tu que esse texto autoriza: o tu que tu, definitiva e incompreensivelmente, tu és, e recomeçarás a ser, em todos os textos que eu escrever, ou ler. E por isso o que num texto se apaga é o que num texto se ilumina: o irrepetível de um vazio aceso. A rasura é a aparição. A sintaxe é o pórtico. A história narrada é a ponte destruída - bombardeada e intacta."

in O leitor escreve para que seja possível. Manuel Gusmão, Eduardo Prado Coelho e Duarte Belo (Assírio e Alvim, 2001).