sábado, 1 de janeiro de 2011
a opinião das estatísticas
Na opinião das estatísticas, este foi o link mais acedido nesta rua, e esta foi a música mais encontrada. Passaram pela rua treze desertores da Tailândia. Alguém chegou aqui à procura de "ovnis em Portugal". Eu não os vi, a rua continua deserta.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Arte e Instinto. Denis Dutton (Temas e Debates, 2010)
“Tenho utilizado a arte como uma forma de alcançar as emoções da vida e a ler nesta as ideias da vida. Tenho cortado blocos com uma navalha. Tombei dos grandiosos cumes da exaltação estética para os sopés aconchegantes da afável humanidade. É uma terra simpática. Ninguém deve ter vergonha por se sentir bem aqui. Apenas quem nunca esteve nas alturas poderá sentir algum desânimo nestes plácidos vales. E, àquele que tenha encontrado a felicidade nos calorosos campos e pitorescos recantos do romance, que não lhe ocorra poder descortinar os austeros e emocionantes êxtases daqueles que escalaram cumes frios e brancos da arte.” (Dutton, citando Clive Bell).
“Por causa da selecção sexual, associamos sempre às artes uma inabalável sensação de que estas são feitas por um indivíduo para deleite de outro indivíduo.”
“Nas suas meditações sobre o kitsch no livro A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera nota a essencial autoconsciência que o kitsch promove. O objecto kitsch, como explica Kundera, clama pela «segunda lágrima». A primeira lágrima é a que nós deitamos na presença de um acontecimento trágico, deplorável ou talvez belo. A segunda lágrima é deitada depois de reconhecermos a nossa própria natureza sensível, a nossa habilidade espantosa para sentir tanta pena, para entender um tal sofrimento ou beleza. Portanto, um gosto pelo kitsch é, por isso, essencialmente autocomplacente. […] O ponto de referência definitivo para o kitsch sou sempre eu: as minhas necessidades, os meus gostos, os meus sentimentos profundos, os meus interesses relevantes, a minha moralidade admirável. […]
O kitsch não nos mostra nada genuinamente novo, não muda nada na nossa alma maravilhosa e brilhante; pelo contrário, congratula-nos por sermos, exactamente, a pessoa requintada que já somos.”
“Por causa da selecção sexual, associamos sempre às artes uma inabalável sensação de que estas são feitas por um indivíduo para deleite de outro indivíduo.”
“Nas suas meditações sobre o kitsch no livro A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera nota a essencial autoconsciência que o kitsch promove. O objecto kitsch, como explica Kundera, clama pela «segunda lágrima». A primeira lágrima é a que nós deitamos na presença de um acontecimento trágico, deplorável ou talvez belo. A segunda lágrima é deitada depois de reconhecermos a nossa própria natureza sensível, a nossa habilidade espantosa para sentir tanta pena, para entender um tal sofrimento ou beleza. Portanto, um gosto pelo kitsch é, por isso, essencialmente autocomplacente. […] O ponto de referência definitivo para o kitsch sou sempre eu: as minhas necessidades, os meus gostos, os meus sentimentos profundos, os meus interesses relevantes, a minha moralidade admirável. […]
O kitsch não nos mostra nada genuinamente novo, não muda nada na nossa alma maravilhosa e brilhante; pelo contrário, congratula-nos por sermos, exactamente, a pessoa requintada que já somos.”
Guia de Conceitos Básicos. Nuno Júdice (Dom Quixote, 2010)
UMA REFLEXÃO SOBRE A BELEZA ETERNA,
INTERROMPIDA PELA VISÃO DO EFÉMERO
A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milénios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem um limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa - alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho leve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.
ESBOÇO DE UMA RELAÇÃO ENTRE O SER
E A NATUREZA
Os que vivem devagar não olham para trás,
nem sabem o que vem à sua frente. Sentam-se
na vida que apanham quando o tempo passa
por eles, e tiram-na dos ramos pesados
como se fosse o fruto que vão abrir
com o cansaço dos seus dedos.
Os que vivem devagar desenham
os seus passos no chão para onde não olham,
quando atravessam o instante, e sabem que
o seu movimento é como o das árvores
que o vento agita, e nunca saem
do lugar onde têm a sua raiz.
Os que vivem devagar têm a pressa
da folha que cai, no outono, e flutua
com o último brilho de um viço
estival, antes de pousar onde a terra
preparou o seu leito, e aí adormecer
na doce corrupção da eternidade.
HAMLET E OFÉLIA
Não é todos os dias que hamlet apanha
o táxi para elsenor, onde ofélia o espera com uns ovos
estrelados à pressa para ele comer. No táxi,
hamlet ouve o taxista perguntar-lhe qual
o destino, e ele indeciso responde-lhe
que é o caminho mais curto para ser. Mas o taxista
não dá com ele, entre ser e não ser, e enquanto
os ovos ficam frios, hamlet pede ao taxista
que fale com o polónio, que deve saber se já há uma
auto-estrada para a dinamarca. A verdade é
que não, só se ele quiser apanhar o ferry-boat
para elsenor, onde ofélia deitou os ovos para
o lixo e espera que ele se contente com um
macdonald´s. Mas hamlet já deixou o táxi,
depois de pagar o que tinha a pagar, e atravessa
o jardim sem saber o que fazer, depois de ofélia
lhe ter ligado para o telemóvel a perguntar qual o rio
mais próximo, para fazer o que tem de fazer.
INTERROMPIDA PELA VISÃO DO EFÉMERO
A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milénios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem um limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa - alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho leve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.
ESBOÇO DE UMA RELAÇÃO ENTRE O SER
E A NATUREZA
Os que vivem devagar não olham para trás,
nem sabem o que vem à sua frente. Sentam-se
na vida que apanham quando o tempo passa
por eles, e tiram-na dos ramos pesados
como se fosse o fruto que vão abrir
com o cansaço dos seus dedos.
Os que vivem devagar desenham
os seus passos no chão para onde não olham,
quando atravessam o instante, e sabem que
o seu movimento é como o das árvores
que o vento agita, e nunca saem
do lugar onde têm a sua raiz.
Os que vivem devagar têm a pressa
da folha que cai, no outono, e flutua
com o último brilho de um viço
estival, antes de pousar onde a terra
preparou o seu leito, e aí adormecer
na doce corrupção da eternidade.
HAMLET E OFÉLIA
Não é todos os dias que hamlet apanha
o táxi para elsenor, onde ofélia o espera com uns ovos
estrelados à pressa para ele comer. No táxi,
hamlet ouve o taxista perguntar-lhe qual
o destino, e ele indeciso responde-lhe
que é o caminho mais curto para ser. Mas o taxista
não dá com ele, entre ser e não ser, e enquanto
os ovos ficam frios, hamlet pede ao taxista
que fale com o polónio, que deve saber se já há uma
auto-estrada para a dinamarca. A verdade é
que não, só se ele quiser apanhar o ferry-boat
para elsenor, onde ofélia deitou os ovos para
o lixo e espera que ele se contente com um
macdonald´s. Mas hamlet já deixou o táxi,
depois de pagar o que tinha a pagar, e atravessa
o jardim sem saber o que fazer, depois de ofélia
lhe ter ligado para o telemóvel a perguntar qual o rio
mais próximo, para fazer o que tem de fazer.
Casa da Misericórdia. Joan Margarit (Ovni, 2009)
PROZAC
A lua é o gelo no copo de sombra
que a vida me oferece. Que história
não tenta negar o seu tenebroso epílogo?
Mas o monstro sou eu, e não outro alguém
a quem, para me salvar, posso matar.
A vida é justamente este desastre.
Como extirpar a culpa das pedras?
Como deter a dor dentro de um túnel?
Como ouvir se, tão longe dentro da noite,
está a chorar a nossa filha morta?
Os antidepressivos são pesticidas.
E o final dos contos é sempre falso,
para que as crianças não se suicidem.
A lua é o gelo no copo de sombra
que a vida me oferece. Que história
não tenta negar o seu tenebroso epílogo?
Mas o monstro sou eu, e não outro alguém
a quem, para me salvar, posso matar.
A vida é justamente este desastre.
Como extirpar a culpa das pedras?
Como deter a dor dentro de um túnel?
Como ouvir se, tão longe dentro da noite,
está a chorar a nossa filha morta?
Os antidepressivos são pesticidas.
E o final dos contos é sempre falso,
para que as crianças não se suicidem.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Albas. Sebastião Alba (Quasi, 2003)
"Do fígado, não há notícias: fiz um voto - nunca mais olhar para um jornal, um televisor ou um anúncio luminoso, mesmo que não tenha para onde olhar. Afinal, era isso que me dava cabo dele, do fígado. Mas não achas que o vinho deve ter, também, contribuído?"
*
"O meu velhote ao ver um programa de televisão dizia-me: "Já reparaste que não sabemos lá muito bem onde pôr as mãos, desde que as levantámos do chão? Ou andamos com elas atrás das costas ou ao volante.""
*
"Houve uma época em que fui tentado a confundir a prole de intelectuais que expunha ou dissecava determinado corpo de doutrina, com o seu progenitor: via num darwinista, Darwin; num marxista, Marx, e assim por diante. Sei hoje que isso me era tão nefasto como ver, em cada uma das mulheres que amei, a mulher do meu sonho."
*
"Os homens olham para as mulheres como se as devorassem - não pensam noutra coisa. As mulheres passam de olhos abstractos - não pensam noutra coisa (ainda que não olhem para ninguém excepto umas para as outras duma maneira gélida, quase cruel). Vestem-se todos para se exibir uns diante dos outros.
A sua cosmogonia é o jornal "A bola" e a "telenovela brasileira". Se uma guerra nuclear varrer sociedades destas da face da terra, nada se perderá. A vida renasce, renova-se."
*
"Uma fome de mulher quase patética começa a devorar-me... Mas se o preço é a integração numa sociedade que me parece um certame, prefiro morrer à míngua."
*
"«Por que amas, ainda, um povo submetido e triste que nada te pode oferecer?...»
Aquele que é talvez o mais vigoroso pensador do séc. XIX viu, em Milão, um cocheiro a chicotear o cavalo. E abraçou-se ao pescoço do pobre animal protegendo-o. Era Nietzsche. Quem sou eu para não me comover?
Às vezes sinto que as pessoas vão tão infelizes que me apetece fazer-lhes uma festa, na rua, tocar-lhes no ombro. Mas se for uma mulher, diz logo: "parece que é parvo"! E, se for um homem: "ó amigo, tire a mão de cima!" Já viste a minha vida, Neide? Merda."
*
"Queridas filhas:
Não creio nos filósofos, mas cativou-me sempre a sua audácia de pensar.
É bonito, leiam-nos.
Quanto aos poetas (o pp. foi um deles) sorriam-lhes de longe.
Mas atenção aos grandes músicos, à sua estranha perfeição, à nostalgia que nos invade ao escutá-los.
Quando encontrarem um, não o deixem escapar.
Poderia pensar-se que nos trazem (os músicos) notícias de Deus.
É mais: como Deus não existe, eles têm de forjá-las."
*
"Pai:
Estou farto de Alain Prost;
dos "jovens empresários";
dos "70x7";
de Nossa Senhora de Fátima (e da do Sameiro);
da Volta a Portugal em Bicicleta;
do filósofo paraclético Agostinho da Silva e daquela reafirmada intenção do Mário Soares (aqui tenho de ser mais extenso, é o Presidente da República), já tão cansado da Magistratura como a Teresa Batista, do Jorge Amado, o estava da guerra: "queria ter tempo para escrever ainda alguns livros". Que lata!
Mas sobretudo, estou farto de si e de mim (e do Júlio Isidro; e do Carlos Cruz). Ora sabe de que é que eu nunca me fartei? Dessa página do Nietzsche:
«Será preciso demonstrar até que ponto tudo o que é consciente permanece superficial, até que ponto a acção difere da imagem da acção, como sabemos pouco daquilo que precede a acção (...); de que modo os pensamentos, as imagens, as palavras não passam de símbolos dos pensamentos (...); em que medida o elogio e a censura permanecem superficiais; como a nossa vida consciente se passa essencialmente num mundo da nossa invenção e da nossa imaginação (...) e como a coesão humana assenta sobre a transmissão destas invenções - enquanto, no fundo, a coesão verdadeira (pela reprodução) prossegue o seu caminho desconhecido.» Sabe como eu gosto de Nietzsche, (gostamos) de pensar com ele, o que não seria capaz de fazer sozinho.
Trago, desde os vinte e três anos, a ilustração tatuada, no braço esquerdo, de um aforismo dele:
«Quando se ama o abismo é preciso ter asas.»
Nunca pensei que entre a teoria e a prática (desculpe o estilo académico) houvesse um fosso intransponível: o que nós continuamos a cavar!
É admirável como certas pessoas suportam o fardo que levam sem o alijar."
*
"O meu velhote ao ver um programa de televisão dizia-me: "Já reparaste que não sabemos lá muito bem onde pôr as mãos, desde que as levantámos do chão? Ou andamos com elas atrás das costas ou ao volante.""
*
"Houve uma época em que fui tentado a confundir a prole de intelectuais que expunha ou dissecava determinado corpo de doutrina, com o seu progenitor: via num darwinista, Darwin; num marxista, Marx, e assim por diante. Sei hoje que isso me era tão nefasto como ver, em cada uma das mulheres que amei, a mulher do meu sonho."
*
"Os homens olham para as mulheres como se as devorassem - não pensam noutra coisa. As mulheres passam de olhos abstractos - não pensam noutra coisa (ainda que não olhem para ninguém excepto umas para as outras duma maneira gélida, quase cruel). Vestem-se todos para se exibir uns diante dos outros.
A sua cosmogonia é o jornal "A bola" e a "telenovela brasileira". Se uma guerra nuclear varrer sociedades destas da face da terra, nada se perderá. A vida renasce, renova-se."
*
"Uma fome de mulher quase patética começa a devorar-me... Mas se o preço é a integração numa sociedade que me parece um certame, prefiro morrer à míngua."
*
"«Por que amas, ainda, um povo submetido e triste que nada te pode oferecer?...»
Aquele que é talvez o mais vigoroso pensador do séc. XIX viu, em Milão, um cocheiro a chicotear o cavalo. E abraçou-se ao pescoço do pobre animal protegendo-o. Era Nietzsche. Quem sou eu para não me comover?
Às vezes sinto que as pessoas vão tão infelizes que me apetece fazer-lhes uma festa, na rua, tocar-lhes no ombro. Mas se for uma mulher, diz logo: "parece que é parvo"! E, se for um homem: "ó amigo, tire a mão de cima!" Já viste a minha vida, Neide? Merda."
*
"Queridas filhas:
Não creio nos filósofos, mas cativou-me sempre a sua audácia de pensar.
É bonito, leiam-nos.
Quanto aos poetas (o pp. foi um deles) sorriam-lhes de longe.
Mas atenção aos grandes músicos, à sua estranha perfeição, à nostalgia que nos invade ao escutá-los.
Quando encontrarem um, não o deixem escapar.
Poderia pensar-se que nos trazem (os músicos) notícias de Deus.
É mais: como Deus não existe, eles têm de forjá-las."
*
"Pai:
Estou farto de Alain Prost;
dos "jovens empresários";
dos "70x7";
de Nossa Senhora de Fátima (e da do Sameiro);
da Volta a Portugal em Bicicleta;
do filósofo paraclético Agostinho da Silva e daquela reafirmada intenção do Mário Soares (aqui tenho de ser mais extenso, é o Presidente da República), já tão cansado da Magistratura como a Teresa Batista, do Jorge Amado, o estava da guerra: "queria ter tempo para escrever ainda alguns livros". Que lata!
Mas sobretudo, estou farto de si e de mim (e do Júlio Isidro; e do Carlos Cruz). Ora sabe de que é que eu nunca me fartei? Dessa página do Nietzsche:
«Será preciso demonstrar até que ponto tudo o que é consciente permanece superficial, até que ponto a acção difere da imagem da acção, como sabemos pouco daquilo que precede a acção (...); de que modo os pensamentos, as imagens, as palavras não passam de símbolos dos pensamentos (...); em que medida o elogio e a censura permanecem superficiais; como a nossa vida consciente se passa essencialmente num mundo da nossa invenção e da nossa imaginação (...) e como a coesão humana assenta sobre a transmissão destas invenções - enquanto, no fundo, a coesão verdadeira (pela reprodução) prossegue o seu caminho desconhecido.» Sabe como eu gosto de Nietzsche, (gostamos) de pensar com ele, o que não seria capaz de fazer sozinho.
Trago, desde os vinte e três anos, a ilustração tatuada, no braço esquerdo, de um aforismo dele:
«Quando se ama o abismo é preciso ter asas.»
Nunca pensei que entre a teoria e a prática (desculpe o estilo académico) houvesse um fosso intransponível: o que nós continuamos a cavar!
É admirável como certas pessoas suportam o fardo que levam sem o alijar."
Albas. Sebastião Alba (Edições Quasi, 2003)
"Arrosta com a solidão; não a trajes, não exibas. É uma palavra gasta pelo uso que lhe dão as mulheres sós, ou seja, privadas de homem, e vice-versa. Sem fala, a tua é a de alguém diante da sua morte. Pensas, ao adormecer: "Acordarei?" Os dias são povoados mas exteriores; é apenas essa exterioridade que vives e compartilhas.
Não te deixes invadir por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece, ou sucumbes."
Não te deixes invadir por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece, ou sucumbes."
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin (Dir.), INSA, 2001
"Néanmoins, une partie de la démarche de conception ne releve pás de la science mais de l´art. […] Il n´est pás sûr que la composante artistique de la conception aille en diminuant avec la formalisation progessive de la démarche de conception rendue possible par le développement de la science de la conception. En effet, la complexité croissante dés problèmes à résoudre, la nécessaire prise en compte de l´évolution des usages, la mise en oeuvre de conceptions participatives obligent les concepteurs à développer de nouvelles pratiques qui mobilisent à la fois leur capacite de scientifique et d´homme de l´art.
[…] les artefacts sont dês médiateurs entre la pensée et le comportement. En soulignant que ces théories définissent les artefacts en y incluant les instruments, les machines, mais aussi les signes, le langage, elle nous permettent ainsi de mieux comprendre comment les processus mentaux des humains sont profondément influencés par les moyens socio-culturels qui les médiatisent.”
Jacques Perrin. La conception entre science et art
“Bertolt Brecht dans ses écrits théoriques analyse le Théâtre de l´ère scientifique en montrant qu´il doit faire passer le spectateur de l´expérience naturelle de ses automatisms perceptifs à une experience réfléchie. Le theatre rompt ainsi avec cette «image naïve de la réalité sensible» dont parlait Paul Valéry, pour proposer une conception et une representation autres du monde.
Brecht se propose donc, dans son travail et dans ses oeuvres, d´abandonner le «theatre de carrousel» pour donner à voir un «theatre de planetarium». Dans le premier cas, c´est la formule habituelle des spectacles bourgeois, le théâtre de l´expérience vécue du spectateur, qui tourne en rond, car il ne provoque que des faux changements dans la perception de notre monde. Je verse ma proper psychologie dans le personnage: c´est moi que je vois en l´autre, je n´apprends rien de neuf sur moi ni sur le monde. Dans le théâtre que Brecht veut inventer, le spectateur, comme dans un planétarium, reste à sa place mais le ciel bouge: il s´agit d´un vrai mouvement qui libère le regard critique et provoque «l´effroi nécessaire à la connaissance.» C´est aussi un théâtre de l´action et du geste qui est posé souvent comme une énigme, parce qu´il n´est pas fixé par une substance psychologique. Il vient d´un monde en mouvement, il interrompt l´action et suscite une volonté d´analyse.
Le théâtre est alors, pour le spectateur mais plus encore pour ses acteurs, un artefact au sens où le définit Simon: «interface entre un projet et un contexte».”
“Nous interrogerons la pratique théâtrale (et non le produit/spectacle pour le spectateur) comme processus de conception/creation d´une telle representation.. Nous avons, à cet égarde, à être prudents sur l´emploi du terme acteur dont l´usage se développe de manière proliférante et omniprésente dans tous les champs des sciences sociales. Est acteur au sens contemporain et francophone toute personne engagée dans une action individuelle ou interactive d´initiatives ou de décision.
Cette métaphore théâtrale nous conduit donc, sans snobisme anglophone particulier, à préférer le terme de perfomer pour les personnes réellement engagées dans une représentation sur un plateau de théâtre, comme on entend aussi performing arts pour les spectacles vivants.”
“C´est l´époque romantique, sous l´influence de l´allemand, qui va transporter le terme d´art dans le domaine de l´esthétique et distinguer l´artiste de l´artisan. Quant au terme technique il garde de son sens originel: «construire, fabriquer» la signification contemporaine de «manière précise de procéder en quelque domaine que ce soit».”
“Dans la pratique théâtrale aussi on sait bien que la «présence» d´un comédien par example, la force de l´incarnation qu´il évoque sur scène, est extrêmement difficile à definir et qu´il n´y a pás de procédures rigoureuses de formation. «Je pense qu´on doit definir la présence d´une manière extrêmement pragmatique. Qu´est-ce que la présence? C´est ce qui agit sur le spectateur. A partir de là on peut se demander s´il existe une technique qui permette à n´importe quel acteur d´agir sur les spectateurs.» [Eugenio Barba]”
“On peut rapprocher cette remarque de la définition que donnait L. Pirandello: “La vie a une forme, mais l´art est une forme» et dans le domaine de conception cette observation d´un enseignant-chercheur formant les étudiants à la conception: «Dans un premier temps les jeunes n´expriment qu´eux-mêmes, c´est-à-dire des idées banales, recues de-ci, de-là. Soit sous forme de schémas, soit sous forme de calculs: ils reproduisent les stéréotypes. C´est un des points sur lesquels on bute le plus: se dégager des stereotypes. Par contre donner une certaine forme et aller vers une structure… généraliser une expression, à ce moment-là ça deviant réellement une culture.» [D. Play]”
“Le performer est donc en quelque sorte un oxymora [figure de style qui rassemble deux contraires], où coexistent artificialité et vitalité, où le corps est à la fois chair à vif et hiéroglyphe. Il est dans l´action et il produit des images. C´est bien du spectateur de donner un sens à ce qu´il voit, entend, ressent.“
“L´une des définitions de la conception, du moins en termes de résolution de problèmes suggère que: «concevoir, c´est accomplir une réduction progressive d´un espace de recherche initialement très large: un moyen efficace de réduire cet espace est alors de formuler, de propager et de satisfaire les contraintes liées au problème» [Perrin, 2001].“
“Un artefact est-il inventé avant d´être constitué en objet technologique ou est-il inventé parce qu´on (un groupe social) le constitue comme tel? Un ouvrage récent (Bijker) propose un réponse radicale: c´est le fruit de la nécessaire rencontre d´un cadre technologique propice, d´un inventeur et d´un groupe social approprié.“
“En effet on a pu considerer que lorsque la finalité se distingue de l´objet, apparaît l´activité de conception; qui est d´abord un processus d´abstraction; puis on revient vers un concret: l´artifice à construire. Le caractère essentiel de l´artifice est qu´il vient après l´idée (c´est la métaphore de l´abeille et de l´architecte): «Ce qui distingue dès abord le plus mauvais des architectes de l´abeille la plus experte, c´est qu´il a construit la cellule dans sa tête avant de la construire dans la ruche.» (K. Marx, souvent cité par Le Moigne).
D´où un problème pour l´oeuvre artistique, qui est plus dans le sensible que dans le conceptual (sauf recherches formelles) et l´«art conceptuel». Cependant au théâtre on pourrait apporter un correctif: il y a déjà un texte (le plus souvent) préalable c´est-à-dire un faisceau de sens, un universe en quelque sorte déjà conceptualisé.”
“Clément Rosset (1995) quant à lui, montre que tous les artefacts «manifestent une non-nécessité qu´on peut appeller artífice ou hasard». Ils seront les résultats réussis de projets, d´intentions, d´expériences, impensables a priori. «Il suffit de concevoir le hasard comme générateur d´innombrables tentatives, et l´existence comme le résultat de certaines de ces tentatives.»
D´où l´audacieuse équation: ÊTRE = HASARD + SUCCÈS.”
“Dans les sociétés contemporaines en crise, on aperçoit que le modèle du travail, présenté uniquement comme transformation des choses et non des personnes, touche ses limites. On voit aussi que l´innovation technologique n´entraîne pas forcément le progrès économique qui à son tour n´est pas le vecteur assure d´un mieux-être social, politique, mental ou moral. On en verrait à l´heure actuelle plutôt des contreexemples nombreux et dramatiques. Peut-être faut-il alors chercher ailleurs un développement qui ne se confondrait pas avec la croissance cumulative des objets.
Chez nos étudiants, la pratique du théâtre entraîne des processus de transformation réciproque d´expérience en connaissance, des métamorphoses personnelles parfois spectaculaires. Elle leur apprend un rapport à une oeuvre, à une entreprise commune et partagée, à travers laquelle la transformation des choses ou des données n´a de sens qu´en s´accompagnant de la transformation de soi-même.
Ce sont, au sens propre, des prises de conscience.”
Françoise Odin. “Des ingénieurs sur un plateau“.
[…] les artefacts sont dês médiateurs entre la pensée et le comportement. En soulignant que ces théories définissent les artefacts en y incluant les instruments, les machines, mais aussi les signes, le langage, elle nous permettent ainsi de mieux comprendre comment les processus mentaux des humains sont profondément influencés par les moyens socio-culturels qui les médiatisent.”
Jacques Perrin. La conception entre science et art
“Bertolt Brecht dans ses écrits théoriques analyse le Théâtre de l´ère scientifique en montrant qu´il doit faire passer le spectateur de l´expérience naturelle de ses automatisms perceptifs à une experience réfléchie. Le theatre rompt ainsi avec cette «image naïve de la réalité sensible» dont parlait Paul Valéry, pour proposer une conception et une representation autres du monde.
Brecht se propose donc, dans son travail et dans ses oeuvres, d´abandonner le «theatre de carrousel» pour donner à voir un «theatre de planetarium». Dans le premier cas, c´est la formule habituelle des spectacles bourgeois, le théâtre de l´expérience vécue du spectateur, qui tourne en rond, car il ne provoque que des faux changements dans la perception de notre monde. Je verse ma proper psychologie dans le personnage: c´est moi que je vois en l´autre, je n´apprends rien de neuf sur moi ni sur le monde. Dans le théâtre que Brecht veut inventer, le spectateur, comme dans un planétarium, reste à sa place mais le ciel bouge: il s´agit d´un vrai mouvement qui libère le regard critique et provoque «l´effroi nécessaire à la connaissance.» C´est aussi un théâtre de l´action et du geste qui est posé souvent comme une énigme, parce qu´il n´est pas fixé par une substance psychologique. Il vient d´un monde en mouvement, il interrompt l´action et suscite une volonté d´analyse.
Le théâtre est alors, pour le spectateur mais plus encore pour ses acteurs, un artefact au sens où le définit Simon: «interface entre un projet et un contexte».”
“Nous interrogerons la pratique théâtrale (et non le produit/spectacle pour le spectateur) comme processus de conception/creation d´une telle representation.. Nous avons, à cet égarde, à être prudents sur l´emploi du terme acteur dont l´usage se développe de manière proliférante et omniprésente dans tous les champs des sciences sociales. Est acteur au sens contemporain et francophone toute personne engagée dans une action individuelle ou interactive d´initiatives ou de décision.
Cette métaphore théâtrale nous conduit donc, sans snobisme anglophone particulier, à préférer le terme de perfomer pour les personnes réellement engagées dans une représentation sur un plateau de théâtre, comme on entend aussi performing arts pour les spectacles vivants.”
“C´est l´époque romantique, sous l´influence de l´allemand, qui va transporter le terme d´art dans le domaine de l´esthétique et distinguer l´artiste de l´artisan. Quant au terme technique il garde de son sens originel: «construire, fabriquer» la signification contemporaine de «manière précise de procéder en quelque domaine que ce soit».”
“Dans la pratique théâtrale aussi on sait bien que la «présence» d´un comédien par example, la force de l´incarnation qu´il évoque sur scène, est extrêmement difficile à definir et qu´il n´y a pás de procédures rigoureuses de formation. «Je pense qu´on doit definir la présence d´une manière extrêmement pragmatique. Qu´est-ce que la présence? C´est ce qui agit sur le spectateur. A partir de là on peut se demander s´il existe une technique qui permette à n´importe quel acteur d´agir sur les spectateurs.» [Eugenio Barba]”
“On peut rapprocher cette remarque de la définition que donnait L. Pirandello: “La vie a une forme, mais l´art est une forme» et dans le domaine de conception cette observation d´un enseignant-chercheur formant les étudiants à la conception: «Dans un premier temps les jeunes n´expriment qu´eux-mêmes, c´est-à-dire des idées banales, recues de-ci, de-là. Soit sous forme de schémas, soit sous forme de calculs: ils reproduisent les stéréotypes. C´est un des points sur lesquels on bute le plus: se dégager des stereotypes. Par contre donner une certaine forme et aller vers une structure… généraliser une expression, à ce moment-là ça deviant réellement une culture.» [D. Play]”
“Le performer est donc en quelque sorte un oxymora [figure de style qui rassemble deux contraires], où coexistent artificialité et vitalité, où le corps est à la fois chair à vif et hiéroglyphe. Il est dans l´action et il produit des images. C´est bien du spectateur de donner un sens à ce qu´il voit, entend, ressent.“
“L´une des définitions de la conception, du moins en termes de résolution de problèmes suggère que: «concevoir, c´est accomplir une réduction progressive d´un espace de recherche initialement très large: un moyen efficace de réduire cet espace est alors de formuler, de propager et de satisfaire les contraintes liées au problème» [Perrin, 2001].“
“Un artefact est-il inventé avant d´être constitué en objet technologique ou est-il inventé parce qu´on (un groupe social) le constitue comme tel? Un ouvrage récent (Bijker) propose un réponse radicale: c´est le fruit de la nécessaire rencontre d´un cadre technologique propice, d´un inventeur et d´un groupe social approprié.“
“En effet on a pu considerer que lorsque la finalité se distingue de l´objet, apparaît l´activité de conception; qui est d´abord un processus d´abstraction; puis on revient vers un concret: l´artifice à construire. Le caractère essentiel de l´artifice est qu´il vient après l´idée (c´est la métaphore de l´abeille et de l´architecte): «Ce qui distingue dès abord le plus mauvais des architectes de l´abeille la plus experte, c´est qu´il a construit la cellule dans sa tête avant de la construire dans la ruche.» (K. Marx, souvent cité par Le Moigne).
D´où un problème pour l´oeuvre artistique, qui est plus dans le sensible que dans le conceptual (sauf recherches formelles) et l´«art conceptuel». Cependant au théâtre on pourrait apporter un correctif: il y a déjà un texte (le plus souvent) préalable c´est-à-dire un faisceau de sens, un universe en quelque sorte déjà conceptualisé.”
“Clément Rosset (1995) quant à lui, montre que tous les artefacts «manifestent une non-nécessité qu´on peut appeller artífice ou hasard». Ils seront les résultats réussis de projets, d´intentions, d´expériences, impensables a priori. «Il suffit de concevoir le hasard comme générateur d´innombrables tentatives, et l´existence comme le résultat de certaines de ces tentatives.»
D´où l´audacieuse équation: ÊTRE = HASARD + SUCCÈS.”
“Dans les sociétés contemporaines en crise, on aperçoit que le modèle du travail, présenté uniquement comme transformation des choses et non des personnes, touche ses limites. On voit aussi que l´innovation technologique n´entraîne pas forcément le progrès économique qui à son tour n´est pas le vecteur assure d´un mieux-être social, politique, mental ou moral. On en verrait à l´heure actuelle plutôt des contreexemples nombreux et dramatiques. Peut-être faut-il alors chercher ailleurs un développement qui ne se confondrait pas avec la croissance cumulative des objets.
Chez nos étudiants, la pratique du théâtre entraîne des processus de transformation réciproque d´expérience en connaissance, des métamorphoses personnelles parfois spectaculaires. Elle leur apprend un rapport à une oeuvre, à une entreprise commune et partagée, à travers laquelle la transformation des choses ou des données n´a de sens qu´en s´accompagnant de la transformation de soi-même.
Ce sont, au sens propre, des prises de conscience.”
Françoise Odin. “Des ingénieurs sur un plateau“.
domingo, 28 de novembro de 2010
os meninos de ouro 6
"Segundo o portal Agência Financeira, em 2006, Cavaco Silva tinha três reformas: 2679 euros do Banco de Portugal, 5007 euros da Caixa Geral de Aposentações, pelo desempenho de funções de professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova, e 2876 referente à subvenção vitalícia pelo exercício do cargo de primeiro-ministro (esta pensão não é acumulável com as funções de Presidente da República). Em 6 de Junho de 2010, a Presidência da República, através de uma nota informativa, vem confirmar que Cavaco Silva "recebe duas pensões de reforma em resultado, exclusivamente, dos descontos que, ao longo da sua vida profissional, efectuou para a Caixa Geral de Aposentações, como professor, e para o Fundo de Pensões do Banco de Portugal, como funcionário do Banco."
A subvenção mensal vitalícia foi consagrada na Lei nº4/85, de 9 de Abril (alterada pela Leio nº26/95), que estabeleceu o estatuto remuneratório dos titulares de cargos políticos. Esta situação permite que antigos políticos acumulem a subvenção mensal vitalícia com outra pensão de reforma a que têm direito após o exercício de uma actividade profissional. Na prática recebem duas pensões por mês. A subvenção mensal vitalícia foi extinta pelo primeiro governo de José Sócrates (Lei nº52-A/2005, de 10 de Outubro), mas não tem efeitos retroactivos."
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
A subvenção mensal vitalícia foi consagrada na Lei nº4/85, de 9 de Abril (alterada pela Leio nº26/95), que estabeleceu o estatuto remuneratório dos titulares de cargos políticos. Esta situação permite que antigos políticos acumulem a subvenção mensal vitalícia com outra pensão de reforma a que têm direito após o exercício de uma actividade profissional. Na prática recebem duas pensões por mês. A subvenção mensal vitalícia foi extinta pelo primeiro governo de José Sócrates (Lei nº52-A/2005, de 10 de Outubro), mas não tem efeitos retroactivos."
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
os meninos de ouro 5
"Em 19 de Janeiro de 2009, o deputado Melchior Moreira renuncia ao Parlamento para presidir à Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte de Portugal, pedindo a atribuição da subvenção vitalícia, com apenas 45 anos de idade. Confrontado com a situação, o antigo deputado, eleito pelo Partido Social Democrata, responde convictamente: "Não me incomoda de maneira nenhuma, é um direito que tenho e que me assiste em função do tempo que dediquei à causa pública. Tenho cerca de 11 anos de trabalho de causa pública e só me consideraram 9 anos. Estou perfeitamente de consciência tranquila, porque houve empenhamento pessoal e acompanhamento político."
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
os meninos de ouro 4
"Desde 2006 que o ex-deputado Manuel Alegre é contemplado com uma pensão mensal de 3219 euros que inclui o período de desempenho de funções durante algumas semanas na Rádio Difusão Portuguesa. Questionado por um jornalista do Correio da Manhã sobre o facto de ter direito a uma pensão por ter trabalhado tão pouco tempo, o antigo vice-presidente da Assembleia da República é peremptório: "Eu recebo aquilo a que tenho direito. Recebo a pensão como funcionário da RDP e recebo a subvenção vitalícia, que é aquilo a que qualquer deputado tem direito. Tudo somado, agora recebo menos 500 euros do que recebia quando tinha um terço da pensão (como prevê a lei quando o pensionista exerce cargos públicos) e mais o salário de deputado". Em declarações ao mesmo jornal, Manuel Alegre salienta que a subvenção vitalícia "é legal" e recorda o exemplo de outros políticos que auferem pensões além de outros rendimentos: "O Presidente da República também não recebe duas ou três reformas do Estado, além do vencimento? Mas eu nem questiono que ele é uma pessoa séria.""
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
os meninos de ouro 3
"Segundo os dados da Caixa Geral de Aposentações (CGA), o número de actuais e ex-titulares de cargos políticos que usufruem de uma subvenção mensal vitalícia não pára de aumentar, atingindo os 400 beneficiários em Maio de 2010. Numa época em que Portugal enfrenta uma das piores crises económicas dos últimos 30 anos, é ultrajante ver políticos a acumular pensões e subsídios de reintegração com o exercício simultâneo de outras actividades profissionais. No lote dos contemplados com este privilégio político encontram-se o antigo primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, e o candidato às presidenciais, Manuel Alegre, que pediram à Assembleia da República a atribuição da subvenção vitalícia e assim acumulam duas reformas em simultâneo. Pedro Santana Lopes recebe, desde Outubro de 2005, uma pensão mensal de 3178 euros por ter sido presidente de Câmara, juntando agora os mais de 2 mil euros da subvenção vitalícia da Assembleia da República."
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
João Pedro Martins. Revelações. Smartbook, 2010.
os meninos de ouro 2
"Os 3,1 milhões de euros auferidos em 2009 por António Mexia, CEO da EDP e antigo ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do governo de Santana Lopes, mostra como um administrador de uma empresa que detém o monopólio do comércio doméstico de electricidade, e que por isso está dispensada da competição do mercado, ganha mais do que Steve Jobs, fundador da Apple, a gigante americana de computadores. O valor que Mexia guarda no bolso é um escândalo, comparado com o salário médio de um trabalhador português e com metade dos habitantes do planeta que vivem com menos de 2 dólares por dia."
João Pedro Martins, Revelações - os paraísos fiscais, a injustiça dos sistemas de tributação e o mundo dos pobres. Smartbook, 2010.
João Pedro Martins, Revelações - os paraísos fiscais, a injustiça dos sistemas de tributação e o mundo dos pobres. Smartbook, 2010.
Achei-te!
Joaquim Manuel Magalhães refere-se aqui à publicação "Ruínas", que se apresentou como o «primeiro volume da série "Elogios" publicado pelos Quatro Elementos Editores. 1990». Jaime Rocha abre o capítulo "Lápis de Cor" (páginas 129 a 131) com:
"RUÍNAS
é um espaço de morte
onde vai um corvo comer to-
das as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e pro-
cura no meio da vegetação al-
gumas larvas e o cheiro de ou-
tros corvos. É um cheiro novo,
azeitado, que consegue sur-
preender quem pára um carro
junto a uma montanha. Nessas
ruínas passa um rio que está
sujo e que mostra ao longo das
margens mais de duzentos peixes
mortos. É um rio esverdeado sem
vegetação, apenas com uma baba,
onde os corvos vão beber. Tem
sons que desaparecem de repen-
te. Dentro dessas ruínas exis-
tem vários objectos de ferro,
outros de plástico. Tudo está
ordenado conforme o seu tempo
de uso e o espaço que ocupam.
[...]"
"RUÍNAS
é um espaço de morte
onde vai um corvo comer to-
das as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e pro-
cura no meio da vegetação al-
gumas larvas e o cheiro de ou-
tros corvos. É um cheiro novo,
azeitado, que consegue sur-
preender quem pára um carro
junto a uma montanha. Nessas
ruínas passa um rio que está
sujo e que mostra ao longo das
margens mais de duzentos peixes
mortos. É um rio esverdeado sem
vegetação, apenas com uma baba,
onde os corvos vão beber. Tem
sons que desaparecem de repen-
te. Dentro dessas ruínas exis-
tem vários objectos de ferro,
outros de plástico. Tudo está
ordenado conforme o seu tempo
de uso e o espaço que ocupam.
[...]"
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Conception entre science et art. Regards multiples sur la conception. Jacques Perrin
"La conception-création-invention nécessite la coexistence de cinq facteurs:
» L´existence des «identités», des sujets, des «Je» - pour jouer avec les mots -, des savoirs, des disciplines, etc.
» L´existence de différences, d´altérités, voire d´altération, de crise, d´incomplétude, de manques, de désirs... Dont l´Autre est le «signifiant majeur».
» L´existence d´aires de jeux», des idées, des objets, des pensées, des disciplines, des cultures, etc., en lesquelles peut s´opérer la «rencontre» des «uns» et des «autres».
» L´existence d´un «espace» assurant les conditions favorables à l´accueil, à l´élaboration, ao mûrissement, ao déploiement et au développement du «germe» et ainsi à la «réalisation» de l´oeuvre et éventuellement à son orientation soumise à la conscience intentionnelle et réflexive. Cet espace d´accueil suppose aussi dialectiquement des frontières, des structures, des règles et des lois à la fois internes à l´art et externes, conduisant au dépassement paradoxal dans l´oeuvre véritable de la tension entre la liberté de la création et l´existence d´un cadre et de structures qui renvoient au cinquième point.
» L´existence d´un «Monde»* dans lequel l´oeuvre va être produite et produire des effets dans une «dialectique complexe» qui n´est jamais totalement prévisible, c´est la phase extensive de l´oeuvre.
* Le «Monde», selon notre conception, préexiste aussi bien implicitement, en relation avec l´histoire des acteurs, des lieux, des modèles, mais aussi presque toujours explicitement par l´intermédiaire de contraintes ne serait-ce que celles imposées par l´apprentissage de «l´art ou de la science», du langage et des codes, de commandes, de désirs mimétiques... Pour le dire autrement, aucun acte créatif ne peut-être considéré comme entièrement libre et nous sommes là au coeur d´un paradoxe souvent repéré de l´acte créatif conjoignant la plus grande liberté et les plus fortes contraintes. Mais dialectiquement cette forme de préexistence est potentielle et appelle à être actualisée et réalisée, ainsi le monde est aussi inventé, construit, révélé, et c´est dans cet espace paradoxal du «trouvé-créé» qu´intervient le plus radicalement l´acte créatif."
*
"L´Art conduit à une attitude que nous pourrions qualifier d´activement passive, où le spectateur singulier est appelé à être «co-auteur» dans la compréhension ou la contemplation de ce que l´oeuvre lui «donne à voir», et où il réalise alors «souvent sur un mode mineur» un processus semblable à celui de la création originale, il pourra d´ailleurs s´en inspirer dans un acte de création continuée.
Dans le champ proliférant des techniques les rapports à «l´objet inventé» s´organisent autrement dans leurs effets concrets s´articulant avec une logique complexe, économique, sociale et politique, déplaçant le centre de gravité de «l´objet» vers une entité collective. Il s´avère que ces innovations techniques prennent alors une place dans le monde plus «médiatement» active, mais le plus souvent passivement active, devenant des objets de consommation ou des outils aux effets non réfléchis et aux principes non compris en profondeur."
*
"Ainsi nous voudrions ouvrir le «champ» de la conception (et de la création) au questionnement du sens et de la conscience - en particulier l´étique -, comme une sixième phase d´un processus que n´envisageait pas initialement Anzieu. Nous savons que cette «précaution» pourrait paraître superfétatoire voire inhibante vis-à-vis du processus créatif, elle nous aparaît au contraire comme cruciale aujourd´hui."
En Alain Gire. Conception de la conception.
» L´existence des «identités», des sujets, des «Je» - pour jouer avec les mots -, des savoirs, des disciplines, etc.
» L´existence de différences, d´altérités, voire d´altération, de crise, d´incomplétude, de manques, de désirs... Dont l´Autre est le «signifiant majeur».
» L´existence d´aires de jeux», des idées, des objets, des pensées, des disciplines, des cultures, etc., en lesquelles peut s´opérer la «rencontre» des «uns» et des «autres».
» L´existence d´un «espace» assurant les conditions favorables à l´accueil, à l´élaboration, ao mûrissement, ao déploiement et au développement du «germe» et ainsi à la «réalisation» de l´oeuvre et éventuellement à son orientation soumise à la conscience intentionnelle et réflexive. Cet espace d´accueil suppose aussi dialectiquement des frontières, des structures, des règles et des lois à la fois internes à l´art et externes, conduisant au dépassement paradoxal dans l´oeuvre véritable de la tension entre la liberté de la création et l´existence d´un cadre et de structures qui renvoient au cinquième point.
» L´existence d´un «Monde»* dans lequel l´oeuvre va être produite et produire des effets dans une «dialectique complexe» qui n´est jamais totalement prévisible, c´est la phase extensive de l´oeuvre.
* Le «Monde», selon notre conception, préexiste aussi bien implicitement, en relation avec l´histoire des acteurs, des lieux, des modèles, mais aussi presque toujours explicitement par l´intermédiaire de contraintes ne serait-ce que celles imposées par l´apprentissage de «l´art ou de la science», du langage et des codes, de commandes, de désirs mimétiques... Pour le dire autrement, aucun acte créatif ne peut-être considéré comme entièrement libre et nous sommes là au coeur d´un paradoxe souvent repéré de l´acte créatif conjoignant la plus grande liberté et les plus fortes contraintes. Mais dialectiquement cette forme de préexistence est potentielle et appelle à être actualisée et réalisée, ainsi le monde est aussi inventé, construit, révélé, et c´est dans cet espace paradoxal du «trouvé-créé» qu´intervient le plus radicalement l´acte créatif."
*
"L´Art conduit à une attitude que nous pourrions qualifier d´activement passive, où le spectateur singulier est appelé à être «co-auteur» dans la compréhension ou la contemplation de ce que l´oeuvre lui «donne à voir», et où il réalise alors «souvent sur un mode mineur» un processus semblable à celui de la création originale, il pourra d´ailleurs s´en inspirer dans un acte de création continuée.
Dans le champ proliférant des techniques les rapports à «l´objet inventé» s´organisent autrement dans leurs effets concrets s´articulant avec une logique complexe, économique, sociale et politique, déplaçant le centre de gravité de «l´objet» vers une entité collective. Il s´avère que ces innovations techniques prennent alors une place dans le monde plus «médiatement» active, mais le plus souvent passivement active, devenant des objets de consommation ou des outils aux effets non réfléchis et aux principes non compris en profondeur."
*
"Ainsi nous voudrions ouvrir le «champ» de la conception (et de la création) au questionnement du sens et de la conscience - en particulier l´étique -, comme une sixième phase d´un processus que n´envisageait pas initialement Anzieu. Nous savons que cette «précaution» pourrait paraître superfétatoire voire inhibante vis-à-vis du processus créatif, elle nous aparaît au contraire comme cruciale aujourd´hui."
En Alain Gire. Conception de la conception.
As palavras transferidas. X - O processo de aquarização
Entre a mão e o vidro, as palavras transferidas.
Eu tenho um peixe no aquário que se esquece
de mim a cada volta.
Reconhece a fonte de alimento, a minha mão
como qualquer outra,
e eu ando às voltas à volta do aquário
de volta de um peixe que,
bem, como outro qualquer peixe,
talvez seja sempre demasiado novo
para poder preservar o amor que lhe persigo
enquanto não volta a mão que me alimenta.
Eu tenho um peixe no aquário que se esquece
de mim a cada volta.
Reconhece a fonte de alimento, a minha mão
como qualquer outra,
e eu ando às voltas à volta do aquário
de volta de um peixe que,
bem, como outro qualquer peixe,
talvez seja sempre demasiado novo
para poder preservar o amor que lhe persigo
enquanto não volta a mão que me alimenta.
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