segunda-feira, 19 de agosto de 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

As palavras transferidas. XVI - Última infância

Podem morrer-me os livros nas mãos
da noite inaugurais como as manhãs que já não vêm.
A mão esfria de folhear cabelo a cadáver.
Ler é ofício côncavo, uma mão a pedir esmola,
outra farta vilanagem a dobrar cada esquina de papel.
Ler é pouco menos que vaidade de profanar cemitérios.
Dos bons livros aprendi somente as ciências falíveis e as tabuadas de acaso
e caso me perguntem por elas, direi que esqueci
da própria geometria do esquecimento
planando redundâncias sobre os grandes mestres.
Podem morrer-me os livros nas mãos.
O prazer do jogo esconde a sua privação,
 inexprimível, patética,
o ajuste indizível da carne no golpe,
a implosão silenciosa da infância.
Podem morrer-me os livros nas mãos.
Podem morrer-me os livros nas mãos que a criança não volta.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Como ler um escritor

"[...] um leitor procurar num escritor, ou na sua obra, soluções para os seus problemas é uma invasão de privacidade. Eis a falácia subjacente a qualquer entrevista ou nota biográfica sobre um autor: aproximar demasiado a vida da obra, ou acreditar que um romance pode substituir os erros que uma pessoa tem de cometer na vida para aprender a sobreviver devidamente ou talvez até a ser feliz."

John Freeman em Como ler um escritor. (Tinta-da-china, 2013.)

sábado, 8 de junho de 2013

The Iceberg. Cobolt


A crise para totós

"Com efeito, a verdadeira solução para a crise da dívida é o crescimento, que pressupõe investimentos concorrenciais, os quais exigem infra-estruturas públicas. O desaparecimento da má dívida pressupõe, pois, o crescimento da boa dívida."

Jacques Attali, "Estaremos todos falidos dentro de dez anos? - Dívida pública: a última oportunidade" (Alêtheia Editores, Agosto 2010).

Duas conclusões sobre a Granta 1

1. "A vida é um tédio quando não há histórias para ouvir nem nada para ver." (Pág. 237, Orhan Pamuk in Gente Famosa.)

2. Contra todas as expetativas, a Granta mostra que o agora maiúsculo Valter Hugo Mãe afinal sai ao pai. (Pág. 296.)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Kaputt. Destroyer

Antes morrer

Eu sei: há palavras grandiosas
pelas quais se pode morrer.
Essas palavras inflamam
e a calma é cobardia
quando toca a reunir
sob as bandeiras regimentais.

Mas quem quer que conheça as velhas mães
deixadas entregues a si próprias
e os filhos sem pais
não acredita em nada do que dizem.

Eu sei: há grandes atos
e muitos exigem sacrifícios.
Eu sei: há atos heroicos
usados para consagrar
os ganhos de guerras inúteis
em longas tréguas.

Mas quem quer que tenha visto, de longe,
catedrais em ruínas
e cidades esmagadas em chamas
já não acreditará neles.

Eu sei: há grandes homens
com reivindicações de imortalidade.
Inscreveram-se nas épocas com o seu sangue;
e há um número mais do que suficiente deles
nos cemitérios de todos os países
à sombra de ilustres tílias.

Mas quem quer que tenha visto,
sob a espada ensanguentada,
o ferido a contorcer-se em agonia
conhece-as ainda melhor.

Eu sei: sou uma minúscula insignificância,
miserável e talvez desprezível.
Eu sei: estas minhas palavras
são um veneno perigoso
que pode envenenar
a vossa pomposa canção.

E, no entanto, antes morrer
com o vosso cuspo no meu rosto,
antes morrer como um cobarde
do que ter sangue nas minhas mãos.

Escrito por uma jovem desconhecida, à beira da câmara de gás. In Paisagens da Metrópole da Morte (Otto Dov Kulka, Temas e Debates, Abril 2013).