domingo, 2 de dezembro de 2012
O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo
O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo
Não pode o escultor dar forma ao que não tem matéria
Todos os nossos gestos correspondem à paisagem e se não
perde-se a relação viva a consonância essencial
Senta-se alguém sobre uma pedra entre pinheiros
e tem em frente o mar e corre leve a brisa
Poderá estar cansado mas a paisagem limpa-lhe
a mente e aligeira as suas sombras
Quem olha ainda a linha imóvel das montanhas
e vê no mar a indolente ondulação de uma pantera
e vê as estrelas como se um leque se tivesse aberto
na cúpula celeste e o universo fosse uma árvore de astros?
A imaginação precisa da matéria prima
das substâncias da terra da visão material
e se queremos sentir que a pátria ainda está viva
temos de construir com a pedra a água o fogo o ar
a habitação aberta ao jogo do universo
António Ramos Rosa, in Pátria Soberana seguido de Nova Ficção (Quasi Edições, 2001).
Não pode o escultor dar forma ao que não tem matéria
Todos os nossos gestos correspondem à paisagem e se não
perde-se a relação viva a consonância essencial
Senta-se alguém sobre uma pedra entre pinheiros
e tem em frente o mar e corre leve a brisa
Poderá estar cansado mas a paisagem limpa-lhe
a mente e aligeira as suas sombras
Quem olha ainda a linha imóvel das montanhas
e vê no mar a indolente ondulação de uma pantera
e vê as estrelas como se um leque se tivesse aberto
na cúpula celeste e o universo fosse uma árvore de astros?
A imaginação precisa da matéria prima
das substâncias da terra da visão material
e se queremos sentir que a pátria ainda está viva
temos de construir com a pedra a água o fogo o ar
a habitação aberta ao jogo do universo
António Ramos Rosa, in Pátria Soberana seguido de Nova Ficção (Quasi Edições, 2001).
domingo, 30 de setembro de 2012
circo
O circo é uma pequenina arena fechada, lugar de esquecimento. Durante alguns instantes permite que nos abandonemos, que nos dissolvamos em maravilha e felicidade, transportados pelo mistério. Saímos de lá como que envoltos numa neblina, entristecidos e horrorizados pela face quotidiana do mundo. Mas este velho mundo quotidiano, este mundo com o qual julgamos estar por de mais familiarizados, é o único que existe - e é um mundo de magia, de magia inesgotável. Como o palhaço, vamos fazendo as nossas cabriolas, simulando sempre, adiando sempre o grande acontecimento. Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados sempre. Sempre do lado de fora.
Henry Miller, O sorriso aos pés da escada (do Epílogo).
Henry Miller, O sorriso aos pés da escada (do Epílogo).
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Nacionalizar a SIBS
Se o que a SIBS faz é taxar o processamento dos pagamentos eletrónicos aos comerciantes como forma de remuneração da disponibilização deste serviço, poderemos entender isto como (mais) um imposto às empresas?
Se esta taxa paga pelas empresas varia consoante o poder negocial de cada empresa ou os escalões de pagamento atingidos, sendo assim tendencialmente mais generosa para os maiores grupos económicos, não é também isto uma violação constitucional do princípio da igualdade?
Se esta taxa paga pelas empresas varia consoante o poder negocial de cada empresa ou os escalões de pagamento atingidos, sendo assim tendencialmente mais generosa para os maiores grupos económicos, não é também isto uma violação constitucional do princípio da igualdade?
terça-feira, 21 de agosto de 2012
déjà vu
As novidades não cheiram a novo. Repetições de repetições, fragmentos referenciais, o mesmo contado por outro, as mesmas técnicas e ferramentas noutra voz. Que fazer? Andar por aí, contemplar as fórmulas até ao cansaço, meter o bedelho no mundo e ir cheirando as novidades.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Contra Miguel Real (3): uma bananice
Miguel Real diz:
"3. Contraditando o novo realismo, surge um realismo de tipo jornalístico, centrado numa história relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, continuador do estilo dos romances portugueses até à década de 50, cuja publicação anacrónica prossegue até 2010. Citemos alguns dos autores deste tipo de romance, designado por «romance de mercado» porque escrito em obediência aos fluxos de vendas deste (verão, Natal), e, negativamente, designado por «romance light»: Margarida Rebelo Pinto, Tiago Rebelo, Maria Roma, José Rodrigues dos Santos, Júlia Pinheiro, Moita Flores, Júlio Magalhães, Pedro Pinto, Manuel Arouca, Isabel Stilwell, Maria João Lopo de Carvalho, Luís Miguel Rocha, Daniel Silva (A Marca do Assassino, 2007; O Artista da Morte, 2008; O Assassino Inglês, 2009; As Regras de Moscovo, 2010; O Confessor, 2011).
É um conjunto de autores que vive literariamente o presente, refletindo-o no conteúdo social dos seus romances e, voluntariamente ou por ignorância cultural, desconhece os veios nervosos tradicionais da cultura portuguesa do passado. [...]"
Eu diria:
Contraditando o novo ensaismo, ressurge um ensaismo do tipo elitista, centrado num conhecimento relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, designado por ensaio light, como este "O romance português contemporâneo 1950-2010", o livro que afirma Daniel Silva como escritor português.
"3. Contraditando o novo realismo, surge um realismo de tipo jornalístico, centrado numa história relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, continuador do estilo dos romances portugueses até à década de 50, cuja publicação anacrónica prossegue até 2010. Citemos alguns dos autores deste tipo de romance, designado por «romance de mercado» porque escrito em obediência aos fluxos de vendas deste (verão, Natal), e, negativamente, designado por «romance light»: Margarida Rebelo Pinto, Tiago Rebelo, Maria Roma, José Rodrigues dos Santos, Júlia Pinheiro, Moita Flores, Júlio Magalhães, Pedro Pinto, Manuel Arouca, Isabel Stilwell, Maria João Lopo de Carvalho, Luís Miguel Rocha, Daniel Silva (A Marca do Assassino, 2007; O Artista da Morte, 2008; O Assassino Inglês, 2009; As Regras de Moscovo, 2010; O Confessor, 2011).
É um conjunto de autores que vive literariamente o presente, refletindo-o no conteúdo social dos seus romances e, voluntariamente ou por ignorância cultural, desconhece os veios nervosos tradicionais da cultura portuguesa do passado. [...]"
Eu diria:
Contraditando o novo ensaismo, ressurge um ensaismo do tipo elitista, centrado num conhecimento relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, designado por ensaio light, como este "O romance português contemporâneo 1950-2010", o livro que afirma Daniel Silva como escritor português.
Contra Miguel Real (2): contra uma censura da crítica
Miguel Real diz:
“Neste sentido, o respeito pelo romance de mercado deve ser acompanhado pela ideia bem clara de que este, se desempenha uma função consolatória e catártica socialmente útil (como se comprova pelo número de venda de exemplares deste tipo de narrativa), não desempenha uma função esteticamente útil, isto é, em nada contribui para a história da literatura. O esclarecimento deste facto, porém, não deve contribuir nem para a vexação da obra nem para a humilhação do nome do autor – ambos, como referimos, devem merecer o devido respeito pela parte do crítico literário e do professor de literatura, mas não, evidentemente, a sua veneração. Normalmente, face a esta tensão entre o respeito, a crítica negativa e a veneração, a crítica literária deve ignorar este tipo de literatura, já que, se escrevesse sobre ele, seria obrigada a apontar um conjunto de habituais defeitos estilísticos, de pobreza lexical e de um restritíssimo campo histórico-semântico que, evidentemente, mancharia o nome do autor e reprovaria a edição do romance.” (O romance português contemporâneo 1950-2010, págs. 37 e 38).
Contra esta higienização da crítica (já de si suja pelo amiguismo deste país pequeno), eu diria:
A crítica literária, para ser crítica, não deve ignorar literatura nenhuma e dizer o que acha que deve dizer.
“Neste sentido, o respeito pelo romance de mercado deve ser acompanhado pela ideia bem clara de que este, se desempenha uma função consolatória e catártica socialmente útil (como se comprova pelo número de venda de exemplares deste tipo de narrativa), não desempenha uma função esteticamente útil, isto é, em nada contribui para a história da literatura. O esclarecimento deste facto, porém, não deve contribuir nem para a vexação da obra nem para a humilhação do nome do autor – ambos, como referimos, devem merecer o devido respeito pela parte do crítico literário e do professor de literatura, mas não, evidentemente, a sua veneração. Normalmente, face a esta tensão entre o respeito, a crítica negativa e a veneração, a crítica literária deve ignorar este tipo de literatura, já que, se escrevesse sobre ele, seria obrigada a apontar um conjunto de habituais defeitos estilísticos, de pobreza lexical e de um restritíssimo campo histórico-semântico que, evidentemente, mancharia o nome do autor e reprovaria a edição do romance.” (O romance português contemporâneo 1950-2010, págs. 37 e 38).
Contra esta higienização da crítica (já de si suja pelo amiguismo deste país pequeno), eu diria:
A crítica literária, para ser crítica, não deve ignorar literatura nenhuma e dizer o que acha que deve dizer.
Contra Miguel Real (1): contra uma censura da leitura
Em "O romance português contemporâneo 1950-2010" (Caminho, 2012), o ensaista Miguel Real diz:
“Um grande romance deixa o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica ou um deserto mental de que não sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da sua existência.” (pág. 37)
Eu diria:
Um grande romance pode deixar o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica, uma terra de alguém ideológica, a sua própria terra ideológica ou até mesmo terra nenhuma, ou um deserto mental de que não sabe ou sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da existência do romance, e no limite da sua.
Dito isto, apenas concordo com o emprego do verbo forçar: um grande romance força o leitor ao espanto.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
bastarmo-nos
"Chegou, portanto, a catástrofe e no momento em que se assegurava que os corações iam bater em uníssono. Logo vemos se poderemos continuar a ir a voar para Mataró, como diziam os nossos avós. E agora a elucubração é em sentido contrário. Agora temos de nos fechar em nós próprios, bastarmo-nos a nós mesmos, partir da ideia de que tudo o que fora tomado por bom até agora é prejudicial e o contrário: que tudo o que até agora foi mal visto é excelente.
Há razões, parece-me, para ficar perplexo. O mundo de hoje é um mundo dominado pela perplexidade. Porém, algo se ganhou. As ilusões desvaneceram-se. Em muitos aspectos da vida a eliminação das ilusões é saudável e positiva. Há que reservar as ilusões para com elas temperar as paixões do amor e humanizar a ironia, para falar com os amigos, para simplificar a vida."
Termina assim o livro "Viagem de autocarro", de Josep Pla (Tinta da China, 2011).
Há razões, parece-me, para ficar perplexo. O mundo de hoje é um mundo dominado pela perplexidade. Porém, algo se ganhou. As ilusões desvaneceram-se. Em muitos aspectos da vida a eliminação das ilusões é saudável e positiva. Há que reservar as ilusões para com elas temperar as paixões do amor e humanizar a ironia, para falar com os amigos, para simplificar a vida."
Termina assim o livro "Viagem de autocarro", de Josep Pla (Tinta da China, 2011).
terça-feira, 12 de junho de 2012
Esta viagem
Esta viagem não responde às minhas perguntas.
Trespassei o aço das certezas.
Heranças, devorei-as.
A etapa seguinte rasga a prévia cartografia
Toda a fronteira é um apelo à renúncia.
Prescrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.
Ao encontro da linguagem da tribo azul
cada passo me afasta de um rito sagrado.
Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:
a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.
Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.
Esta viagem. Conceição Lima in O País de Akendenguê (Caminho, 2011).
Imagem no desfiladeiro de Petra (02.06.2012).
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