quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Adiamento

Esta tarde pensei em voltar aos poemas quando chutei a ponta de um cigarro
no Largo da Portagem e a vi sumir-se entre as pedras.
No percurso até ao carro fui mapeando a calçada mas eu já não sei
se vim pelas pedras, se me afundei pelas fendas.
Volto de Coimbra como se ainda viesse atrás de um carro funerário
na marcha lenta dos Covões. Felizmente posso parar
numa área de serviço e comer qualquer coisa só para praguejar do preço
e sair satisfeito mais pelo encolher de ombros das funcionárias do que pela sandes,
e de pensar que se estivesse em 1986, de modo nenhum eu viria
pela autoestrada. Isto porque anda aqui a biografia do Assis Pacheco
e uma catrefada de leituras no trólei.
O lugar das coisas adiadas é nas fendas, entre as pedras - digo para mim
e acrescento o meu nome completo.
Depois chego à Nazaré,
onde os poemas começam e se adiam.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Vilar Formoso

07.09.2011. Portagem para o Magic Kingdom. Disney Orlando

uma visita aos velhos


06.09.2011. The Muppett Show. Disney Orlando

ao sol

06.09.2011. Downtown Disney Orlando.

01.09.2011. USA. Cemitério.

31.08.2011. NY. Nada romântico.

31.08.2011. NY
31.08.2011. Lá.

31.08.2011. NY
31.08.2011. NY

"A principal característica do taxista de Nova Iorque é que não é abelhudo (não nos pergunta quem somos, nem o que fazemos, nem de onde vimos, a menos que lhe ofereçamos tais informações de forma espontânea), mas conta-nos todas, mas mesmo todas as suas maleitas, desde o pé inchado até à dor de cabeça." in Nova Iorque. Brendan Behan (Tinta-da-China, 2010).

31.08.2011, NY. Cão estacionado.
31.08.2011. Um Starbucks em cada esquina. Dei um pontapé num caixote e achei um Starbucks.
31.08.2011. O Bronx, foto de passagem, como todas.
Foto de 31.08, a caminho de NY.

A pluma caprichosa. Alexandre O´Neill ("como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim | um pouco a medo")

[...]

Estou onde não devia estar

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa
passa pelos olhos dum gato
como o avião passa no céu do camponês
como a cidade passa pelo convalescente
que sai pela primeira vez

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei
nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram
na sua ternura quase insuportável
o destino passa

No amigo que lentamente é puxado para o outro lado da razão
e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver
o destino cumpre-se e passa
Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam
como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam
na espuma que esmago contra a areia muito fria
na mulher que me acompanha e comigo se perde na noite
nos soluços de luz verde que um farol nos envia
o destino detém-se e passa
Na inesperada hora de felicidade
vivida um pouco a medo
como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim
um pouco a medo
como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia
o destino demora-se e passa

Estou onde não devia estar

[...]

Excerto. Poesias Completas de Alexandre O´Neill (Assírio & Alvim, 2000)