sábado, 9 de outubro de 2010

As palavras transferidas. VIII – Uma teoria da abstração e do abstrato

Entre cerco e clausura, as palavras transferidas.
Todas as palavras são apelo à comiseração,
como o cerco e a clausura que estas palavras configuram e significam.
Das palavras nascem palavras-coisas e para estas imagens se transferem.
Palavras de palavras.
Situamos a palavra, que é cerco e clausura, numa reclusão externa –
esta coisa de silêncio, imagem de um grito mudo complacente.
À doença de esperar dá-se o nome de silêncio.
Fechados nele, abreviamos e resolvemos as imagens:
a porta escancarada,
luz intermitente entre cortinas, o corpo
cansado numa cama a suspender-se para o tempo, o vazio habitável
no cerco do dia, de cada jornada de esquecimento,
de palavras que nos fecham nas imagens,
na clausura das notícias – palavras de palavras de palavras.
Ganhar a jorna é esta consciência de vazio entre as imagens,
desta prisão que nos abstrai,
a projeção sequencial de luzes na tela escura
e de nelas dissolvermos a sombra que não somos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O livro abandonado

Eu, uma vez corri a outra nova aventura. Foi em Raimundo, uma das terras mais ricas do país. Vivia eu num apartamento, quando ouvi um barulho estranho. Parecia alguém a chorar. Fui ver. Que estranho, sabem o que eu ouvi? Um livro a chorar. Nunca tal me tinha acontecido ver isto, mas vou contar como foi: - O que vem a ser isto? - perguntava eu - um livro a chorar?!
- Sim! Um livro a chorar! - dizia e chorava o livro.
- E a falar? É de desmaiar! Agora vamos ao que interessa: porque é que choras?
- É que ninguém me quer ler, dizem sempre: este livro não presta! Este livro é muito grande para ler! Assim eu sou abandonado.
- Pois agora vou-te perguntar: os livros todos que eu li não falavam nem choravam e porque é que tu choras?
- É que eu venho do mundo dos livros e fabricaram-me mesmo de propósito para que alguém me lesse e se alguém me ler irá para o meu mundo!
- Mas porque é que quem te ler tem de ir para o teu mundo?
- No nosso mundo, os livros estão a acabar e precisamos de poetas para escreverem mais livros! Porque sem poetas não há livros e será uma grande tristeza se não houver livros!
- E porque é que será uma grande tristeza se não houver livros?
- Olha, olha, os livros, nós, ensinam tudo ao homem e se não houver livros os homens não saberão nada!
- Lá nisso tens razão, eu sou um poeta! Vou-te abrir se tu me prometeres que me levas de volta ao mundo do Homem!
- Prometo!
- Combinado, então vou abrir-te!
E eu abri o livro e fui ter ao Mundo dos livros.
Assim na vida nunca mais faltaram livros.


Maceirinha, 24 de Março de 1988 (9 anos de idade)

domingo, 26 de setembro de 2010

"Diotima de Mantineia". In "A Metáfora do Coração e outros escritos".

“E assim fui ficando à margem. Abandonada pela palavra, chorando interminavelmente como se do mar subisse o pranto, sem mais sinal de vida que o pulsar do coração e o palpitar do tempo nas minhas têmporas, na indestrutível noite da vida. Noite eu própria.”

"Notas". In "A Metáfora do Coração e outros escritos".

“As coisas estão na poesia pela sua ausência, isto é, pelo mais verdadeiro, já que, quando algo se ausentou, o mais verdadeiro é o que nos deixa, pois que é o inapagável; a sua pura essência. E a própria realidade encobre-se a si mesma. Além disto, com este jogo de ausência e de presença, as coisas aparecem-nos submersas no fluxo do tempo; mostram-se-nos como nascendo e voltando a nascer. A sua presença é um milagre, o milagre, primeiro do aparecimento das coisas em estatus nasces.”

“Valéry definiu a poesia, e, ao defini-la, fê-la o que ela nunca fora: problemática. Assemelhou-a ao pensamento. E até é possível já um «método» poético, um caminho para a captação da essência, que é unitária como toda a essência, e há-de deixar-se captar por aproximação.
Mas, isso é a poesia? A poesia não se deu na dispersão? A sua unidade não foi diferente da do pensamento e até agora era indefinível? Só o facto de a poesia se situar paralelamente ao pensamento faz pensar que deixou de ser fiel a si mesma, precisamente ao pretender sê-lo. A poesia não pode estabelecer-se a si mesma, não pode definir-se a si mesma. Não pode, em suma, pretender encontrar-se, porque então perde-se.”

"Poesia". In "A Metáfora do Coração e outros escritos".

“Filosofia é cada um encontrar-se a si mesmo, cada um chegar por fim a possuir-se; alcançar atravessando o tempo, correndo com o pensamento mais que o tempo, adiantando-se à sua corrida. […] Pois o filósofo quer sair da corrente do tempo, da procissão dos seres.”

“E do seu pensar sai o seu ser”.

“E assim, o filósofo parte soltando-se das suas origens em busca do seu ser; o poeta continua quieto à espera da dádiva, e quanto mais tempo passa menos pode decidir-se a partir, e quanto mais demora a chegar a oferta sonhada mais começa a voltar-se para a origem: desfaz-se, desvive, reintegra-se quanto pode na névoa de onde saíra, na névoa originária […].”

“Não porque ao poeta não lhe importasse a unidade, mas sempre soube que nunca a conseguiria a não ser saindo de si, entregando-se, esquecendo-se. […] Só no amor, na absoluta entrega, sem que fique nada para si, vive o poeta, enfim. A poesia é um abrir-se do ser para dentro e para fora, ao mesmo tempo. É um ouvir no silêncio e um ver na escuridão. […] É a saída de si, um possuir-se por ter-se esquecido; um esquecimento por ter ganho a renúncia total. Um possuir-se por não ter já nada que dar; um sair de si enamorado, uma entrega ao que não se sabe ainda, nem se deixa ver. Um encontrar-se inteiro por se ter dado inteiramente.”

“A poesia é anedótica porque quer tudo ao mesmo tempo: o método filosófico dá-se no tempo sucessivo ou, pelo menos, propõe-no.”

“A palavra que quer fixar o inexprimível porque não se resigna a que cada ser seja somente aquilo que parece.”

"Mística e Poesia". In "A Metáfora do Coração e outros escritos" (María Zambrano, Assírio e Alvim).

“Por natureza entendemos a maneira de ser de uma coisa que o é por si mesma, isto é, que o seu ser não está feito pelas mãos do homem. E a natureza do homem – a razão – é algo que o homem não acaba de ter, mas que tem de retomar, de reconquistar.
Esta reconquista começa com a separação do meio estranho em que caiu, começa com a catharsis das paixões, produtos da sua ligação com o corpo-túmulo. Depois aparecerá o caminho da dialéctica que a razão, já sozinha e recolhida em si mesma, percorre, até à ideia do bem, que é o divino, do qual a alma humana é syngenes, parente.”

“Porque o amor leva consigo uma distância. Amor sem distância não seria amor, porque não teria unidade, objecto. É a sua diferença essencial com o desejo: no desejo não há propriamente objecto, porque o apetecido não está em si mesmo, não se lhe tolera este ensimesmar-se […] O desejo consome o que toca; na posse aniquila-se o desejado, que não tem independência, que não existe fora do desejo. Em amor subsiste sempre o objecto que tem a sua unidade inalcançável. A posse amorosa é um problema metafísico e, como tal, sem solução. Necessita de suportar a morte para se cumprir; atravessar a vida, a multiplicidade do tempo.
O amor, tal como o conhecimento, necessita da morte para o seu cumprimento. O amor pelo qual se propaga a vida… Este é, cremos, o fundamento de toda a mística: que o amor que nasce na carne (todo o amor «primeiro» - primário – é carnal) tem, para gozar-se, de desprender-se da vida, tem também que converter-se; como dizia Platão, era preciso realizar com o conhecimento.
E esta conversão verificou-se pela poesia, na poesia. Na poesia, que soube melhor que a filosofia interpretar a sua própria condenação, pois estava-lhe reservado nutrir-se até da sua própria sentença condenatória. Com mais força que o pensamento soube, até agora, arrancar a sua virtude da sua fraqueza; a sua existência de sua contradição, do seu pecado original.”

"Poesia e ética". In "A Metáfora do Coração e outros escritos" (María Zambrano, Assírio e Alvim).

“O homem aparece assim como uma criatura feliz, cuja única desventura consiste em ter de esperar e, na espera, desvelar-se e desvelar o que está encoberto, atravessando o tempo.”

“E o delírio. A razão não é senão renúncia, ou talvez a impotência da vida. Viver é delirar. O que não é embriaguez nem delírio é preocupação. E para quê a preocupação por nada, se tudo há-de terminar? O filósofo concebe a vida como um contínuo alerta, como um perpétuo vigiar e preocupar-se. O filósofo nunca dorme, afasta de si todo o canto acariciador que poderia adormecê-lo, toda a sedução, para se manter lúcido e acordado. O filósofo vive em sua consciência, e a consciência não é senão cuidado e preocupação.”

“Como convencer o amante da irrealidade do fantasma da beleza amada? Da sua morte não é preciso convencê-lo, porque ele já a chora; mas que algo morra não quer dizer que seja, por isso, irreal.”

“E este não se conformar perante o desaparecimento inexorável da beleza traz para a vida uma fatal consequência: a destruição, a ameaça perpétua de toda a ordem que se estabeleça. Destruição da ordem, porque é destruição da unidade.”

“Por isso a poesia mantém a memória das nossas desgraças. E ainda mais, faz-nos simpatizar com aquilo que a nós mesmos proibimos, com tudo o que atirámos da nossa alma para fora, com as paixões de cuja tirania nos tinha libertado a razão.”

“O poeta não pode ver com bons olhos o descobrimento do ser, porque o poeta sabe que há descobrimentos que arrastam, que existem coisas às quais não resta mais remédio que ser leal até à morte, uma vez que as descobrimos. […] Porque não existiu jamais uma mera contemplação; quanto mais pura é a contemplação, mais peremptória, mais decisiva. Contempla-se para ser e não por outra coisa, por mais empapada de amor que esteja a contemplação. Mas isto, que contemplação esteja empapada de amor, pertence à poesia.”



“E se algo o poeta ganhou através dos séculos, é esta lucidez, esta consciência desperta, cada vez mais desperta e lúcida […]. Esta ética poética não é mais que a do martírio.”

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

As palavras transferidas. VII - A perceção da espera

Entre o salto e a fenda, as palavras transferidas.
Prendemos a vista na ronda do homem-estátua:
cercamos-lhe os gestos, o piscar de olhos,
e é por nosso alívio que deixamos moeda,
para que a estátua suspire, renasça,
para que se mova e se anule numa saudação constrangedora.
Incitamos à falha, ao estremecimento,
devir da matéria.
Somos complacentes de falhas sísmicas e de meteoros,
classificamos os fenómenos por níveis de espanto.
Os dias são o que fica da nossa entrega e aceitação,
os trocos do movimento pelo movimento
na ronda do homem-estátua, ir e vir entre as fendas da perceção
enquanto nos fixamos de marmóreos vincos e de pétreas órbitas,
aguardamos que as placas se desloquem, inventando a espera
e, em vez de saltarmos,
merecemos, imóveis, a moeda no balde.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Dois fragmentos sobre o amor." In A Metáfora do Coração e outros escritos

“No ilimitado espaço que, na aparência, a mente de hoje abre a toda a realidade, o amor tropeça com barreiras infinitas. E tem de justificar-se e dar razões sem fim, e tem de resignar-se finalmente a ser confundido com a multidão de sentimentos, ou dos instintos, se não quer esse lugar escuro da «libido», ou ser tratado como uma doença secreta, de que deveríamos libertar-nos.”

“Vida na negação, é a que se vive na ausência do amor. Quando o amor – inspiração, sopro divino no homem – se retira, não parece perder-se nada de momento, e até parecem emergir com mais força e claridade coisas como os direitos do homem emancipado. Todas as energias que integravam o amor ficam soltas a vaguear por sua conta. Como sempre que se produz uma desintegração, há uma repentina liberdade, em verdade pseudo-liberdade, que depressa se esgota.
A partir do Romantismo, em que o amor ascendeu arrebatadamente à superfície da vida, o amor não deixo de ter os seus servidores, os seus defensores. São sobretudo os poetas, lembrando um pouco a situação antiga, quando somente os poetas o sustentaram à margem da cidade e quase da lei. Contudo, hoje ninguém ousa formular, nem sequer como hipótese, nenhuma lei contra ele; nenhuma cidade lhe fecha as suas portas; pelo contrário, tudo parece que lhe está aberto, até as leis… Mas, na realidade, as portas estão francas para os seus sucedâneos, para tudo o que o suplante. A rebeldia dos poetas, seus irredutíveis servidores, cai numa espécie de vazio; aos seus delírios não se opõe nenhuma resistência, a forma mais clara da pseudo-liberdade de que gozamos.
E é que todas as forças contrárias ao que outrora respondera ao nome de «humanismo», tomaram hoje o seu rosto, a sua figura, o seu próprio nome. O humanismo de hoje costuma ser a exaltação de uma certa ideia do homem que nem sequer se apresenta como ideia, mas como simples realidade: a realidade do homem, sem mais que renúncia à sua ilimitação; a sua aceitação de si mesmo como estrita realidade psicológico-biológica; a sua afirmação em coisa, uma coisa que tem determinadas necessidades justificadas e justificáveis. De novo o homem se acorrentou à necessidade, mais agora por decisão própria e em nome da liberdade. Renunciou ao amor em proveito do exercício de uma função orgânica; trocou as suas paixões por complexos.”

“Ao amor de nada lhe serve aparecer sob a forma de uma paixão arrebatadora; é como se, cuidadosamente, alguém tivesse efectuado uma análise e extraísse o divino e avassalador que nele existe para o deixar transformado num acontecimento, no exercício de um direito humano e nada mais. Num episódio da necessidade e da justiça.
O amor, quando não é aceite, converte-se em némesis, em justiça, é implacável necessidade de que não há escape. Como a mulher nunca adorada se converte em Parca que corta a vida dos homens. E assim, é a retirada do divino sob a forma do amor humano que nos mantém condenados, encerrados nesta prisão de fatalidade histórica, de uma história convertida em pesadelo do eterno retorno.
A ausência do amor não consiste em que efectivamente não apareça em episódios, em paixões, mas no seu confinamento nesses estreitos limites da paixão individual desacreditada num facto, num raro acontecer. E então chega a suceder que até a paixão individual – pessoal – fica também confinada numa forma trágica, porque fica submetida à justiça. O amor vive e respira, mas submetido a um processo perante uma justiça que é implacável fatalidade. O amor está a ser julgado por uma consciência onde não há lugar para ele, perante uma razão que se lhe negou. Está como enterrado vivo, vivente, mas sem força criadora.”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"Poema e Sistema". In "A Metáfora do Coração e outros escritos", Maria Zambrano.

“Não é necessário insistir sobre quão e delicado havia de ser o estudo que tornasse manifesta a unidade da poesia com a filosofia na forma sistemática, e muito mais se se tratasse de descobrir as suas conexões históricas e as afinidades com velhas formas de saber esquecidas.
Porém, há algo que nos aparece de modo evidente, e é que Poesia e Filosofia, olhadas nos seus mais puros exemplos, se unem, separando-se das restantes criações da palavra; há entre elas uma íntima, essencial e viva unidade. Unidade que é identidade, uma especial identidade entre a pessoa vivente com a sua criação. O filósofo e o poeta estão mais identificados com a sua obra que qualquer outro autor. Parecem até ter conseguido mais que nenhum outro esse anseio de dar à diversidade das horas vividas, à multiplicidade da vida real, um equivalente unitário; conseguiram uma transmutação ou metamorfose em que a alma se uniu ao espírito ou ao intelecto, quer porque ela o absorve – na poesia –, quer porque a inteligência recebeu dentro de si a alma. As duas são a fusão de disparidades antagónicas; as duas, apaziguamento em que os mais secretos anseios se acalmam e a vida encontra o seu espelho adequado.”

"Apontamentos sobre o tempo e a poesia". In "A Metáfora do Coração e outros escritos", Maria Zambrano.

“A arte parece ser o desejo veemente de decifrar ou procurar a pegada deixada por uma forma perdida de existência. Testemunho de que o homem gozou alguma vez de uma vida diferente. Mas nesta procura as artes da palavra parecem encerrar a clave mais que as plásticas, sempre mais deste mundo, mais adaptadas à realidade que se nos oferece. A razão não é difícil de encontrar; as artes plásticas têm menos que ver com o tempo; a sua aparência, de imediato, é espacial e não sucessiva; o seu gozo não é, ao mesmo tempo, uma realização.
E na vida humana o decisivo é o tempo. Mais, o tempo em que vivemos parece ser já o produto de um rompimento. Daí o irresistível anseio, nascido da nostalgia desse tempo perdido, que se em alguma arte se reflecte é na poesia, pois ela parece procurar a sua possível ressurreição, dentro deste tempo em decadência.”

“A palavra voltar-se-á para o que parece ser o seu contrário e mesmo inimigo: o silêncio. Quererá unir-se a ele, em vez de o destruir. É «música calada», «solidão sonora», bodas da palavra com o silêncio. Mas, ao retroceder até ao silêncio, teve que penetrar no interior do ritmo; absorver, em suma, tudo o que a palavra na sua forma lógica parece ter deixado atrás. Porque somente ao ser, ao mesmo tempo, pensamento, imagem, ritmo e silêncio parece que a palavra pode recuperar a sua inocência perdida, e ser então pura acção, palavra criadora.”

"Porque se escreve". In "A Metáfora do Coração e outros escritos", Maria Zambrano.

“Escrever é defender a solidão em que se está; é uma acção que brota somente de um isolamento afectivo, mas de um isolamento comunicável, em que, exactamente, pela distância de todas as coisas concretas, se torna possível um descobrimento de relações entre elas.
Mas é uma solidão que necessita de ser defendida, que é o mesmo que necessitar de justificação. O escritor defende a sua solidão, mostrando o que nela e unicamente nela, encontra.
Se há um falar -, porquê o escrever? Mas o imediato, o que brota da nossa espontaneidade, é algo pelo qual inteiramente não nos fazemos responsáveis, porque não brota da totalidade íntegra da nossa pessoa; é uma reacção sempre urgente, premente.”

“Escreve-se para reconquistar a derrota sofrida sempre que falámos longamente.
E a vitória somente pode dar-se ali onde se sofreu a derrota, nas mesmas palavras. Estas mesmas palavras terão agora, no escrever, uma função diferente; não estarão ao serviço do momento opressor; já não servirão para nos justificar perante o ataque do momentâneo, mas, partindo do centro do nosso ser em recolhimento, irão defender-nos perante a totalidade dos momentos, perante a totalidade das circunstâncias, perante a vida na sua integridade.
Há no escrever um reter as palavras, como no falar há um soltá-las, um desprender-se delas, que pode ser um ir desprendendo-se elas de nós. Ao escrever-se, retêm-se as palavras, tornam-se de quem as escreve, sujeitas a um ritmo, seladas pelo domínio humano de quem assim as maneja.”

“Toda a vitória humana há-de ser reconciliação, reencontro de uma amizade perdida, reafirmação depois de um desastre em que o homem foi a vítima; vitória em que não poderia existir humilhação do contrário, porque já não seria vitória, isto é, glória para o homem.”

“E assim, o escritor busca a glória, a glória de uma reconciliação com as palavras, tiranas anteriores do seu poder de comunicação. Vitória de um poder de comunicar. Porque não só exerce o escritor um direito exigido pela sua torturante necessidade, mas um poder, capacidade de comunicação, que acrescente a sua humanidade, que leva a humanidade do homem a limites recém-descobertos, a limites da sua qualidade de homem, do ser homem com o inumano, aos quais acode o escritor, vencendo no seu glorioso encontro de reconciliação com as tantas vezes traidoras palavras. Salvar as palavras da sua falsa pompa, da sua vacuidade, endurecendo-as, forjando-as, perduravelmente, é o que é procurado, mesmo sem o saber, por quem deveras escreve.”

“Porque há um escrever falando, o que escreve «como se falasse»; e já este «como se» é para desconfiar, pois a razão de ser algo tem de ser razão de ser isto e somente isto. E o fazer uma coisa «como se» fosse outra, diminui-a e mina todo o seu sentido, e proíbe a sua necessidade.
Escrever vem a ser o contrário de falar; fala-se por necessidade momentânea imediata e, ao falar, fazemo-nos prisioneiros do que pronunciámos, enquanto que no escrever se acha libertação e perdurabilidade – só se encontra libertação quando aportamos a algo permanente. Salvar as pessoas da sua momentaneidade, de seu ser transitório, e conduzi-las em nossa reconciliação rumo ao perdurável, é o ofício de quem escreve.”

“O que se publica é para alguma coisa, para que alguém, um ou muitos, ao sabê-lo, vivam sabendo-o, para que vivam de outro modo depois de o ter sabido; para libertar alguém do cárcere da mentira, ou das névoas do tédio, que é a mentira vital.”

“Nesta solidão sedenta, a verdade ainda oculta aparece, e é ela, ela mesma a que se exige ser tornada evidente. Quem progressivamente a foi vendo, não a conhece se não a escreve, e escreve-a para que os outros a conheçam. É que, com rigor, se ela se mostra a ele, não é a ele, enquanto indivíduo determinado, mas enquanto indivíduo do mesmo género dos que devem conhecê-la; e mostra-se a ele, aproveitando a sua ânsia e solidão, o seu fazer calar a gritaria das paixões. Mas não é a ele que ela se mostra propriamente, pois se o escritor conhece à medida que escreve, e escreve já para comunicar aos outros o segredo achado, a quem em verdade se mostra é a esta comunicação, comunidade espiritual do escritor com o seu público.
E esta comunicação do oculto, que se faz a todos por intermédio do escritor, é a glória, a glória que é a manifestação da verdade escondida até ao presente, que dilatará os instantes transfigurando as vidas. É a gloria que o escritor espera mesmo sem o dizer e que consegue, quando, escutando na sua solidão sedenta com confiança, sabe transcrever fielmente o segredo descoberto. Glória da qual é sujeito recipiendário depois do activo martírio de perseguir, capturar e reter as palavras para as ajustar à verdade. Por esta busca heróica desce a glória sobre a cabeça do escritor, reflecte-se sobre ela. Mas a glória é, em rigor, de todos; manifesta-se na comunidade espiritual do escritor com o seu público e ultrapassa-a.
Comunidade de escritor e público que, contra o que primeiramente se crê, não se forma depois de o público ter lido a obra publicada, mas antes, no próprio acto de o escritor escrever a sua obra. É então, ao tornar-se patente o segredo, que se cria esta comunidade do escritor com o seu público. O público existe antes de a obra ter sido ou não lida, existe desde o começo da obra, coexiste com ela e com o escritor enquanto tal. E somente chegarão a ter público, na realidade, aquelas obras que já o tiveram desde um princípio. E assim o escritor não precisa de fazer para si próprio questão da existência desse público, dado que existe com ele desde que começou a escrever. E isso é a sua glória, que sempre chega respondendo a quem não a buscou nem desejou, embora a manifeste e espere para transformar com ela a multiplicidade do tempo, passado, perdido, por um só instante, único, compacto e eterno.”

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Rumo a um saber sobre a alma". ("A metáfora do coração e outros escritos", Maria Zambrano, Assírio e Alvim, 2000).

“«Tudo passa» seria o grande consolo quietista, se nós não passássemos igualmente, se com o tempo que passa não passasse também a nossa própria vida. Agarrando-nos à verdade, à nossa verdade, associando-nos ao seu descobrimento por a ter acolhido no nosso interior, por ter harmonizado a nossa vida com ela, enraizando-a no nosso ser, sentimos que o nosso tempo não passa, pelo menos, em vão. Algo do seu passar fica, como no fluir da água no rio, que passa e fica. «Tudo passa», corre a água do rio mas o álveo e o próprio rio permanecem. Mas é preciso que haja álveo, e o álveo da vida é a verdade. […] E é um bem que a vida se nos precipite a correr, a fuga do simples permanecer físico a cair nos seios do tempo, a angústia de passar transforma-se em prazer de caminhante.”

“Há duas maneiras de reagir perante os pensamentos que são bocados ou parte de outro pensamento mais radical, ainda desconhecido; uma é permanecer insensível perante a verdade que eles assinalam; outra, dar conta, por uma sensibilidade nascida da necessidade que temos dessa verdade, de que está ali, e não poder, contudo, encontrá-la. É o conhecimento que dá a sede para nos agarrarmos à rocha sob a qual mana a água, sem poder desfazê-la para que saia à superfície.”

“Quantos saberes, resultado de uma vida de luta com as paixões, terão ficado no silêncio por falta de horizontes racionais onde acolher-se, por falta de coordenadas adequadas a que referir-se!”

“É um banho cósmico, uma imersão da alma com a vida. «As situações de máxima exaltação corporal trazem consigo um delicioso aniquilamento na unidade cósmica.» (Ortega y Gasset: Vitalidad, Alma, Espíritu.) A orgia é uma reconciliação da alma que sofre ao começar a sentir-se a si mesma, com a natureza; é uma chamada aos poderes cósmicos que o homem faz quando lhe doem as entranhas da sua vida. É um regresso às fontes originárias da vitalidade para se limpar das sombras do seu interior, de algo que começa a sentir como seu, aposento de silêncio e solidão.
Porque toda a solidão foi sentida num princípio como um pecado, como algo do qual se sente remorsos. Cada distância que o homem conquista em relação ao resto do universo cria-lhe uma solidão que ao princípio lhe infunde terror e remorso. E da solidão recém-conquistada, retrocede a abraçar-se com o que acaba de deixar.
Assim, a alma grega, quando começava a sentir-se separada do cosmos, socorre-se das celebrações de Elêusis e do culto a Dioniso, em busca de uma reconciliação, com a esperança de se livrar das suas dores; também com a alegria de quem se reencontra com as suas origens. Orgia, purificação, abandono por um momento das dores da solidão nascente.”

domingo, 22 de agosto de 2010

"A metáfora do coração (fragmento)." ("A metáfora do coração e outros escritos." Maria Zambrano, Assírio e Alvim, 2000)

“(…) a Filosofia mais pura desenvolveu-se no espaço traçado por uma metáfora, a da visão e da luz inteligível.”

“(…) E estas metáforas a que nos referimos não são os felizes achados da poesia ou da literatura, mas uma dessas revelações que estão na base de uma cultura, e que a representam. Maneira de apresentação de uma realidade que não pode fazê-lo de modo directo; presença do que não pode exprimir-se directamente, nem alcançar com o inefável, única forma em que certas realidades podem tornar-se visíveis aos torpes olhos humanos.

“[Metáfora] É a função de definir uma realidade inabarcável pela razão, mas propícia a ser captada de outro modo. E é também a sobrevivência de algo anterior ao pensamento, pegada num tempo sagrado, e, portanto, uma forma de continuidade com tempos e mentalidades passadas, coisa tão necessária numa cultura racionalista. E a verdade é que, nos seus momentos de maior esplendor, a Razão nada teve que temer perante estas metáforas a que podemos chamar fundamentais. Ou talvez, ao dizer cultura, tenhamos a imagem de uma unidade entre a mais pura razão e esses outros modos de conhecimento, entre os quais se destaca este das metáforas.”

“A razão é pura manifestação, é a própria comunicação. Pode ficar sem dizer, não por isso será menos comunicável. Um pensamento racional, uma Filosofia esotérica, é pura contradição. A Filosofia logo no seu começo foi a ruptura do Mistério. Assim parece sempre para os que são inclinados a um saber misterioso, saber superficial. E a própria Filosofia adquiriu consciência da sua superficialidade, que não é diferente da sua universalidade e da sua principal virtude: a da transparência. Mas o que primeiro sentimos na vida do coração é a sua condição de escura cavidade, de recinto hermético: Víscera; entranha. O coração é o símbolo e representação máxima de todas as entranhas da vida, a entranha onde todas encontram a sua unidade definitiva e a sua nobreza. […] Este abrir-se é a sua maior nobreza, a acção mais heróica e inesperada de uma entranha que parece de imediato não ser senão vibração, um sentir puramente passivo. Signo de generosidade porque indica que aquilo que primariamente é somente passividade – acusação – se transforma em activo. E é tão passivo que não deixa de o ser ao actuar, é o oferecimento daquilo que não tem outra coisa senão integridade. Suprema acção de algo que, sem deixar de ser interioridade, a oferece num gesto que parece que poderia anulá-la, mas somente a eleva. Oferece-se por ser interioridade e para continuar a sê-lo. E isto (interioridade que se oferece para continuar a ser interioridade, sem a anular) é a definição de intimidade.”

“Somente aquilo que constitutivamente é fechado pode ser a sede de uma intimidade; (…).”

“A profundidade impõe tanto e é tão misteriosa porque é o espaço que sentimos criar-se, pela acção de algo que está a ponto de trair o seu ser para oferecê-lo numa entrega suprema, como é toda a entrega daquilo que não se tem primariamente e se adquire para para entregá-lo a quem somente assim pode ir a quem o chama. O profundo é uma chamada amorosa. Por isso, toda a gruta atrai.”

A música do coração
Por ser o trabalho uma incessante condição de vida, não podem as entranhas chegar à palavra; porque toda a palavra é um corte e delimitação na realidade e somente quem pode separar-se da vida pela sua condição independente e impassível pode alcançá-la. Toda a palavra suspende o tempo e introduz descontinuidade na sua incessante continuidade. Por isso preserva do tempo. Nada de estranho pode ter que a Filosofia, que descobriu o pensamento, chegasse a vê-lo fora do tempo. Na realidade não chegou, mas começou, ao descobrir o pensamento - «noein parmeniano» - numa abstracção do tempo. É a condição do próprio pensamento que em sua forma genérica, a simples palavra, executa uma descontinuidade onde parecia não poder havê-la. Faz saltar a lei do tempo, que marcha igual a si mesmo.
Não assim as entranhas que continuam mergulhadas no tempo sem poder sair dele. E por isso não puderam chegar à palavra; por falta de vagar e independência; por impossibilidade de pôr uma pausa no seu trabalho. O seu domínio é o ritmo, como em toda a maquinaria. A música das máquinas atrai porque é imagem da música do coração. Música, pulsar que representa, nisto, também, o pulsar de tanta entranha surda; que soa por toda a mudez dos restantes que, se não se fizessem ouvir de alguma maneira, ficariam cheios de rancor. Pois o rancor nasce do que não consegue, trabalhando sempre, ser escutado.”

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Génese seguido de Constelações". António Ramos Rosa (Roma Editora, 2007)

Não podemos ter a certeza da nomeação
Entre o acto ou a coisa e a palavra há uma cesura intransponível
Vivemos paralelamente entre dois mundos como estranhos
e só a invenção pode constituir a fábula
de uma unidade que será sempre incerta ou futura ou improvável
Ou talvez possamos fazer um pacto com o inexprimível
e aceitar o insondável como um solo absoluto
e embalar-nos no silêncio ou no berço da nossa morte
Se uma adolescente expõe o seio diante de um espelho
e se deslumbra apaixonadamente e levemente beija a sua imagem
nenhuma palavra poderá dizer o frémito desse instante absoluto
mas é esse o desejo da palavra que procura um lábio
para sentir que ele é o mundo que desponta e o estremecimento do contacto
consigo própria no apaixonado círculo do seu movimento voluptuoso
Ela navega na solidão de imagem em imagem
para encontrar o outro para beijar nele a sua própria boca
e no seu sexo fecundar a ave subterrânea
das suas anelantes entranhas fustigadas pelo tufão do desejo

*

Quando uma mulher se despe numa clareira rodeada de arbustos
e sobre uma toalha se estende ao sol o seu desejo é ambíguo
porque não quer ser vista e ao mesmo tempo a sua pele estremece
sob um olhar ausente ou de alguém escondido entre a folhagem
Também a palavra se expõe e oculta no seu fulgor de lâmpada
alimentada pelo fogo obscuro que aspira à nudez solar
Ela inclina-se sobre a água para ver a sua imagem
com o olhar não dela mas de um outro que a move
para ser a presença pura no olhar de ninguém
e poderá ser um dia o de algum leitor que se deslumbra com a sua abstracta nudez
Sem esta duplicidade e sem este puro recato através do silêncio
ela não possuiria o frémito ideal da sua exposição
e seria opaca ou demasiado transparente sem os meandros cintilantes
que a tornam fugidia como um fio de mercúrio
e a sua nudez teria a consistência inerte
de uma pedra sem fogo e sem sal sem o focinho do desejo
Por isso o poema é uma mulher que se enrola na sua nudez
até ser tão redonda como redondo é o ser
com a sua língua bífida entre os lábios do seu sexo

*

O que não é ainda o que está para ser o que já está a ser
e que não sendo excede sempre em íntima dissonância
que perpetua o mundo para além de nós
e em nós abre uma fenda mas também um espaço neutro
em que a palavra poderá encontrar a rosa do possível
sobre o impossível solo que a nega e que a suscita
O que o ser mais deseja é a integridade de um sentido
que envolva o não sentido que o transponha numa lenta coluna
de existência reunindo a sede e a móvel nascente
que não existe senão no movimento dos passos sobre o deserto
para que a página se ilumine e a boca respire o azul do dia
Mas o poema é sobretudo o movimento do sono adolescente
em que o mundo não é mais que maresia cintilante
e o ritmo das esferas o rolar de uma bola de esterco que um escaravelho empurra

*

Há palavras que esperam que o branco as desnude
para se tornarem transparentes e vazias
A delicadeza da lâmpada é uma oferenda do olvido
a folha flexível é uma luva vegetal para a mão que oscila

Como o abdómen de uma adolescente
a página suscita a fértil fragilidade
de uma caligrafia que se apaga sobre os sulcos da neve
Aí aparece a graciosa metade
em que cintila o pólen da límpida abolição

Escrevo para ser contemporâneo das nuvens
para pertencer à pobre e nua pátria inerte
coberta pelo violento alfabeto dos cláxons
Escrevo para que se levantem os pássaros de areia
e ao pulverizarem-se espalhem a poeira do seu desaparecimento