NOVA ERA. Ideias até aí de fraca aceitação colhiam agora
louros. Pessoas por quem antes ninguém daria nada tornavam-se famosas. Os
contrastes atenuavam-se, o que estava separado voltava a juntar-se, espíritos
independentes faziam concessões ao êxito, o gosto já formado voltava a cair na
incerteza. Por toda a parte se tinham esfumado os limites claros, e uma nova
capacidade, indescritível, de entrar em alianças fazia emergir novas pessoas e
novas ideias. Não eram más, com certeza que não; acontecia apenas que uma
pequena percentagem do mau se infiltrava no bom, o erro na verdade, a
acomodação na convicção. Parecia mesmo que havia nesta mistura uma percentagem
favorita capaz de obter os maiores sucessos; a medida exata de sucedâneo que
fazia o génio parecer mais genial e o talento apresentar-se como grande
esperança; qualquer coisa como aquela pequena porção de figo ou de chicória
que, segundo alguns, dá ao café o seu verdadeiro gosto a café. E de um dia para
o outro todas as posições importantes e privilegiadas da vida do espírito foram
ocupadas por gente dessa, e todas as decisões que se tomavam iam nesse sentido.
Não se pode dizer que isto ou aquilo foi responsável por tal situação, nem como
se chegou aí. É impossível lutar contra pessoas ou ideias, ou contra certos
fenómenos. Não há falta de talentos nem de boa vontade, nem sequer de carácter.
A questão é que tanto pode faltar tudo como nada. É como se o sangue ou o ar se
tivessem transformado: uma doença misteriosa consumiu a ínfima semente de
genialidade da época anterior, mas tudo reverbera com o brilho do novo, e por
fim já não se sabe se foi o mundo que ficou pior ou simplesmente nós que
envelhecemos. É o começo definitivo de uma nova era. (pp. 96; 97)
PESSIMISMO. (...) não será o pessimismo aquilo que os homens de acção sentem sempre quando entram em contacto com os homens que fazem das palavras o seu comércio? (p. 405).
POLÍCIA. O mais espantoso em tudo isto é que a polícia não
só é capaz de desmembrar uma pessoa de tal modo que nada dela reste, como também
de a montar de novo a partir dessas peças insignificantes, e de a reconhecer
nelas. Para que isso aconteça, basta acrescentar-lhe aquele imponderável a que
chama suspeita. (p. 226)
POLÍTICA. Uma política realista significa: não fazer precisamente aquilo que queremos fazer. Em contrapartida, podemos conquistar as pessoas satisfazendo os seus pequenos desejos! (...) Como vê - explicou -, acabo de afirmar que uma política realista não pode deixar-se conduzir pelo poder da ideia, mas pelas necessidades práticas. Naturalmente que todos gostariam de poder concretizar as mais belas ideias, isso é óbvio. Portanto, o que importa é não fazer aquilo que gostaríamos de fazer. Já Kant o afirmou. (p. 464).
PROGRESSO. Todo o progresso é um ganho no particular e um
desmembramento no todo; é um aumento de poder que desemboca num progressivo
aumento de impotência, e contra isto não há nada a fazer. (p. 219)
RESPONSABILIDADE. Hoje, pelo contrário, a responsabilidade deixou
de ter o seu centro no indivíduo, e passou a tê-lo nas circunstâncias. Não
houve já quem afirmasse que os acontecimentos se tornaram independentes das
pessoas? Passaram-se para o teatro, para os livros, para os relatórios dos
centros de investigação e das expedições científicas, para as comunidades
ideológicas e religiosas, que fomentam determinados tipos de acontecimentos à
custa dos outros, como uma grande experiência social; e se esses acontecimentos
não se encontrarem em desenvolvimento, ficam pura e simplesmente a pairar no
ar. Quem poderá, hoje, dizer ainda que a sua cólera é realmente a sua cólera,
quando tanta gente fala dela e sabe mais disso que ele próprio? Nasceu um mundo
de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive, e quase parece
que, em última análise, a experiência de cada um se tornou impossível e o fardo
ameno da responsabilidade pessoal se vai dissolver num sistema de fórmulas de
significados apenas possíveis. A dissolução dos comportamentos
antropocêntricos, que durante tanto tempo tomou o homem por centro do universo,
mas está a desaparecer há séculos, chegou provavelmente ao próprio eu, já que a
crença de que o mais importante da vivência é vivê-la e o mais importante da
ação é fazê-la começa a parecer uma ingenuidade para a maior parte das pessoas.
Haverá certamente ainda pessoas que vivem de forma muito pessoal; dizem «Ontem
estivemos em casa de fulano ou beltrano», ou «Hoje vamos fazer isto ou aquilo»,
e ficam muito contentes, sem que isso, aparentemente, precise já de ter
significado e conteúdo. Gostam de tudo o que podem tocar com os próprios dedos,
e são pessoas puramente privadas, até onde isso é possível; o mundo
transforma-se em mundo privado logo que se relaciona diretamente com elas, e
cintila como um arco-íris. Talvez sejam muito felizes; mas este tipo de pessoas
é já visto pelos outros como absurdo, apesar de ainda ninguém saber por que
razão. (pp. 214; 215).
ROMANCE E POESIA. E ocorreu-lhe um daqueles pensamentos
ínvios e abstractos que na sua vida tantas vezes se haviam revelado
importantes: neste caso, a ideia de que a lei a que aspiramos para esta vida,
sobrecarregados e sonhando com a simplicidade, não é outra senão a lei da ordem
da narrativa! Aquela ordem simples que consiste em podermos dizer: «Primeiro
aconteceu isto e depois passou-se aquilo!» O que nos tranquiliza é a simples
sequência, a reprodução da esmagadora diversidade da vida numa ordem unidimensional,
como diria um matemático; o alinhamento de tudo o que aconteceu no tempo e no
espaço ao longo de um fio, precisamente o célebre «fio da narrativa», feito da
mesma matéria do fio da vida. Feliz aquele que pode dizer «quando», «antes de»
e «depois de»! Pode ter-lhe acontecido uma desgraça, pode ter-se contorcido de
dores: assim que conseguir reproduzir os acontecimentos na ordem da sua
sucessão temporal sentir-se-á tão bem como se o Sol lhe aquecesse o estômago.
Foi disto que o romance, artificialmente, soube tirar partido: o viandante pode
cavalgar estrada fora sob chuva torrencial ou fazer estalar a neve sob os pés
com vinte graus negativos, que o leitor sentir-se-á confortável, e isso seria
difícil de compreender se este eterno recurso da arte de narrar, que já a ama
usa para acalmar os mais pequenos, se este provado e comprovado «encurtamento
da perspectiva da razão» não pertencesse também ao âmbito da vida. Na relação
essencial consigo próprias, a maior parte das pessoas são narradores. Não
gostam da poesia, ou então é apenas momentaneamente, e ainda que integrem no
fio da vida alguns «porquês» e «para quês», detestam toda a reflexão que vá
para além disso: gostam da sequência ordenada dos factos porque isso parece
corresponder a uma necessidade, e a sensação de que as suas vidas têm um «rumo»
fá-las sentirem-se protegidas no meio do caos. (p. 827).
SABER. O saber é uma forma de comportamento, uma paixão. No fundo, um comportamento ilícito; porque, tal como a dependência do álcool, do sexo ou da violência, também a compulsão de saber molda um carácter em desequilíbrio. É um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, é ela que o persegue a ele. É ele que tem de suportá-la. A verdade é verdadeira, o facto é real, sem se preocuparem com ele: ele é que sofre da paixão, da dipsomania dos factos que define o seu carácter, e está-se nas tintas para saber se as suas descobertas levarão a alguma coisa de total, humano, perfeito ou que quer que seja. É uma natureza contraditória, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente enérgica! (pp. 298; 299).
O saber começou a ser visto como obsoleto, tinha começado a impor-se o tipo de homem impreciso que ainda domina o tempo presente. (p. 342).
- Toda a gente começa por reflectir sobre o sentido global da vida - explicou -, mas quanto mais se pensa, mais o seu âmbito se estreita. Quando chega à idade madura, tens à tua frente alguém que, no milímetro quadrado de espaço que lhe cabe, sabe tanto como, em todo o mundo, no máximo duas dúzias de outras pessoas, que tem plena consciência de que todas as pessoas que não sabem tanto como ele só dizem disparates sobre o que ele sabe, e que apesar disso não tem por onde se mexer, porque, se se desviar do seu lugar, por um micromilímetro que seja, é ele que começará a dizer disparates. (p. 359).
SENTIMENTO. – Qualquer sentimento que não seja ilimitado não
tem valor. (p. 741).
SENTIMENTO DE SI. À excepção dos azarados e dos felizardos, toda a gente vive igualmente mal, mas em níveis diferentes. Este sentimento de si, traduzido na imagem dos diversos níveis, é um sucedâneo muito desejável para o homem de hoje, que em geral tem uma fraca noção do sentido da sua vida. (p. 442).
SER. No fundo, poucas pessoas saberão, a meio da vida, como
chegaram a ser o que são, aos seus prazeres, à sua visão do mundo, à sua
mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas sentem que a
partir daí as coisas já não irão mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que
foram enganadas, porque não se consegue descobrir em lugar nenhum a razão
suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido
perfeitamente possível ter acontecido de outra forma. O que acontece, aliás,
raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas
circunstâncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de
certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude,
a vida está ainda à nossa frente como uma manhã inesgotável, plena de
possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser
a nossa própria vida, mas que é tão surpreendente como uma pessoa com que nos
correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de
repente, temos diante de nós e constatamos que é completamente diferente do que
havíamos imaginado. Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem
deem por isso; adotam aquele que veio ter com elas e cuja vida se fundiu com a
própria, as vivências dele parecem-lhes agora ser a expressão das suas próprias
qualidades, e o destino dele é o seu mérito ou sua desgraça. Sucedeu-lhes o
mesmo que às moscas com o papel mata-moscas: algo as apanhou por um pelo, lhes
impediu os movimentos, as manietou a pouco e pouco até ficarem sepultadas sob
uma espessa cobertura que já só vagamente corresponde à sua forma primitiva.
(p. 190)
TÉCNICA DE BISMARCK. Para alcançar os seus fins, servia-se
neste caso da técnica de Bismarck, que de resto não gostava de tomar como
exemplo: punha na boca dos jornalistas as suas verdadeiras intenções, para, de
acordo com os ventos que soprassem, as poder confirmar ou desmentir. (p. 202)
UTOPIA DA EXACTIDÃO. Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenómeno composto a que chamamos vida. Se o elemento observado for a própria exactidão, se o isolarmos e o deixarmos desenvolver-se, se o considerarmos como hábito de pensamento, atitude de vida, e deixarmos que ele exerça a sua força exemplar sobre tudo o que entra em contacto com ele, chegaremos a uma noção de ser humano no qual encontraremos uma paradoxal aliança entre exactidão e indeterminação. Terá aquela frieza incorruptível e deliberada que corresponde ao temperamento da exactidão, mas, para lá desta qualidade, tudo o resto é nele indeterminado. Os contornos bem definidos da vida interior, assegurados pela moral, têm pouco valor para um homem cuja imaginação se orienta no sentido da mudança; enfim, quando a exigência de mais plena e exacta realização no plano intelectual se transfere para o das paixões, o espantoso resultado, a que já fizemos alusão, é que as paixões desaparecem para dar lugar a uma forma de bondade que se assemelha ao fogo das origens.
É a utopia da exactidão. Não saberemos dizer de que modo esse ser humano passará os seus dias, uma vez que não pode pairar eternamente em acto de criação, e terá sacrificado o fogo doméstico das sensações mais limitadas a um incêndio da imaginação. Mas este homem da exactidão já existe. Na sua condição de homem dentro do homem, vive não apenas no investigador, mas também no comerciante, no organizador, no desportista, no técnico, ainda que apenas de forma provisória, naquelas horas do dia a que chamam, não a sua vida, mas a sua profissão. Porque para aquele que assim vê as coisas, de forma radical e despida de preconceitos, nada é mais desprezível do que a ideia de se levar a sério a si próprio. Infelizmente, não se pode duvidar de que ele veria a utopia de si próprio como uma experiência imoral exercida sobre pessoas seriamente empenhadas no que fazem.
É esta a razão pela qual Ulrich, em toda a sua vida, se sentiu sempre bastante isolado quando se tratava de saber se devemos adaptar todas as outras às formas mais poderosas da nossa realização interior ou, por outras palavras, se poderemos encontrar uma finalidade e um sentido para aquilo que nos aconteceu e acontece. (pp. 338; 339).
VAIDADE. Como lhe ensinaram que não deve trazer a vaidade no coração, o homem colocou-a em grande parte debaixo dos pés, caminhando sobre o chão de uma grande pátria, de uma religião ou de um certo nível de impostos sobre o rendimento; na falta de uma posição deste tipo, contenta-se com aquilo que qualquer um podo ter, o encontrar-se no cume provisoriamente mais alto da coluna do tempo que se ergue sobre o vazio, ou seja, o viver neste momento e não noutro, um momento em que os que vieram antes já se tornaram pó e os vindouros ainda não estão aí. Mas se essa vaidade, que geralmente é inconsciente, nos sobe por qualquer razão dos pés à cabeça, isso pode provocar uma loucura mansa semelhante à daquelas virgens que julgam estar grávidas do próprio globo terrestre. (p. 315).
VENERAÇÃO. Tivemos grandes homens na nossa história, e consideramo-los uma instituição nacional, a par das prisões ou do exército; a partir do momento em que existem, tem de se meter alguém lá dentro. Para isso, e recorrendo a um certo automatismo próprio de tais necessidades sociais, escolhe-se o primeiro que está na calha e concedem-se-lhe as honras disponíveis no momento. Mas tal veneração nunca é verdadeiramente autêntica; lá no fundo espreita a convicção, bastante generalizada, de que ninguém a merece, e torna-se difícil dizer então se a boca se abre por entusiasmo ou para bocejar. Há qualquer coisa de culto dos mortos na atribuição de genialidade a um homem, quando se admite tacitamente que hoje em dia tal coisa não existe. É como aquelas formas histéricas e exibicionistas do amor, que não têm outra razão de ser senão a de uma total ausência de sentimento. (p. 402).
VALOR. É preciso que o homem se sinta primeiro limitado nas
suas possibilidades, nos seus planos e sentimentos pela ação dos preconceitos,
das tradições, de dificuldades e constrangimentos, como um louco num colete de
forças, para que aquilo que ele consegue realizar tenha algum valor, maturidade
e solidez… (p. 47)
VIDA. Mas acontece que a vida nada constrói sem arrancar de
outro lugar qualquer as pedras de que precisa. (p. 150)
O homem sem qualidades (I)- Robert Musil (tradução de João Barrento, Publicações D. Quixote, 2008).