segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mew - Eight Flew Over, One Was Destroyed


A História é

"A História é uma câmara de reanimação e é fácil errar nas doses e mandar desta para melhor os pacientes que se queria salvar."

Claudio Magris, Às Cegas (Quetzal, 2012, pág. 24)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

As palavras transferidas. XVI - Última infância

Podem morrer-me os livros nas mãos
da noite inaugurais como as manhãs que já não vêm.
A mão esfria de folhear cabelo a cadáver.
Ler é ofício côncavo, uma mão a pedir esmola,
outra farta vilanagem a dobrar cada esquina de papel.
Ler é pouco menos que vaidade de profanar cemitérios.
Dos bons livros aprendi somente as ciências falíveis e as tabuadas de acaso
e caso me perguntem por elas, direi que esqueci
da própria geometria do esquecimento
planando redundâncias sobre os grandes mestres.
Podem morrer-me os livros nas mãos.
O prazer do jogo esconde a sua privação,
 inexprimível, patética,
o ajuste indizível da carne no golpe,
a implosão silenciosa da infância.
Podem morrer-me os livros nas mãos.
Podem morrer-me os livros nas mãos que a criança não volta.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Como ler um escritor

"[...] um leitor procurar num escritor, ou na sua obra, soluções para os seus problemas é uma invasão de privacidade. Eis a falácia subjacente a qualquer entrevista ou nota biográfica sobre um autor: aproximar demasiado a vida da obra, ou acreditar que um romance pode substituir os erros que uma pessoa tem de cometer na vida para aprender a sobreviver devidamente ou talvez até a ser feliz."

John Freeman em Como ler um escritor. (Tinta-da-china, 2013.)

sábado, 8 de junho de 2013

The Iceberg. Cobolt


A crise para totós

"Com efeito, a verdadeira solução para a crise da dívida é o crescimento, que pressupõe investimentos concorrenciais, os quais exigem infra-estruturas públicas. O desaparecimento da má dívida pressupõe, pois, o crescimento da boa dívida."

Jacques Attali, "Estaremos todos falidos dentro de dez anos? - Dívida pública: a última oportunidade" (Alêtheia Editores, Agosto 2010).

Duas conclusões sobre a Granta 1

1. "A vida é um tédio quando não há histórias para ouvir nem nada para ver." (Pág. 237, Orhan Pamuk in Gente Famosa.)

2. Contra todas as expetativas, a Granta mostra que o agora maiúsculo Valter Hugo Mãe afinal sai ao pai. (Pág. 296.)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Kaputt. Destroyer

Antes morrer

Eu sei: há palavras grandiosas
pelas quais se pode morrer.
Essas palavras inflamam
e a calma é cobardia
quando toca a reunir
sob as bandeiras regimentais.

Mas quem quer que conheça as velhas mães
deixadas entregues a si próprias
e os filhos sem pais
não acredita em nada do que dizem.

Eu sei: há grandes atos
e muitos exigem sacrifícios.
Eu sei: há atos heroicos
usados para consagrar
os ganhos de guerras inúteis
em longas tréguas.

Mas quem quer que tenha visto, de longe,
catedrais em ruínas
e cidades esmagadas em chamas
já não acreditará neles.

Eu sei: há grandes homens
com reivindicações de imortalidade.
Inscreveram-se nas épocas com o seu sangue;
e há um número mais do que suficiente deles
nos cemitérios de todos os países
à sombra de ilustres tílias.

Mas quem quer que tenha visto,
sob a espada ensanguentada,
o ferido a contorcer-se em agonia
conhece-as ainda melhor.

Eu sei: sou uma minúscula insignificância,
miserável e talvez desprezível.
Eu sei: estas minhas palavras
são um veneno perigoso
que pode envenenar
a vossa pomposa canção.

E, no entanto, antes morrer
com o vosso cuspo no meu rosto,
antes morrer como um cobarde
do que ter sangue nas minhas mãos.

Escrito por uma jovem desconhecida, à beira da câmara de gás. In Paisagens da Metrópole da Morte (Otto Dov Kulka, Temas e Debates, Abril 2013).

Escrito a lápis no vagão fechado

aqui nesta carrada
estou eu eva
com abel meu filho
se vires o meu outro filho
caim filho do homem
diz-lhe que eu.

Dan Pagis, citado por Otto Dov Kulka in Paisagens da Metrópole da Morte (Temas e Debates, Abril 2013, pág. 38).

segunda-feira, 11 de março de 2013

Percorri, com crescente velocidade, as ruas e praças desertas.

"Percorri, com crescente velocidade, as ruas e praças desertas. O cansaço depôs-me numa esquina. Vi uma gasta grade de ferro; por trás vi os ladrilhos pretos e brancos do átrio da Concepción. Tinha vagabundeado em círculo; agora estava a um quarteirão da taberna onde me tinham dado o Zahir.
Virei; a esquina às escuras indicou-me, de longe, que a taberna estava fechada. Na Rua Belgrano apanhei um táxi. Insone, possesso, quase feliz, penso que não há nada menos material que o dinheiro, visto que qualquer moeda (uma moeda de vinte centavos, digamos) é em rigor um repertório de futuros possíveis. O dinheiro é abstrato, repeti, o dinheiro é tempo futuro. Pode ser uma tarde fora de portas, pode ser música de Brahms, podem ser mapas, pode ser xadrez, pode ser café, podem ser as palavras de Epicteto, que ensinam o desprezo do ouro; é um Proteu mais versátil que o da ilha de Faros. É tempo imprevisível, tempo de Bergson, não o duro tempo do islão ou do Pórtico. Os deterministas negam que haja no mundo um só facto possível, id est um facto que pode ter acontecido; uma moeda simboliza o nosso livre-arbítrio."

Jorge Luis Borges, de"O Zahir", em O Aleph, Quetzal, 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

a opinião das estatísticas



Na opinião das estatísticas, esta é a música mais encontrada n´a rua deserta. Nada mau. Esta entrevista a Bauman é a mais pesquisada das inserções neste lugar de passagem. Este é o poema mais encontrado. Muito bem. A rua deserta teve 201 visualizações de páginas provenientes da Alemanha; posso chamar-lhes exportações?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As palavras transferidas. XV - Isolamento de contacto

Ainda há quem estreie a roupa ao domingo e espere visitas
para o desfile da múmia, a encenação das criaturas renascidas.
Nos hospitais, as manhãs internam-se debaixo do chuveiro
devagar entre os pensos e as veias puncionadas,
à vista um pijama pronto pendurado na porta.
À tarde vem a família junto à cama com as histórias possíveis,
luvas e batas descartáveis para que não se contaminem mais
do que com o silêncio que levarão para casa mais a roupa suja.
A vida não é fiável, diremos
depois do amor e das outras operações urgentes.

É como um velho estreando roupa ao domingo:
arruma-se alegre ao espelho
enquanto entrevê dali o saco no fundo do armário
com pijama, cuecas e chinelos à cautela,
ou discreto, no cabide, o fato que escolheu
para o mais prolongado isolamento de contacto.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Por Um Punhado De Euros. The Allstar Projetc

O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo

O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo
Não pode o escultor dar forma ao que não tem matéria
Todos os nossos gestos correspondem à paisagem e se não
perde-se a relação viva a consonância essencial

Senta-se alguém sobre uma pedra entre pinheiros
e tem em frente o mar e corre leve a brisa
Poderá estar cansado mas a paisagem limpa-lhe
a mente e aligeira as suas sombras

Quem olha ainda a linha imóvel das montanhas
e vê no mar a indolente ondulação de uma pantera
e vê as estrelas como se um leque se tivesse aberto
na cúpula celeste e o universo fosse uma árvore de astros?

A imaginação precisa da matéria prima
das substâncias da terra da visão material
e se queremos sentir que a pátria ainda está viva
temos de construir com a pedra a água o fogo o ar
a habitação aberta ao jogo do universo

António Ramos Rosa, in Pátria Soberana seguido de Nova Ficção (Quasi Edições, 2001).