segunda-feira, 11 de março de 2013

Percorri, com crescente velocidade, as ruas e praças desertas.

"Percorri, com crescente velocidade, as ruas e praças desertas. O cansaço depôs-me numa esquina. Vi uma gasta grade de ferro; por trás vi os ladrilhos pretos e brancos do átrio da Concepción. Tinha vagabundeado em círculo; agora estava a um quarteirão da taberna onde me tinham dado o Zahir.
Virei; a esquina às escuras indicou-me, de longe, que a taberna estava fechada. Na Rua Belgrano apanhei um táxi. Insone, possesso, quase feliz, penso que não há nada menos material que o dinheiro, visto que qualquer moeda (uma moeda de vinte centavos, digamos) é em rigor um repertório de futuros possíveis. O dinheiro é abstrato, repeti, o dinheiro é tempo futuro. Pode ser uma tarde fora de portas, pode ser música de Brahms, podem ser mapas, pode ser xadrez, pode ser café, podem ser as palavras de Epicteto, que ensinam o desprezo do ouro; é um Proteu mais versátil que o da ilha de Faros. É tempo imprevisível, tempo de Bergson, não o duro tempo do islão ou do Pórtico. Os deterministas negam que haja no mundo um só facto possível, id est um facto que pode ter acontecido; uma moeda simboliza o nosso livre-arbítrio."

Jorge Luis Borges, de"O Zahir", em O Aleph, Quetzal, 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

a opinião das estatísticas



Na opinião das estatísticas, esta é a música mais encontrada n´a rua deserta. Nada mau. Esta entrevista a Bauman é a mais pesquisada das inserções neste lugar de passagem. Este é o poema mais encontrado. Muito bem. A rua deserta teve 201 visualizações de páginas provenientes da Alemanha; posso chamar-lhes exportações?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As palavras transferidas. XV - Isolamento de contacto

Ainda há quem estreie a roupa ao domingo e espere visitas
para o desfile da múmia, a encenação das criaturas renascidas.
Nos hospitais, as manhãs internam-se debaixo do chuveiro
devagar entre os pensos e as veias puncionadas,
à vista um pijama pronto pendurado na porta.
À tarde vem a família junto à cama com as histórias possíveis,
luvas e batas descartáveis para que não se contaminem mais
do que com o silêncio que levarão para casa mais a roupa suja.
A vida não é fiável, diremos
depois do amor e das outras operações urgentes.

É como um velho estreando roupa ao domingo:
arruma-se alegre ao espelho
enquanto entrevê dali o saco no fundo do armário
com pijama, cuecas e chinelos à cautela,
ou discreto, no cabide, o fato que escolheu
para o mais prolongado isolamento de contacto.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Por Um Punhado De Euros. The Allstar Projetc

O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo

O homem que perdeu o sentido da terra perdeu tudo
Não pode o escultor dar forma ao que não tem matéria
Todos os nossos gestos correspondem à paisagem e se não
perde-se a relação viva a consonância essencial

Senta-se alguém sobre uma pedra entre pinheiros
e tem em frente o mar e corre leve a brisa
Poderá estar cansado mas a paisagem limpa-lhe
a mente e aligeira as suas sombras

Quem olha ainda a linha imóvel das montanhas
e vê no mar a indolente ondulação de uma pantera
e vê as estrelas como se um leque se tivesse aberto
na cúpula celeste e o universo fosse uma árvore de astros?

A imaginação precisa da matéria prima
das substâncias da terra da visão material
e se queremos sentir que a pátria ainda está viva
temos de construir com a pedra a água o fogo o ar
a habitação aberta ao jogo do universo

António Ramos Rosa, in Pátria Soberana seguido de Nova Ficção (Quasi Edições, 2001).

domingo, 30 de setembro de 2012

circo

O circo é uma pequenina arena fechada, lugar de esquecimento. Durante alguns instantes permite que nos abandonemos, que nos dissolvamos em maravilha e felicidade, transportados pelo mistério. Saímos de lá como que envoltos numa neblina, entristecidos e horrorizados pela face quotidiana do mundo. Mas este velho mundo quotidiano, este mundo com o qual julgamos estar por de mais familiarizados, é o único que existe - e é um mundo de magia, de magia inesgotável. Como o palhaço, vamos fazendo as nossas cabriolas, simulando sempre, adiando sempre o grande acontecimento. Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados sempre. Sempre do lado de fora.

Henry Miller, O sorriso aos pés da escada (do Epílogo).

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Nacionalizar a SIBS

Se o que a SIBS faz é taxar o processamento dos pagamentos eletrónicos aos comerciantes como forma de remuneração da disponibilização deste serviço, poderemos entender isto como (mais) um imposto às empresas?
Se esta taxa paga pelas empresas varia consoante o poder negocial de cada empresa ou os escalões de pagamento atingidos, sendo assim tendencialmente mais generosa para os maiores grupos económicos, não é também isto uma violação constitucional do princípio da igualdade?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

déjà vu



As novidades não cheiram a novo. Repetições de repetições, fragmentos referenciais, o mesmo contado por outro, as mesmas técnicas e ferramentas noutra voz. Que fazer? Andar por aí, contemplar as fórmulas até ao cansaço, meter o bedelho no mundo e ir cheirando as novidades.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Contra Miguel Real (3): uma bananice

Miguel Real diz:

"3. Contraditando o novo realismo, surge um realismo de tipo jornalístico, centrado numa história relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, continuador do estilo dos romances portugueses até à década de 50, cuja publicação anacrónica prossegue até 2010. Citemos alguns dos autores deste tipo de romance, designado por «romance de mercado» porque escrito em obediência aos fluxos de vendas deste (verão, Natal), e, negativamente, designado por «romance light»: Margarida Rebelo Pinto, Tiago Rebelo, Maria Roma, José Rodrigues dos Santos, Júlia Pinheiro, Moita Flores, Júlio Magalhães, Pedro Pinto, Manuel Arouca, Isabel Stilwell, Maria João Lopo de Carvalho, Luís Miguel Rocha, Daniel Silva (A Marca do Assassino, 2007; O Artista da Morte, 2008; O Assassino Inglês, 2009; As Regras de Moscovo, 2010; O Confessor, 2011).
É um conjunto de autores que vive literariamente o presente, refletindo-o no conteúdo social dos seus romances e, voluntariamente ou por ignorância cultural, desconhece os veios nervosos tradicionais da cultura portuguesa do passado. [...]"

Eu diria:

Contraditando o novo ensaismo, ressurge um ensaismo do tipo elitista, centrado num conhecimento relativamente simples, por vezes excessivamente sentimental, ressuscitando memórias românticas do século XIX, desenvolvido num léxico transparente, não raro superficial, designado por ensaio light, como este "O romance português contemporâneo 1950-2010", o livro que afirma Daniel Silva como escritor português.

Contra Miguel Real (2): contra uma censura da crítica

Miguel Real diz:

“Neste sentido, o respeito pelo romance de mercado deve ser acompanhado pela ideia bem clara de que este, se desempenha uma função consolatória e catártica socialmente útil (como se comprova pelo número de venda de exemplares deste tipo de narrativa), não desempenha uma função esteticamente útil, isto é, em nada contribui para a história da literatura. O esclarecimento deste facto, porém, não deve contribuir nem para a vexação da obra nem para a humilhação do nome do autor – ambos, como referimos, devem merecer o devido respeito pela parte do crítico literário e do professor de literatura, mas não, evidentemente, a sua veneração. Normalmente, face a esta tensão entre o respeito, a crítica negativa e a veneração, a crítica literária deve ignorar este tipo de literatura, já que, se escrevesse sobre ele, seria obrigada a apontar um conjunto de habituais defeitos estilísticos, de pobreza lexical e de um restritíssimo campo histórico-semântico que, evidentemente, mancharia o nome do autor e reprovaria a edição do romance.” (O romance português contemporâneo 1950-2010, págs. 37 e 38).

Contra esta higienização da crítica (já de si suja pelo amiguismo deste país pequeno), eu diria:

A crítica literária, para ser crítica, não deve ignorar literatura nenhuma e dizer o que acha que deve dizer.

Contra Miguel Real (1): contra uma censura da leitura


Em "O romance português contemporâneo 1950-2010" (Caminho, 2012), o ensaista Miguel Real diz:

“Um grande romance deixa o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica ou um deserto mental de que não sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da sua existência.” (pág. 37)

Eu diria:

Um grande romance pode deixar o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica, uma terra de alguém ideológica, a sua própria terra ideológica ou até mesmo terra nenhuma, ou um deserto mental de que não sabe ou sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da existência do romance, e no limite da sua.

Dito isto, apenas concordo com o emprego do verbo forçar: um grande romance força o leitor ao espanto.

domingo, 1 de julho de 2012

bastarmo-nos

"Chegou, portanto, a catástrofe e no momento em que se assegurava que os corações iam bater em uníssono. Logo vemos se poderemos continuar a ir a voar para Mataró, como diziam os nossos avós. E agora a elucubração é em sentido contrário. Agora temos de nos fechar em nós próprios, bastarmo-nos a nós mesmos, partir da ideia de que tudo o que fora tomado por bom até agora é prejudicial e o contrário: que tudo o que até agora foi mal visto é excelente.
Há razões, parece-me, para ficar perplexo. O mundo de hoje é um mundo dominado pela perplexidade. Porém, algo se ganhou. As ilusões desvaneceram-se. Em muitos aspectos da vida a eliminação das ilusões é saudável e positiva. Há que reservar as ilusões para com elas temperar as paixões do amor e humanizar a ironia, para falar com os amigos, para simplificar a vida."

Termina assim o livro "Viagem de autocarro", de Josep Pla (Tinta da China, 2011).

Shooting Rockets (From The Desk Of Night's Ape). Destroyer