segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Contra Miguel Real (1): contra uma censura da leitura


Em "O romance português contemporâneo 1950-2010" (Caminho, 2012), o ensaista Miguel Real diz:

“Um grande romance deixa o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica ou um deserto mental de que não sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da sua existência.” (pág. 37)

Eu diria:

Um grande romance pode deixar o leitor a habitar uma terra de ninguém ideológica, uma terra de alguém ideológica, a sua própria terra ideológica ou até mesmo terra nenhuma, ou um deserto mental de que não sabe ou sabe como sair, forçando-o a repensar partes ou a totalidade da existência do romance, e no limite da sua.

Dito isto, apenas concordo com o emprego do verbo forçar: um grande romance força o leitor ao espanto.

domingo, 1 de julho de 2012

bastarmo-nos

"Chegou, portanto, a catástrofe e no momento em que se assegurava que os corações iam bater em uníssono. Logo vemos se poderemos continuar a ir a voar para Mataró, como diziam os nossos avós. E agora a elucubração é em sentido contrário. Agora temos de nos fechar em nós próprios, bastarmo-nos a nós mesmos, partir da ideia de que tudo o que fora tomado por bom até agora é prejudicial e o contrário: que tudo o que até agora foi mal visto é excelente.
Há razões, parece-me, para ficar perplexo. O mundo de hoje é um mundo dominado pela perplexidade. Porém, algo se ganhou. As ilusões desvaneceram-se. Em muitos aspectos da vida a eliminação das ilusões é saudável e positiva. Há que reservar as ilusões para com elas temperar as paixões do amor e humanizar a ironia, para falar com os amigos, para simplificar a vida."

Termina assim o livro "Viagem de autocarro", de Josep Pla (Tinta da China, 2011).

Shooting Rockets (From The Desk Of Night's Ape). Destroyer

terça-feira, 12 de junho de 2012

Esta viagem


Esta viagem não responde às minhas perguntas.

Trespassei o aço das certezas.
Heranças, devorei-as.

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia
Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

Prescrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

Ao encontro da linguagem da tribo azul
cada passo me afasta de um rito sagrado.

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:
a fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada.


Esta viagem. Conceição Lima in O País de Akendenguê (Caminho, 2011).
Imagem no desfiladeiro de Petra (02.06.2012).

Jerusalém. 4.06.2012

Petra. 02.06.2012




Monte Nebo


"Em seguida, Moisés subiu das planícies de Moab a uma montanha de onde se via a Terra Prometida. Daquele ponto Deus mostrou-lhe toda a região que se estendia para ocidente, desde o rio Jordão até ao Mar Mediterrâneo, cem quilómetros mais longe, e a cidade de Jericó alguns quilómetros para norte, do outro lado do rio Jordão: «a cidade das palmeiras». Então, Deus disse a Moisés: «Esta é a terra que jurei dar a Abraão, Isaac e Jacob. Dá-la-ei à vossa descendência.» Quanto ao próprio Moisés, Deus disse-lhe: «Viste-a com os teus olhos, mas não entrarás nela.»" In Os 5000 anos de história e fé do povo judeu. Martin Gilbert, Alêtheia, 2011.

Foto: memorial no monte onde Moisés avistou a Terra Prometida. 1.06.2012.

deserto


"Mas era assim que o mundo resolvia as questões do Médio Oriente: a Jordânia, ou Transjordânia, foi criada de forma arbitrária pelos ingleses - sim, pelo próprio Winston Churchill, provavelmente com um lápis, entre bebidas. «Pronto, vamos dar esta parte aqui àqueles hachemitas.» Por isso, agora existe uma nação «legítima» naquela zona." Saul Bellow, Jerusalém ida e volta (Tinta da China, 2011, p.68).


Fotos: Pelo deserto de Wadi Rum, deserto da Jordânia. 3.06.2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Adiamento

Esta tarde pensei em voltar aos poemas quando chutei a ponta de um cigarro
no Largo da Portagem e a vi sumir-se entre as pedras.
No percurso até ao carro fui mapeando a calçada mas eu já não sei
se vim pelas pedras, se me afundei pelas fendas.
Volto de Coimbra como se ainda viesse atrás de um carro funerário
na marcha lenta dos Covões. Felizmente posso parar
numa área de serviço e comer qualquer coisa só para praguejar do preço
e sair satisfeito mais pelo encolher de ombros das funcionárias do que pela sandes,
e de pensar que se estivesse em 1986, de modo nenhum eu viria
pela autoestrada. Isto porque anda aqui a biografia do Assis Pacheco
e uma catrefada de leituras no trólei.
O lugar das coisas adiadas é nas fendas, entre as pedras - digo para mim
e acrescento o meu nome completo.
Depois chego à Nazaré,
onde os poemas começam e se adiam.