domingo, 6 de novembro de 2011

É de noite que faço as perguntas. David Soares, Saída de Emergência, 2011

"Histórias não são memórias. Não posso dá-las porque não as tenho, meu filho. Desapareceram. Para onde foram os meus sonhos? Onde estão as pessoas que amei? Não ficamos com nada. Quem escolhe as memórias que perduram e as que morrem? Somos nós. Só nós. Sim. É de noite que faço as perguntas. Apenas me esforço por esquecer as respostas... antes que amanheça."

Termina assim esta bela deambulação ilustrada pelos ideais.
Aqui um espaço do autor.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

referências reverências

Não me apetece escrever. E preocupa-me que no escrever as referências se tornem em mimadas reverências.

Não sei se alguém foi ao café avisar o René que esta semana morreu o David Croft, o criador do ´Allo ´Allo! Fica a referência e - assim, sim - a reverência. E aqui a bela da musiquinha.

sábado, 13 de agosto de 2011

Jogos de guerra

Ainda há índios e pistoleiros no quintal
da criança cerrada que destruía canteiros
cavando trincheiras, plantava flechas,
semeava granadas com seixos e pinhas e latas e
lenha na mola dos braços.

Vergou couves capturando inimigos!
Sinais de fumo na fogueira do lixo!
Valeu tudo no quintal - perdeu dos dois lados:
não faças a guerra sozinho porque alguém tem de morrer.

Mas saltou o ribeiro heroicamente, quantas vezes
atirou aos eucaliptos e dispersou entre as canas -
havia que apanhá-lo ou fugir de si.

Explorava a fantasia e fugia, assustado
aprendeu que o medo paralisa quem se faz perseguir
e o jogo era esse: acreditar para ter medo,
no tempo em que as guerras ainda paravam para almoço,
que o comer está na mesa e não é de esperas.

Ainda há índios e pistoleiros no quintal
e hoje sabe tanto sobre índios e pistoleiros como dantes:
que é ele só a vingar-
-se numa guerra automática
que agora não pára
nem para comer.

Quando disseram que a infância era o cerco de toda a existência,
o cerco chamou de solidão à infância,
a existência chamou de laboratório ao cerco
e a infância chamou de evidência à existência.

Quando disseram que a solidão era o laboratório de toda a evidência,
a evidência chamou de isolamento dos corpos à solidão,
a solidão chamou de treva ao laboratório
e o laboratório chamou de pretexto à evidência.

Quando disseram que o isolamento dos corpos é a treva de todo o pretexto,
o isolamento dos corpos chamou de desculpa ao pretexto,
o pretexto chamou de combustível à treva
e a treva chamou de silêncio ao isolamento dos corpos.

Quando disseram que o silêncio é o combustível de toda a desculpa,
o silêncio - claro - não chamou nada a ninguém,
o combustível consumiu-se
e a desculpa cumpriu-se igualmente no fim de todos os insultos:
- Desculpem - é que ainda há índios e pistoleiros no quintal,
o medo para picar.

A casa

sei dum pinheiro que pinta
de sombra a casa de cal
não lhe fica cara a tinta
rouba a do sol que há no vale

sei que num vale um pinheiro
chamou-se noite de dia
curvou o seu corpo inteiro
sobre a cal da moradia

sei que de cal uma casa
toldou-se-lhe o céu sem dó
uma sombra cai e arrasa-a
de tão negra, fica só

sei dum vale muito gelado
onde nem a água corre
e fria, no rio parado
veste-se de terra e morre

sei duma casa sozinha
num vale onde vai ninguém
foi-se a cal que a casa tinha
sumiu-se a casa também

Stig Dagerman e a solidão

"Estamos sozinhos, lançados no espaço como uma bóia no mar, expostos como um alvo às setas, já não podemos escapar à nossa sorte e tudo pode acontecer. É de esperar que águias ou falcões desçam das estrelas e se precipitem em fúria sobre nós uma vez que somos o único objecto macio que existe no mundo, o único objecto no qual poderá cravar-se um bico ou penetrar uma garra, é de esperar também que meteoritos ou outra coisa qualquer nos dilacerem o peito nu e virado para o infinito, mas a única coisa que acontece é o espaço começar a cantar, a cantar de solidão. «A única coisa»... não, não se trata de um pormenor insignificante, mas de um facto terrível.
Um pouco de música, pensamos, podíamos realmente suportar um pouco de música: mas não, não é verdade: não podemos suportar a música, somos apenas forçados a suportá-la. «O espaço», esse conceito ridículo com o qual as pessoas se atrevem a brincar quando percorrem pântanos e florestas, parques e instalações frigoríficas, ou quando estão sentadas numa cadeira de balouço e vêem o céu por cima das sebes de lilases, o espaço, esse pequeno lago onde idílicos batéis de nuvens deslizam sob o impulso do vento, o espaço tal como nos surge, quando nunca saímos ainda do buraquinho onde nascemos, onde crescemos, onde maltratámos e fomos maltratados e onde dentro de pouco tempo morreremos, esse espaço não passa de mentira para quem viveu a infinita solidão do espaço, acorrentado a um campo metálico cintilante, sozinho na imensidão mais árida de todos os desertos, e debruçamo-nos na esperança de descobrirmos água, de vermos qualquer coisa de sólido em vez deste vazio pavoroso neste espaço cuja extensão atroz nunca ousámos imaginar enquanto vivíamos no nosso buraco, porque é como um poço sem fundo; debruçamo-nos cada vez mais, a tal ponto que acabamos por cair, e uma vez caídos, continuamos a cair toda a vida sem termos outra coisa para viver além dessa queda sem fim, até ao dia em que morremos em plena queda sem jamais chegarmos a atingir fundo algum, porque somos aniquilados durante a própria queda e devorados pelo vazio depois de termos desesperadamente tentado dar-lhe sentido esforçando-nos por chegar ao fundo.
E todavia, não captamos a desmesura deste espaço nem ao cair, nem ao ficarmos amarrados a ele, nem quando o sentimos pesar no peito, não, é só quando o espaço começa a cantar que descobrimos tudo o que nunca tínhamos conseguido supor, e de repente tudo nos surge com uma certeza esmagadora, e esta certeza far-nos-ia rebentar como um balão se desfecho semelhante fosse possível. Mas quando se está assim miseravelmente colado ao íman, nada a fazer: devemos limitar-nos a ouvir, nem sequer podemos mexer as mãos para tapar os ouvidos e, aliás, isso nada mudaria, porque de cada vez que o espaço canta de solidão, transformamo-nos num grande ouvido à escuta, e para o conseguirmos tapar e deixar de ouvir, seria preciso pelo menos um meteorito, um corpo celeste - quem sabe, talvez uma estrela bastasse? E o canto... oh, é um canto tão belo, mas tão atroz, tão mais belo e tão mais terrível do que tudo o resto que se ao menos pudéssemos morrer... mas estamos condenados a continuar assim eternamente, vivos, enquanto o canto se engolfa dentro de nós como a água na turbina, e julgamos que será sempre assim, que o espaço para sempre cantará de solidão e que nós próprios, ouvidos indefesos numa superfície implacavelmente nua, ficaremos a escutar um canto implacavelmente belo, e que a ausência de eco, de alterações atmosféricas e de dores de ouvidos tornam ainda mais implacável.
Mas de uma maneira ou de outra, devemos ter acabado por nos ver livres desta solidão, ou talvez simplesmente adormecido, para acordarmos no nosso buraco e vermos o habitual raiozinho da eternidade a sorrir-nos entre as persianas e o rebordo da cama.
Já não estamos sós, pensamos então, a ingrata aventura terminou, o triste episódio passou - e a vida continua, de dia para dia um pouco menos solitária; mas a verdade é que as coisas não acabaram ainda, estão apenas a começar. Estamos no quarto ou saímos do quarto, tanto faz, encontramos gente ou não vemos ninguém, é indiferente, falamos com a parede ou calamo-nos diante da parede, comemos e bebemos ou só bebemos, escrevemos uma carta ou limitamo-nos a comprar um selo, começamos uma viagem ou ficamo-nos pela compra de um bilhete, saímos e dançamos ou vamos só até à sala de dança sem dançar, fazemos uma coisa ou não a fazemos, descuramos a maior parte dos assuntos ou nada omitimos: nada disso muda seja o que for, é tudo completamente indiferente, porque continuaremos sempre a sentir esse muro de vidro que nos separa dos outros, esse vidro duro que trazemos sempre connosco, através do qual vemos e somos vistos desde que o trouxemos connosco da nossa visita ao espaço. Estamos isolados como doentes e é justo que assim seja, uma vez que estamos mais doentes do que a maioria; também podemos dizer, por conseguinte: estou isolado como um condenado à morte, e é justo que assim seja, mereço mais a morte do que todos os outros.
E eis-nos de novo sós, mas a solidão é muito pior do que da vez anterior, o espaço não canta de solidão, o espaço não canta seja o que for, o espaço chove, neva, venta - mas isso nada nos diz. Estamos sozinhos de uma maneira acanhada, inestética e pois que seja como for não há salvação (admitindo que escapar à solidão seja salvarmo-nos), não é de admirar que ansiemos pelo grande espaço com a sua música diabólica mas sublime, com o seu isolamento implacável mas higiénico, com a sua ausência total de vida, sem dúvida, mas ao mesmo tempo com uma ausência igualmente absoluta de toda a obrigação de buscar contactos, de toda a necessidade de sorrir quando queremos chorar, de acariciar quando queremos arranhar, de procurar amigos quando acabamos justamente de descobrir que o mundo está cheio de inimigos.
Aspiramos aos instantes de completo abandono, aos instantes de solidão brutal e sublime com toda a intensidade da sua esperança e todo o ardor dos seus olhos, partilhamos um segredo perigoso, fomos iniciados no modo de emprego de um veneno temível chamado solidão e, como morfinómanos, dividimos doravante a vida em dois períodos: a embriaguez e a recuperação."

In "Os fogos da noite". A ilha dos condenados, Stig Dagerman, Antígona, 1990.



Stig Dagerman e o desgosto

"Ao fim de algum tempo, o desgosto fecha-se como a flor antes da noite, não se couraça, mas reveste-se de um envólucro novo como uma pétala sob a qual podemos senti-lo pulsar, continua a fazer parte de nós, permanece fresco e vivo e nele podem molhar-se os lábios como na limpidez de uma fonte; só que passa agora a ser possível, até certo ponto pelo menos, escolhermos o instante em que queremos estar com ele. É perigoso, contudo, deixá-lo de lado demasiado tempo, um desgosto recente tem de ser cuidadosamente tratado, é preciso ir buscá-lo de vez em quando como um objecto precioso e poli-lo como um espelho, caso contrário não tardará a cobrir-se de uma membrana espessa, operando-se assim o couraçamento, o que de resto, mais cedo ou mais tarde, é inevitável.
E quando o couraçamento se instaura, eis-nos de certo modo outra vez no ponto de partida, longe do desgosto no espaço e no tempo, mas tornando-se todas as coisas ainda mais desesperantes porque sabemos nessa altura que nada mais temos a esperar. Em vez do desespero surdo e pesado do início, entramos num terrivel período de apatia, de inércia, de expectativa, e vivemos então segundo a perspectiva de que nada mais acontecerá. Tudo se torna indiferente, tudo em redor se crispa e endurece, queremos colher, mas há só morte para colher, queremos ver, mas o olhar esbarra na dureza do objecto, queremos amar, mas descobrimos que não somos capazes porque nós próprios estamos cobertos por uma membrana dura, todos os sentimentos gelaram dentro de nós, estamos gastos e ressequidos e nada, nem sequer a nossa horrível solidão, consegue ao menos fazer-nos tremer.
Claro, também isto não dura eternamente, desde há muito já pequenas correntes laboriosas agem sob a couraça e por baixo do gelo: por fim tudo explode e, pela última vez, reencontramos o desgosto. Mas desta vez não ficamos tolhidos, o corpo não participa já com o mesmo grau de brutalidade, dir-se-ia que os músculos, os vasos sanguíneos e os membros, outrora tensos de desgosto, já não têm forças para intervir. Tudo se passa agora no plano da memória, voltamos incansavelmente ao terreno devastado, remexemos as ruínas calcinadas onde os destroços deformados de uma vida jazem sobrepostos como serpentes por baixo da fuligem e das traves."

De "O desgosto do sol poente". A ilha dos condenados, Stig Dagerman, Antígona, 1990.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Londres, à luz de Bauman

Uma vez que o Estado vai cedendo a sua função de integração a forças do mercado intrinsecamente desreguladoras e privatizadoras, o terreno abandonado passa a poder ser preenchido por “comunidades”, não tanto “imaginadas” como postuladas, que se apoderam da tarefa posta de parte de fornecer garantias colectivas às identidades privatizadas. O pensamento pós-moderno nada em sonhos de verdades e certezas locais que esperam fazer o trabalho civilizador que as grandes verdades e certezas dos Estados-nação, com as suas pretensões ao papel de porta-vozes da universalidade, não conseguiram levar a cabo: assegurar uma tal unidade de pensamento, sentimento, vontade e acção que qualquer tipo de violência gratuita passasse a ser inconcebível. Mas as comunidades postuladas neotribais esvaziarão decerto essa esperança. O neotribalismo é uma má perspectiva para todos os que desejam ver o discurso e o debate substituir as facas e as bombas como armas de afirmação de si.



As novas classes perigosas, por outro lado, são as que se consideram como não aptas para a integração, por isso sendo declaradas inassimiláveis, já que não parece concebível qualquer função que pudessem vir a desempenhar depois de reabilitadas. Não são apenas excedentárias, mas também supérfluas. Deste modo, vêem-se excluídas permanentemente, portanto: e trata-se de um dos poucos casos de permanência que a modernidade líquida não só permite, mas também vivamente fomenta. Este actual tipo de exclusão não é visto como resultado de uma má sorte passageira, mas antes como um destino irrevogável. Mais ainda, a exclusão tende, hoje em dia, a ser um beco sem saída. Quando se queimam os navios, é muito difícil voltar a construí-los. A inexorabilidade da ordem de despejo e as perspectivas pouco animadoras de qualquer tentativa de recorrer da sentença são o que converte os actuais excluídos em classes perigosas.

domingo, 31 de julho de 2011

Octavio Paz e o todo

"Ao nascer, fomos arrancados da totalidade; no amor, todos nos sentimos regressar à totalidade original. Por isto, as imagens poéticas transformam a pessoa amada em natureza - montanha, água, nuvem, estrela, selva, mar, onda - e, por sua vez, a natureza fala como se fosse mulher. Reconciliação com a totalidade que é o mundo. Também com os três tempos. O amor não é a eternidade; tão-pouco é o tempo dos calendários e dos relógios, o tempo sucessivo. O tempo do amor não é grande nem pequeno: é a percepção instantânea de todos os tempos num único, de todas as vidas num instante. Não nos liberta da morte, mas faz-nos vê-la cara a cara. Esse instante é o reverso e o complemento do «sentimento oceânico». Não é o regresso às águas da origem mas a conquista de um estado que nos reconcilia com o exílio do paraíso. Somos o teatro do abraço dos opostos e da sua dissolução, resumidos numa única nota que não é de afirmação nem de negação, mas de aceitação. Que vê o casal no momento de um bater de pálpebras? A identidade do aparecimento e do desaparecimento, a verdade do corpo e do não-corpo, a visão da presença que se dissolve num esplendor: vivacidade pura, pulsação do tempo."

In A chama dupla. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e a desdita

"Pouco podemos contra os infortúnios que o tempo reserva a cada homem e a cada mulher. A vida é um risco permanente, viver é expor-se. A abstenção do ermitão acaba em delírio solitário, a fuga dos amantes em morte cruel. Outras paixões podem seduzir-nos e arrebatar-nos. Umas superiores, como o amor a Deus, ao saber ou a uma causa; outras baixas, como ao dinheiro ou ao poder. Em nenhum desses casos desaparece o risco inerente à vida: o místico pode descobrir que corria atrás de uma quimera, o saber não defende o sábio da decepção que é todo o saber, o poder não salva o político da traição do amigo. A glória é uma cifra frequentemente equivocada e o esquecimento é mais forte que todas as reputações. As desditas do amor são as desditas da vida."

In A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o egoísmo

"O grande perigo que espreita os amantes, a armadilha mortal em que muitos caem, é o egoísmo. O castigo não se faz esperar: os amantes não vêem nada nem ninguém que não seja eles mesmos até que se petrificam... ou se detestam. O egoísmo é um poço. Para sair para o ar livre, há que olhar para além de nós mesmos: lá está o mundo e ele espera-nos."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o amor

"O amor não busca nada mais além de si mesmo, nenhum bem, nenhum prémio; tão-pouco persegue uma finalidade que o transcenda. É indiferente a toda a transcendência: principia e acaba nele mesmo. É uma atracção por uma alma e um corpo; não uma ideia: uma pessoa. Essa pessoa é única e está dotada de liberdade; para a possuir, o amante tem que ganhar a sua vontade. Posse e entrega são actos recíprocos."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz, Assírio & Alvim, 1995.

Octavio Paz e o teatro do abraço

"O encontro erótico começa com a visão do corpo desejado.Vestido ou nu, o corpo é uma presença: uma forma que, por um instante, é todas as formas do mundo. Mal abraçamos essa forma, deixamos de nos aperceber dela como presença e agarramo-la como uma matéria concreta, palpável, que cabe nos nossos braços e que, todavia, é ilimitada. Ao abraçar a presença, deixamos de vê-la e ela própria deixa de ser presença. Dispersão do corpo desejado: vemos somente uns olhos que nos olham, uma garganta iluminada pela luz de uma lâmpada e depressa regressada à noite, o brilho de uma coxa, a sombra que desce do umbigo ao sexo. Cada um destes fragmentos vive por si só mas alude à totalidade do corpo. Esse corpo que, de súbito, se tornou infinito. O corpo do meu par deixa de ser uma forma e converte-se numa substância informe e imensa na qual, ao mesmo tempo, me perco e me recupero. Perdemo-nos como pessoas e recuperamo-nos como sensações. À medida que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos faz-se mais e mais imenso. Sensação de infinidade: perdemos o corpo nesse corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a perda do corpo. Também é a experiência da perda da identidade: dispersão das formas em mil sensações e visões, queda numa substância oceânica, evaporação da essência. Não há forma nem presença: há a onda que nos embala, a cavalgada pelas planícies da noite. Experiência singular: inicia-se pela abolição do corpo do nosso par, transformado numa substância infinita que palpita, expande-se, contrai-se e encerra-nos nas águas primordiais; um instante depois, a substância desvanece-se, o corpo volta a ser corpo e reaparece a presença. Somente podemos aperceber-nos da mulher amada como forma que esconde uma alteridade irredutível ou como substância que se anula e nos anula."

in A chama dupla - amor e erotismo. Octavio Paz (Assírio & Alvim, 1995).

Octavio Paz e a poesia

"Passaram os anos. Continuei a escrever poemas que, com frequência, eram poemas de amor. Neles apareciam, como frases musicais recorrentes - também como obsessões -, imagens que eram a cristalização das minhas reflexões."

"Para mim a poesia e o pensamento são um sistema de vasos comunicantes. A fonte de ambos é a minha vida: escrevo acerca do que vivi e vivo. Viver é também pensar e, às vezes, atravessar essa fronteira na qual pensar e sentir se fundem: a poesia."

"Sem dúvida, a poesia é feita de palavras enlaçadas que lançam reflexos, cintilações e cambiantes: o que nos mostra são realidades ou espelhismos? Rimbaud disse: Et j´ai vu quelquefois ce que l´homme a cru voir. Fusão de ver e crer. Na conjunção destas duas palavras está o segredo da poesia e dos seus testemunhos: aquilo que o poema nos mostra não o vemos com os nossos olhos de carne mas com os do espírito. A poesia faz-nos tocar o impalpável e escutar a maré do silêncio cobrindo uma paisagem devastada pela insónia. O testemunho poético revela-nos outro mundo dentro deste mundo, o mundo outro que é este mundo."

in A Chama Dupla - amor e erotismo. Octavio Paz (Assírio & Alvim, 1995).