segunda-feira, 23 de maio de 2011


Fotos: Mesquita Azul. 17.05.2011


Fotos: Mesquita Azul. 17.05.2011

Turkey

“«Perus. Na Turquia!», exclamei. «Pergunto a mim mesmo se é por isso que se chamam…»
Mas não é. Estas aves receberam o seu nome da pintada-comum africana que, importada através de Istambul, se chamava galo-da-Turquia.”

in O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux (Quetzal, 2011).

O pai dos Turcos


“Foi no caminho para Üsküdar que tive a percepção do que até aí me aborrecia na Turquia. O pai dos Turcos, que é o que o seu apelido significa, foi Mustafá Kemal Atatürk, e, seja onde for que se vá na Turquia, vêem-se fotografias, retratos e estátuas dele; está em cartazes, em selos, em moedas – sempre o mesmo perfil contraído de banqueiro. O seu nome é dado a ruas e praças e entra em quase todas as conversas que se têm no país. O rosto tornou-se emblemático, em forma de estrela amolecida, com as sugestões de um nariz e um queixo, e é omnipresente como o carácter simplificado que os chineses usam para espantar diabos. Atatürk chegou ao poder em 1923, declarou a Turquia uma república, e, por via da modernização, encerrou todas as escolas religiosas, dissolveu ordens dervixes e introduziu o alfabeto latino e o código civil suíço. Morreu em 1938 e foi essa a minha percepção: a modernização parou na Turquia com a morte de Atatürk, às nove horas e cinco minutos de 10 de Novembro de 1938. Como que para demonstrar isso, o quarto em que morreu está como o deixou e todos os relógios do palácio estão nas 9h05. Isto parecia explicar a razão pela qual os Turcos se vestem tipicamente como se vestiam as pessoas em 1938, com camisolas castanhas peludas e meias com padrão de losangos, com calças largas listradas e fatos azuis de sarja com ombros enchumaçados, ostentando lapelas que parecem asas e um lenço de três pontas no bolso de lenço. O cabelo é ondulado, com brilhantina, e o bigode, encerado. […] Isto tudo leva uma pessoa à conclusão inevitável de que, se o zénite da elegância otomana foi o reinado no século XVI de Suleimão o Magnífico, a maré alta da elegância moderna foi em 1938, quando Atatürk ainda estava a moldar a moda turca com base nos tímidos modelos do Ocidente.”

in O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux (Quetzal, 2011).
Ao alto, a minha fotografia da imagem do rosto de Atatürk. Tirada em 15 de Maio 2011, num miradouro de Antalya.

domingo, 22 de maio de 2011

A verdade contrafeita

À saída do Éfeso. 14.05.2011

Porta-chaves para todos os tipos de fechaduras

13.05.2011

Píndaro e o destino


"A bênção não aparecerá aos homens sem esforço, e é um
deus que a cumpre hoje, seguramente. O que está destinado
não pode ser evitado, mas o tempo, num golpe inesperado,
há-de conceder-nos algumas coisas que contrariam todas as
expectativas. Outras, porém, não ainda."

Excerto de "XII. Para Midas de Agrigento, vencedor no concurso de flauta" (490 a.C.). In Odes. Píndaro (tradução de António de Castro Caeiro, Quetzal, 2010).

Em cima, a minha fotografia (13.05.2011) da imagem de Píndaro no Museu de Afrodísias.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O intérprete

Esta semana no Babelia
http://www.elpais.com/articulo/portada/Pietro/Citati/lector/infatigable/jovial/elpepuculbab/20110507elpbabpor_36/Tes

Pietro Citati, un lector infatigable y jovial

CARLOS GARCÍA GUAL 07/05/2011

Ensayo. La luz de la noche no trata de los grandes mitos, como dice el subtítulo añadido, sino de algunos de los más espléndidos relatos de la tradición literaria universal, desde los antiguos griegos a Leopardi, a través de famosos textos cristianos, orientales, árabes, hebreos, y crónicas de Indias. Pero, como Citati recuenta esas historias inmortales de tan largos ecos, podría acaso decirse que esa literatura mágica espejea y recrea fulgores míticos. Escribe acerca de dioses y héroes griegos, como Hermes y Ulises, glosa el amor de Cupido y Psique en la novela de Apuleyo (uno de sus autores predilectos), y evoca el retumbante Apocalipsis de San Juan, las apasionadas Confesiones de Agustín, y los intrincados relatos de China, como la gran novela El sueño del pabellón rojo, y el mágico entramado de Las mil y una noches, y episodios históricos tan trágicos como la conquista de México y de "la muerte de los dioses" (narrada por el Inca Garcilaso), y otros famosos textos y fantasías inolvidables. Ya había yo leído este libro (Seix Barral, 1997), pero he vuelto a leerlo en esta nueva y excelente traducción de Díaz de Atauri con tanto placer como años atrás. Porque en sus páginas recobramos la intensa fascinación de esas lecturas mágicas y las releemos en una prosa entusiasta y vibrante. Citati no sólo es un formidable lector, sino un gran relator que conjura los encantos de estos viajes con entusiasmo y agilidad. Sin la menor pedantería y sin lastre erudito invita a viajar por la mejor literatura, y nos contagia ese placer viajero. Invita a compartir su admiración, su alegría experta y jovial.

La luz de la noche. Los grandes mitos en la historia del mundo
Pietro Citati
Traducción de Juan Díaz de Atauri
Acantilado. Barcelona, 2011
475 páginas. 29 euros


Citati combina la agilidad narrativa del ensayista que escribe en periódicos con la mirada de un experto biógrafo
Si La luz de la noche enfoca ante todo textos fantásticos, en El mal absoluto se dedica a evocar a los autores de grandes novelas -sus biografías y rasgos personales- para así introducirnos en los laberintos imaginarios de la literatura del XIX. Siempre con cálida y sutil simpatía hacia sus personajes y sus destinos. Dibuja los escenarios con vivo colorido y analiza la psicología de sus héroes, sin eludir la reflexión filosófica, como ya insinúa el título del libro. (Apropiado sólo a ciertos capítulos). Por ejemplo, Citati relata, en ágil y emotivo resumen, Crimen y castigo y Los demonios, y luego, en contraste, lances de la vida patética de Dostoievski, y resalta su intensidad dramática, del autor y sus personajes, y en esa convergencia trágica (Raskolnikov implica en algo a Dostoievski, y viceversa) nos invita a una más vivaz comprensión de vida y textos.
Como es sabido, ciertos críticos literarios del pasado siglo postularon un enfoque de la literatura centrado en el análisis formal de los textos -sus estructuras y temas- augurando la "muerte del autor". Nada más contrario a esos formalismos que esta vivaz actitud crítica de Citati, que combina la agilidad narrativa del ensayista que escribe en periódicos con la mirada de un experto biógrafo muy atento al contexto histórico. Justo es recordar sus espléndidas biografías de novelistas modernos: Goethe, Tolstói, Proust, Katherine Mansfield y Kafka. (Sólo la de Kafka está traducida al español). En todas ellas hallamos el mismo ensamblaje vivaz de vidas y ficciones, es decir, de lo vivido y lo inventado, del mundo real y el imaginario. En ese juego se muestra la más auténtica y airosa hermenéutica literaria, la que explica cómo la literatura de verdad, la de los relatos más clásicos, enriquece nuestra sensibilidad y nuestro imaginario. Los ensayos de Citati van en esa dirección, y reiteran ese estilo fresco, amable, pictórico, entusiasta.
De modo ejemplar lo hace Ulises y la Odisea. El pensamiento iridiscente. (En italiano, La mente colorata). Admirable comentario del gran poema novelesco que es, sin duda, el más irisado y moderno de los textos míticos, con su versátil protagonista, el héroe taimado de muchas tretas, y sus múltiples y atractivas figuras secundarias. Sus lances y personajes quedan ahí retratados con seductora vivacidad que en otros libros tienen Robinson Crusoe, o los héroes de Manzoni, Dickens, Stevenson o Henry James.
Todo lector es un intérprete, pero hay lectores que por su talento narrativo y su fina y fervorosa sensibilidad -como Vargas Llosa o Claudio Magris- resultan ser guías excepcionales en nuestros viajes literarios, en la relectura de los grandes relatos. Uno de esos maestros de la lectura, infatigable y jovial, es Pietro Citati.

El mal absoluto. En el corazón de la novela del siglo XIX. Pietro Citati. Traducción de Pilar González Rodríguez. Galaxia Gutenberg. Barcelona, 2006. 528 páginas. 24,20 euros. Ulises y la Odisea. El pensamiento iridiscente. Pietro Citati. Traducción de José Luis Gil Aristu. Galaxia Gutenberg. Barcelona, 2008. 354 páginas. 35 euros.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Por um espanto

Nas piores semanas leio um livro; nas melhores nenhum, quatro, cinco ou seis. Nunca li tanto como agora, desde o tempo das aventuras que a minha irmã me trazia da biblioteca à razão de duas por dia. Tenho os meus essenciais e leio tanto para reforçá-los como para os substituir, para não me esquecer deles noutro que procuro. Leio para não me esquecer.
Leio para não me esquecer na roca dos dias, para escapar à minha representação. Somo-nos; não somos. Leio por um espanto. Sublinho, anoto e publico contra o esquecimento. Às vezes escrevo como exercício de consolidação ou de dispersão.
Leio por ressentimento – é o que é – e se escrevo é por vingança. Cada livro abre e deixa um rasto de ignorância. Esta consciência é a única vitória da leitura e dura o tempo de também dela nos esquecermos.
Não sei se leio contra a abnegação, se por ela. Nem sequer sei se a leitura é abnegação já consumada, o esquecimento na sua rememoração. E rio-me no espanto de a cultura vir então a ser o conjunto de jogos / representações com que cada pessoa exercita a sua abnegação, quando não está a exercê-la. A abnegação transferida para aquilo a que cada um toma por seu. Como nos afectos, meu amor.

domingo, 17 de abril de 2011

o vaso e a flor

Ordenou um vaso à flor
que o sol fosse buscar
e a pobre, por amor,
foi subindo sem parar.
Tão depressa ela subia
que cedo chegou a altura,
quanto mais ela crescia,
maior era a curvatura.
Um vaso leve, inclinado
pelo peso duma flor sua,
teve um final azarado,
escaqueirou-se na rua.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Três delírios de uma cabrita seguidos de uma piada

1.
"A mente deveria apenas servir para analisar e viabilizar o que sentimos e não para, como acontece actualmente, aniquilar o que sentimos através da razão e dos medos."

2.
"Se notares, todas as pessoas que perdem um emprego ou é porque intimamente não gostavam dele ou porque o utilizavam para parecer que eram algo mais do que realmente São."

3.
"Quando a perda se consuma, fica um sentimento de revolta difícil de controlar.
Qual é a solução?
A de sempre. Aceitar. Aceitar que atraiste esse despedimento ou essa doença ou essa falência para prestares mais atenção às tuas escolhas. (...)"

E a piada:

"Este livro e este CD com o exercício substituem o curso?
Não, absolutamente. As pessoas deveriam ler este pequeno livro e fazer este exercício do Eu Superior antes do curso, para que aproveitassem melhor todos os recursos espirituais que ensinas no curso."

Alexandra Solnado in O Eu Superior e outras lições de vida (Pergaminho, 2011)

sábado, 2 de abril de 2011

Resumo do Resumo

É assim

Não interessa o que se diz, o que se escreve
não interessa. Não interessa como se diz
seja embora o como não de todo isento
de interesse. Não interessa a hora, o dia
o lugar. Não interessa onde nem a quem
nem para quando nem para quê
Não interessa porque se diz o que se diz
Muita coisa há que não interessa, aliás
quase nada interessa tratando-se de dizer
Não interessa quando se diz, mas interessa
menos ainda, isto é, nada mesmo
o que se diz ou o que tal queira dizer
Interessa o quê, então? Interessa o mar, o mar
em si mesmo e aquilo que acontece quando o mar
nos cai em cima, prevenida ou desprevenidamente
O mar, o mar sim interessa, mas
convenhamos, o que é que há a dizer
quando o mar nos afaga ou nos cai todo em cima
e nos submerge e afoga? Toda a água
todo o frio, todo o azul, todo o verde que há no mar
Como soi agora dizer-se ao iniciar uma qualquer
explanação, é assim: não há nada a dizer
e quando então alguma coisa se diz, o que é que isso
pode querer dizer ou que raio de interesse poderá ter?
Estão a ver a situação: o mar, toda a monstruosa
porção de água que o mar é, todas as cores
todo o frio e toda a espuma, toda a luz também
e escuridão que há no mar, tudo em cima
de nós. Assim de repente. Que interesse
tem dizer? E dizer o quê? E como?

Rui Caeiro in "Resumo - a poesia em 2010" (Assírio & Alvim, 2011).

Serenidade

"Senhor, conceda-nos a
serenidade para aceitar
as coisas que não podemos mudar,
a coragem para mudar as coisas
que conseguimos mudar,
assim como a sabedoria
para as distinguir."

Reinhold Niebuhr citado por Gabriel García de Oro in "Storytelling - a magia das palavras"  (GestãoPlus, 2011).

domingo, 27 de março de 2011

O eixo da noite

Noite, cortina, cabelo ondulante,
vidraça de mar,
poiso de mulher,
baloiço de agravo e de amanso em véspera de sangue.
A noite exemplar é uma arma apontada
ao queixo que roça
o gatilho, a mão,
o cano na boca
que um beijo fulmina
na rebentação
detrás da cortina indiferente.

O eixo da noite é uma janela suada que hidrata os meus olhos encostados.

Hoje o mar é só um fundo de mar
e os meus olhos são o fundo dos meus olhos.

No fundo da noite carreguei os meus olhos
com a água pesada deste mar e caminho
a rua deserta
até me afundar nas pedras.

Para acabar de vez com a poesia: Adília Lopes

No final de cada poema interrogar
e o que é que tu queres que eu te faça?